AVN – Capítulo 52 – Não somos feitos apenas de sinapses!



Deslizaria outra vez por aquela noite, com aquela mesma frase martelando na sua cabeça. Matar, matar e matar. Já estava com a pistola num dos bolsos do casaco, indo pelas ruas, com aquela fumaça soprando no seu rosto. Um beco de canos retorcidos, cheio de moribundos jogados por aí, na própria desgraça, tossiam pelo sereno gelado. Putas tentavam se esconder enquanto voltavam pras suas famílias.

Tomava um suspiro enquanto controlava seu peito, se lembrava das coisas e se preenchia de perguntas. Elas poderiam esperar, claro, mesmo assim muitos declarariam como um pouco doentio ter alguém como Anne te esperando, junto dum anjo como Lunar. Queria fumar um cigarro, ou beber alguma coisa. Já estava meio dependente e tal, principalmente pra controlar seus nervos.

Igor. — Aquele era o nome e em Redneon quase ninguém tinha um. — Kalashinikov.

Pegava Turing, pedia pra ele mandar uma mensagem. E continuava atravessando os becos. Na verdade queria se encontrar com alguém antes. Precisava conter aquele sentimento; precisava racionalizar um pouco. E estava armado, uma pistola de alto potencial magnético, de 15 tiros, cabo de couro. Custava pelo menos uns 100 mil Rps na sua conta e só havia aquela; um projeto perfeito de artesanato. Nunca havia dado um tiro sequer, mas Turing dizia que era quase como um canhão magnético. Era uma merda, pilhas de plutônio te causavam nojo, mas nada podia ser feito. Os revólveres baratos não davam conta de nada; pensaria, na travessia da Fog’s Angel, perto da Light Avenue. Olharia para o bordel Redneon enquanto passasse por lá, pra sua forma cúbica disforme, como se fossem vários quadrados incompletos em cascata no fúlgido vermelho.

Engraçado, diria, vendo quão vazio estava naquela hora da noite. Algumas prostitutas ainda fazendo ronda, desesperadas, tentando encontrar qualquer homem pra finalizar a cota da noite. Dava pra ver em seus rostos a deformidade, possivelmente viciada em drogas, cheio de dívidas, quase desistindo da vida. Seus rostos, um pouco envelhecidos, meio amarelados, com a maquiagem um tanto escorrida de lágrimas e garoa, nada importaria a um bêbado, porém nem bêbados mais restavam. Passava em frente de Redneon, pela fachada e todas te tietavam; tocavam seu corpo, alisavam seu casaco, diziam coisas obscenas vendo-o se afastar lentamente.

Merda … — Continuaria pela avenida, na verdade foi até ali com um só motivo: se encontraria com ela. Mas como podia saber onde ela estava? Bem, tinha alguma ideia. Turing havia rastreado um IP e o IP te dava a chave. — Mas é engraçado, pra viver no Plaza … — Acendia um cigarro. — Quem é que tá te sustentando?

Pausava numa fachada enorme, de uma calçada iluminada de um vívido e noturno roxo. Fumando, com um sorriso, olhava para os seguranças: guardas da plastic tree trajados de terno e com submetralhadoras em mãos. Aquela era a segunda casa da máfia.

Olhava, se aproximava e perguntava pra algum daqueles: — Conhece alguém nomeada Vênus? — Todos tinham o mesmo olhar quando perguntados. — Sou um amigo sabe, vim fazer uma visita. — O cigarro lançado ao chão, os membros biônicos fazendo seus sons hidráulicos. Brilhava o polímero, e uma fumaça saía quando fazia movimentos. Era fato: pra entrar na plastic tree, tu tinha que doar alguma coisa do seu corpo. Não atoa todos os integrantes tinham aquelas próteses.

Antes de tudo, só entra nesse prédio dois tipos de pessoas: os que têm dinheiro e os superiores. — Era uma ideia estranha: quem tinha partes substituídas eram considerados superiores. De alguma forma era verdade, mas não sabia se poderia ter todo seu corpo desmontado. Uma ideia estranha, por assim dizer.

Eu tenho dinheiro, é o suficiente? — Eles se entreolhavam. — Parece que vou ter que convencer! — Tirava sua pistola. — Aço de verdade polido a ser parecido com prata, não essas merdas de minerais sintetizadas na East Taurus … — Os olhos de retina reconfiguradas faziam suas curvas, pegando seus números seriais; analisando num nível quase que atômico.

