AVN – Capítulo 53 – Uma harmonia diferente!


CAPÍTULO ANTERIOR

Quarto dia, do primeiro mês, da terceira estação de setecentos e oitenta e sete depois da grande queda, Giant tree. Ruas cheias de pessoas sem olhares, sem destino, caminhando no neon disforme, meio borrado, vezes cinzento; de carros de sola ionizada flutuando entre ruas escuras e uma avenida infestada de luz.

Míchkin estava lá, com Anne, num carro modelo T-9, em alguma missão estranha. O cigarro que flutuasse com sua sensualidade e as pessoas passassem ao redor, no tumulto.

Silêncio era caos, não gostava tanto, enquanto acoplava Turing num adaptador de terceira geração e invadia a rede pública do polo político da cidade.

Um segundo, mil tentativas de senha, com tantos usuários e tantas combinações de IP, que ninguém suspeitaria; pelo menos não em tão pouco tempo. 2 segundos, entrava; de Turing deslizando entre códigos e se esbarrando com 3 tipos de Firewalls enquanto buscava a porta do proxy principal. Anne estava conectada com visores Blueye da Bug’Spy, invadindo o escritório de um secretário chamado simplesmente de Alexandre Touloise. Ele era primo de primeiro grau de André Touloise e seu braço direito, mesmo que meio incompetente. Papéis se empilhavam pela sua escrivaninha, de vários projetos e documentos pedindo para serem autorizados e repassados. Anne pousava em alguns, gravava as imagens numa Red Disk, e ia embora. Bugs’Spy eram limitadas pra esses tipos de operações, sendo preferível a espionagem virtual. Porém Turing via problemas em algumas questões, havia muitas portas, vários servidores, e que, toda vez que entrasse em um, via-se desperdiçando seu próprio tempo tentando sair. Míchkin tinha uma outra ideia, de refazer a própria análise de modo que as verificações das portas fossem menos randômicas, compreendendo no processo os servidores sendo definidos pela prioridade do uso da GPU geral, que conectava a rede lan de computadores.

Estamos dentro. — Diria. — Preparei o Controller Wörm e desconectei Turing. 10 TB vão vazar na GW as 11 horas de hoje. Preparem Jó, porque, mesmo com o delay que forcei no Firewall, ainda devem ter alguma outra trava de segurança.

Entendido. — Era K quem dizia. — Um requisitou outra missão. Vocês tem que sequestrar um estagiário.

Estagiário?

Sim, é da empresa privada Níquel Power, um gênio, aparentemente. Sofia estava pesquisando sobre pessoas de grande saber para compor a equipe e ele se encaixa no perfil. — Um arquivo era aberto no painel do carro, um documento bibliográfico referenciando o alvo. — Você devia dá uma olhada na tese que ele andou pesquisando sobre uma nova cepa de bactérias que poderiam vir a ser uma alternativa ao ouro no caso de Hardwares processadores.

Dava uma olhada por cima.

Parece ser realmente interessante. — Apagava seu cigarro, pedia pra Anne seguir pela estrada. — Uma ideia ousada demais. Fico me perguntando, por que a NP não comprou a ideia por inteira.

Querem sufocar. Se isso se desenvolver num espaço muito curto de tempo, a tecnologia defasada, que no caso é bem mais lucrativa e que envolve uma porrada mais de setores, vai ser trocada por algo mais barato, de potencial lucrativo menor e que envolve indústrias que nem mesmo foram consolidadas ainda. É justo de algum modo, mesmo que do outro lado, esses patronos da tecnologia querem apenas manter a margem de estabilidade. — Míchkin lia o arquivo.

Pelo que vejo, isso democratizaria a indústria.

Anne fumava, olhava para as placas da ponte São Jeremy, pegando a estrada para Warm Place.

Parece papo de liberal retardado. — Ela diria. — Não tem essa de democratizar. A Níquel Power vai achar o meio de limitar a indústria … to nessa a cinquenta anos e é sempre assim.

Míchkin veria os arquivos e olharia para o polo industrial, para as labaredas fugindo de canos e canos sobre canos se retorcendo entre estruturas metálicas. Luzes seriam abordadas, pendidas em cada esquina, junto de máquinas de guerras transitando e mercenários aprimorados quais fumavam pelos cantos.

Cheio de Transumanos … — Pegava a Blueye, fazia uma varredura. — Drones passam por aqui?

Melhor não … — Pegava um binóculo militar. — por aqui tá cheio de radares. Não quero disparar nenhum alarme silencioso.

Míchkin pegava uma maleta do banco de trás, abria: tinha uma pistola de cano suíço; cheia de furos estratégicos, que não dava um grito. Anne a pegava, dava um cheiro, e ele apenas se contentava com uma pequena bolsa, cheia de microchips. Tomava alguns, elas eram bem pequenas, menor que uma unha e eram feitas para serem postas ao longo de nossas costas.