Tem até inscrição … veja só essa merda. — Emprestava a pistola pro colega que dava uma olhada mais leiga; apenas tinha seus mesmos olhos, inapropriados, involuídos. — Por que nos deu essa merda? Tem medo não? — Olhava para aqueles olhos. — Realmente … me perdoa. Apenas entre … ela está no quarto 890, oitavo andar. Vou dizer que você está subindo.

E ia. Pegava sua pistola e ia. Os corredores de carpete de fios sintéticos eram macios, dava pra sentir através das suas botas; vendo aquele visual erótico de quadros e espelhos, da orgia entre o dourado, branco e vermelho. As portas do elevador eram grade e a subida tão suave e silenciosa que podia-se escutar perfeitamente a melodia melancólica da música. Queria respirar o mesmo ar que ela logo, esperava bastante tempo, mesmo que sentisse ser meio afoito. Uma paixão da juventude, o desejo de encará-la na sua própria realidade; de vê-la ao seu lado da forma como verdadeiramente é, e não como a idealizava. Se lembrava de como ficava sentado, com medo, imerso em seu próprio silêncio, observando; questionando sobre o que ela amava, temia, que te desligava. Pedia pra Turing mandar outra mensagem.

Será minha! O elevador terminava de apitar e saía pra outro corredor, com um enorme quadro sobre o nascimento de Afrodite. — E o que também será meu?

Também estava lotado de câmeras o corredor; não das novas, quase microscópicas, que vigiavam apenas pelo calor. Não, era uma daquelas antigas, do tamanho de um dedo, pendurada na entrada de cada quarto, sem pontos cegos. Olhava pra cada uma delas, dava um sorriso, um cumprimento, até se encarar com a porta 890 e desmanchar cada pedaço. Dava uma batida, o som seco e uma resposta distante. Demorava, e estava impaciente, mesmo que já estivesse respondido. Batia à porta outra vez e estava lá, ela mesmo: Seus olhos verdes te encarando, seus cabelos dourados. Queria tomá-la ali, como também tinha um pensamento doentio de saber que não valeria seu tempo.

Entrava, a encarando, sem olhar pelo quarto, repousando em alguma poltrona qualquer.

Me reconheceu? — Ela fazia que sim, mordendo seus lábios. — Não minta pra mim … — Fechava o rosto, mantendo um sorriso. — Sei quem um dia fui. Então para de fingir, tá okay? — Ela se aproximava, como se não te importasse, dançando, tirando algumas peças de roupa, alisando seu corpo. — Está com J-Down?

Não … — Respondia. — Estou com qualquer um que me interesse. — e começava a tirar o cinto de Dois Meia.

Sou mais interessante que J-Down? — A ideia não entrava na sua cabeça. — Sabe que ele veio da Giant Tree, né? E que o pai dele é André Touloise, o cara que deseja nos trazer a verdade. — Ela parava, ponderava por um momento. — Quer desistir agora?

E dava um sorriso. — Não, é só que … você acabou de me confirmar o que eu já sabia … Dois Meia Tiraria um cigarro da parte interna do seu casaco, apático. — Fica com ciúmes?

Tragava e cuspia fumaça. Ela estava entre aquela dança cinzenta com seus olhos perfurantes e o mesmo sorriso, te dizendo pra desistir, pois já estava conduzido a tragédia.

Você sabe quem eu sou? — Perguntava.

Sabe que não … — Olhava para o teto, ela tirava suas meias.

E mesmo assim sou mais interessante que J-Down?!

Pegava suas bochechas, não o deixava continuar; tocava sua testa na dele, trocando suspiros, fixando olhares.

Um milhão de vezes mais! — Ria. Não conseguia parar. Como daquela outra vez, não que ela se importasse tanto.

Por que? — Ela sabia que ia perguntar, se afastando, procurando alguma coisa pra responder.

Eu não sei exatamente nada de você. — Ele se levantava, tirava sua camisa e ficava nu.

Você sabe alguma coisa, apenas não quer acreditar … — Vênus faria um ar de surpreendida. — Mas não vamos entrar nesse assunto: é filha do falecido Elias? — balançava a cabeça dizendo que sim. — Isso explica muita coisa; uma princesinha da máfia, de cabelos dourados, brincando num colégio público, voltando pra casa sozinha, se apaixonando por trombadinhas! Inevitável, eu sei.

Fazia silêncio.

De que porra você está falando?

Ela se sentava pelo carpete, olhando-o de olhos semicerrados. O cigarro ainda aceso ficava entre suas faces, como se tudo ainda fosse nublado.

Sei lá, algo do passado … — Ia nu, até o bar. Pegava um copo e uma garrafa de conhaque. — Não gosta dele?

Do passado?

Quem mais?

Não saberia exatamente como responder, movendo seus braços como numa dança, se espreguiçando. Lentamente retirava suas roupas também, como se procurasse alguma coisa para dizer. Parecia não ter nada, contemplando num sorriso, vendo-o beber despretensiosamente enquanto encarava um distante quadro numa das paredes do quarto. Se sentava, olhava para o chão rapidamente, e depois se levantava, indo abraçar sua cintura, repousando a cabeça naquelas costas largas.

Você não veio me foder? — Perguntaria, com os braços atravessados, alisando seu peito, como se pedisse mais que isso.

Vim … — Pausaria. — Mas agora não tenho toda certeza. — Ela o apertava mais fortemente. — Eu tenho um problema, Vênus …

E qual é? Diz pra mim …

Continuaria com os olhos fixados naquele quadro e diria: — Continuo procurando algum lugar para me sustentar. — Ela se desprendia. — Não é você, sabe … infelizmente consegue ser bem mais frágil que eu.

Ela se sentava na cama.

O que te faz dizer isso? — Pegava um cigarro também, acendia. Havia só fumaça entre ambos.

Conheço muitas pessoas e sei do seu tipo. — Ela não o encarava mais. — É daquelas que vai se acomodando até perceber que nunca foi dona de nada …

Terminava seu copo, colocava em cima duma bancada. Vênus poderia estar silenciosa, mas por já o encarava. Seus olhos daquela fisionomia insípida poderiam perfurá-lo. Não que importasse, ela era incapaz de ver qualquer coisa, no fim.

Se eu te pedir pra sair do quarto, sairia?

Uma outra risada.

Se você chegar a pedir eu saio, mas sei que não vai fazer isso. — Lentamente, se aproximava. De fronte, com seu sorriso, se ajoelhava, pondo suas mãos na coxa dela, como se implorasse. — Você realmente quer me contar alguma coisa incrível … eu sei que quer …

Pegava no seu queixo, dizia: — Isso pode ser verdade. — Colocando-o próximo de seus lábios. — Não me convenceu ainda … por quê não me diz algo sobre você?

Repousava sua cabeça naquelas coxas.

Eu te amava … — Ela não conseguia entender uma coisa sequer. — O brilho de sol dos meus dias naquela merda de lugar …

Cruzava as pernas; expulsava aquela cabeça de seu repouso.

Ainda insiste nessa ideia? — Seu cigarro queimava. — Caso eu tenha estudado num desses colégios de merda, que diferença faz? — Não é sobre disso que tratavam ali. — Se você era um apaixonadinho em mim, o que eu tenho a ver? — Se lembrava do seu cigarro afundado num cinzeiro. — O que importa é o presente.

Olhava como se contemplasse, aproximando seus lábios ao dela. Vênus via, os olhos que piscavam e o sorriso. O que planeja? Se perguntaria.

Você realmente não gosta dessa louca ideia sobre o passado, né … — Pegava no queixo dela também, observava cada detalhe daquela face. — Muitas vezes fiquei me questionando se essa merda existia de verdade. — Tirava seus dedos, andava outra vez pelo quarto. — Concluí que existe, só não gostamos muito de admitir. — Se sentava na mesma poltrona. Era ela quem se aproximaria naquela vez.

Você teve uma ereção … — Ela encarava o corpo dele, esperando algo. — Te excita tanto assim falar de si mesmo? — Faria que sim. — Acho um pouco irritante … quero dizer, quando eu tenho que falar sobre mim … é muito chato, sabe.

Pedia que ela se sentasse no seu colo.

Você só precisa se admitir. Ela beijaria aquela boca como se alguém fosse partir. E ele olharia para Vênus, tomando uma ideia sobre algo, querendo perguntar mais coisas, dizer alguma coisa importante. — Sabe meu nome? — Ela olharia pro seu rosto, sorrindo por nada. — Acho que não te importa.

Beijaria ela por sua própria vontade, teria seus lábios, seu corpo. Imaginaria dela disposta aos seus braços, envolta de carícias, tomada de um sorriso. Existiria parcamente sobre a luz, deslizando através de um ritmo curioso; sobre a dança contínua e incessante. Seus seios eram pequenos, na verdade ela era; seu corpo parecendo ser o de uma adolescente qualquer, tão maleável quanto vento.