Não olhe muito. — Paralisava nas planícies brancas de Anne. — Fico constrangida.

Instalava-os de um em um pelas costas dela, com suporte de uma agulha elétrica e um emissor de infravermelho. O processo era doloroso, de você estabelecendo o sinal com a agulha entre os nervos e os chips, e o infravermelho programando a intensidade de cada. Eram inibidores de dor, suporte pra ultraconsciência que o espaço vazio demandava. Pessoas normais não curtiam, o barato fodia o sistema nervoso central e você ficava demente. Do tipo de Anne não, pelo contrário, ela se tornava uma super-humana, quase que capaz de fazer qualquer coisa. Via as coisas com mais quadros, tinha atenção de tudo, uma capacidade de concentração absurda. Uma vez, ela mesmo tinha dito, no efeito havia colocado um plug neural descapado no cérebro e quase que conseguiu hackear toda GW. O foda era que havia perdido 20 por cento da capacidade cerebral no processo.

Eu vou entrar por aqui … — Ela apontava para o mapa, seus olhos, cheio de chips inibidores, brilhavam.

E eu fico aqui? — Tragava um cigarro.

Dá uma ligação pra 435, ou Lunar, qualquer uma das suas vadias. — Tirava um pequeno frasco do bolso, com um pó branco, e dava um raio. — Só não se esquece de ficar de olhos no desempenho dos chips. Se eles queimarem em sequência, posso ensandecer completamente.

Entendo … — Queria dizer algo a mais.

Até logo!

Ela deslizaria para fora do carro e como uma sombra, sumiria pelo complexo. Míchkin ficaria lá, olhando os 93 pontos verdes quais oscilavam na tela do rádio. Tomava um suspiro, olhava para as labaredas e tirava Turing uma outra vez.

Liga pra ela … — Turing nem mais tinha voz.

Para dizer o quê? — Uma parte da sua alma talvez?

O que você acha que eu tenho que dizer?

Te diriam para não dizer nada, então só fumava, se lembrando de tudo, cada detalhe, entre aqueles dois anos entediantes. Havia levado uma dura de Um, depois do lance com os Kalashinikovs, havia levado 435 as assassinas, para que ela não ficasse tão distante.

Turing … — Mas havia algo absurdamente errado. — Liga pra ela …

Havia quase que completamente se esquecido de Lunar. Depois daquele dia, a visitara apenas mais algumas vezes, mas no fim, estavam quase 6 meses sem se falarem. Não que fosse por displicência, mas era que tinha algo errado, que o constrangia.

Quem é? — Escutava sua voz rouca de sono. — Hey … quem é? — Dela continuamente tentando ligar o vídeo. — Míchkin? — Como ela poderia saber? — Míchkin?! — Ele se perguntava num suspiro …

Desligaria, era verdade; não tinha nada à dizer. Nem sua face poderia ter que percorrer, e o medo te fazia se esconder. Acendia outro cigarro, era o terceiro só naquela noite e sentia que não seria o último. O cheiro de nicotina incrustado nos bancos de poliéster e espuma. Olhava para o rádio, pegava o teclado diminuto e reprogramava. Todas os chips na cor verde, na cor verde clara e depois laranja e então, desacoplava, um por um, lentamente e falava para Anne que já era hora.

Estava tão tarde e ficava cansado de estar só, consigo mesmo, olhando as mesmas imagens. Anne se aproximaria depois, suja de sangue, com um microchip na ponta dos dedos.

Ele pediu por isso? — Míchkin perguntava, e Anne, com um sorriso, diria:

Por que você não pergunta pra ele?

Instalava o microchip no console do carro, e realocava dois RedDisk na memória interna. Alguns minutos, tudo se transportava, os dados se configuravam, até uma voz surgir no fim, de seu âmago.

realmente transcendi? — Dizia. Sua voz bailava nos mínimos detalhes, fossem eles femininos ou masculinos.

Não … — Míchkin olhava pra Anne, pros seus lábios. — Ainda não …

Mas eu me sinto tão livre …

Se sentia tão estranho ao som daquilo.

Comparado a estar na carne, qualquer coisa mísera é liberdade.

Míchkin pensava: “como ter a consciência presa num carro se compara a liberdade?”. Era incompreensível, como todas as mentiras já contadas. Mesmo assim respeitaria, pois se para ele fosse, o que poderia fazer?

Na verdade não, precisava fazer algo, não agora claro, enquanto precisasse dele, mas sabia que, algum dia, lhe contaria a verdade.

Vamos pra casa … — O carro deslizava por entre tantas estradas, sem vontade …


Fontes
Cores