Você é estranho …

Sentia-se dentro dela, sentia-se em algum lugar especial; nalguma parte só de Vênus, onde, naquele momento, só haveria ele. Se lembrava de Medea, de como dizia que ela era especial, mas logo se esquecia. Seu corpo, tocado, era manejado de modo prazeroso, lentamente conduzido a ela, que trapaceava, fazendo-o se sentir único; levando-o a mentira dos seus lábios.

Você também é … — Diria, deitado, olhando para o teto, a esperando. E ela iria, como se predestinado, beijaria seu rosto, diria coisas agradáveis e após ascenderia, como as chamas consumindo oxigênio; se levantando, dançando ao vento, com suas brasas incendiando e suas cinzas compondo a lenta morte que esperamos. A tomaria, observaria e ao fim desejaria, havendo em cada desejo um espetáculo diferente, dele para ela e dela para ele. Terminariam empapados de suor, esparramados pela cama. De novo olhando para o teto, acendendo um cigarro.

Ela poderia dizer algo como: — Gostou? — E ele não daria nenhuma resposta, olhando pros olhos dela, com um sorriso qualquer. — Por que você nunca me responde …

Se levantava, ia até o bar outra vez, preparava duas doses de conhaque. Ela diria que não gostava, mas não que importasse; bebia por ele mesmo os dois copos.

Você não tem janela. — Cada parte havia uma parede e apenas uma entrada de ar escondida não os faziam sufocar. — Me sinto claustrofóbico. — Ela olharia, meio curiosa.

Nunca me foi um problema … — Se aproximava, roubava o cigarro de sua boca. — Mas se quiser podemos ir pro seu apartamento, se te incomoda tanto assim …

Olharia diretamente pros seus olhos, com um sorriso, e depois se voltava pra poltrona, pegava sua pistola entre as roupas jogadas pelo chão e se sentava.

Diria: — abre a porta pra mim por favor. — E ela nada entenderia. Sorria, como se pensasse ser algum joguinho, mas então bateriam na porta e ela ficaria atônita.

Quem é? — Perguntaria e responderiam:

Míchkin vai te dizer quem é. — Dele fazendo sinal pra abrir e dela dizendo algo como se estivesse nua. Ele sorriria e ela não saberia o que fazer. Destrancaria a porta no fim e se misturaria aos cobertores, esperando entrar quem quer que fosse. — O que você tá planejando?

Entravam no quarto dez homens, a maioria vestida de casacos velhos e jeans esfarrapados. Suas caras cansadas, estavam sujas, como se tivessem de ter terminado um expediente.

Qual desses daí foi? — Perguntava, com a arma apontada pra Mítia.

Não sei, melhor perguntar pra eles. — Tomava um sorriso. — Quem aqui fodeu uma freira? — Ninguém responderia.

Então é melhor eu ir matando de um em um? — Mítia tinha seu sorriso no rosto, de olhos afiados e balançando sua cabeça como se que sim. — Entendo, então …

A arma fazia um som engraçado, como um assobio, e seu bocal se abria de forma estranha, com faíscas sendo expelidas do seu interior. Um cérebro se abria, com sangue e massa encefálica agarradas numa parede não distante. O corpo, retorcido, ia ao chão, e seus olhos, descrentes eram incapazes de dizer o que havia acontecido.

Mas que porra?! — Mítia gritaria, alguns soldados da plastic tree sairiam de seus quartos. — Você é maluco, caralho?!

Não tinha resposta. Os soldados de Mítia sacando seus revólveres e apontando para aquela poltrona tão perto. Vênus não se encolhia nos cobertores, perguntando o por quê para Dois Meia, que estava com tantas armas na sua cara.

Dança minha dança Mítia. — Diria. — Eu não quero te foder, você sabe.

Ele estava lá, de pé, encarando aqueles olhos, querendo saber até onde era verdade. Te fazia sentir ódio, como também impotência. Dava um sorriso ao fim, sentia ser uma merda.

O que você tem? — Poderia perguntar.

Acho que ódio. — Apontava e atirava noutro. Os olhos não acreditando no que viam: outro caído, seu corpo esparramado, de sangue e um crânio aberto, expondo as mesmas coisas de sempre. Até Mítia apontava sua arma daquela vez, como se encarando um lunático.

Eu disse pra dançar minha dança Mítia, se não eu vou ter que te foder, você sabe.

Ele não tinha uma resposta sequer. Na verdade estava sentindo outra coisa, com seu sorriso paralisado e seu revólver lá, apontando pra cara dele, sem nem consegui se imaginar disparando. Era medo, diria. No entanto, não tinha certeza do porquê. Olhava pra ele, estava nu. Uma garota no canto escondendo suas vergonhas e aquela pistola apontando dispersamente por aí. Também se perguntaria como ele acertou tão precisamente cada crânio. Talvez nem mesmo fosse capaz disso.

Por que tanta segurança? — Alguns dos soldados se aproximavam, com suas submetralhadoras apontando para o grupo e gritos ensurdecedores sobre ordem ecoando pelo quarto. — Acha que tenho medo da plastic tree? De Um?

Sim … — Matava outro e todas as armas apontavam para si. — Você tem muita coisa a perder, que eu sei.

Não poderia dizer nada e via outro dos seus morrer. Quem era ele, todos da plastic tree perguntariam; quem são aqueles? Perguntariam também.

Um homem quase que completamente mecânico, aparecia, careca, como se tivesse em seus mais de cem anos, trajado de batina e um chapéu coco, ambos da cor alba. Seus olhos, mecânicos, faziam sons como se deslizassem, indo e retornando; analisando cada parte perfeitamente, compreendendo a situação. Tinha dois chips em cada têmpora e uma entrada neural de encaixe do tipo Y a mostra.

Vocês estão causando hein! — Seu sorriso era cínico, mostrando os dentes amarelados e os componentes neurais em sua gengiva, que te fazia sentir os tantos sabores esquecidos pelo tempo. — Fico impressionado com a capacidade de fazerem tanta merda na minha casa. Será que Redneon virou bagunça e não to sabendo? Ou será que a plastic tree está perdendo o respeito? Quantidade de noia que já expulsei, prostitutas também e sabe o quê mais? Vocês em breve! Pouco quero saber o que há e nem me importo como minha sobrinha pode estar metida nisso. Vós, cavalheiros, fizeram toda a quantidade de merda possível numa só madrugada. Orgulhosos?

Dois Meia tomava um sorriso terrível.

Cala a porra da boca, seu velho broxa. — Todos arregalariam seus olhares. — Essa é a droga do meu palco e você não vai querer perder cada detalhe. Agora você, meu caro Mítia: Realmente vai querer levar isso adiante?

Mítia estava paralisado. Via ousadia beirando loucura, como também encarava toda a merda cheirando por debaixo das suas narinas. Dois Meia continuava portando sua pistola, apontando-a para todos, sem pudor. Se perguntava agora do porquê ninguém até aquele momento havia disparado, e chegava na conclusão que talvez fosse por aquela garota, se percebendo numa encruzilhada: veio mesmo sabendo para onde estava indo, mas não sabia até onde ele seria capaz de chegar por isso.

Quem foi? — Ele perguntava e ninguém tinha a capacidade de responder. — Quem foi?! — E todos da sua laia apontariam para os cadáveres lançados ao solo. — Péssima estratégia, agora não sei quem foi realmente e será impossível de saber no fim.

Saber o quê?! — O velho gritava, como se tivesse querendo falar já há algum tempo, impedido por algo.

Estupraram uma freira, e foi alguém da família dele. — Dois Meia responderia. — Não te diz tanto respeito assim.

A plastic tree ainda não conseguia assimilar. Estavam observando eles, sem saber sobre muito; aquele grupo não parecia ter medo, tão imerso nos seus assuntos.

Você me falta muito respeito. — O velho tiraria um revólver dourado, polvilhado de brilhantes, do tambor da grossura de um punho. — Poderia me dizer pelo quê?

Não te importa.

Disparariam, mas nem mesmo uma bala te acertava. A poltrona ficava rasgada e a parede atrás de si marcada, com o pó caindo sobre seu corpo; através da sua expressão inalterada.

Vai continuar me faltando respeito?!

Não responderia nada, disparando de qualquer forma em direção através daquele velho, acertando outro um entre tantos Igor’s. O sangue flutuaria e alguns gritos de pânico ressoariam, desacreditados. Todos se esconderiam através dos poucos lugares dispostos através daquele quarto.

Você é maluco? — Mítia gritaria. — Quer morrer, porra?!

E o velho perguntaria: — Conhece esse doido? — Apontando sua arma pra face de Mítia.

Sim, conheço. Não vem ao seu caso, é assunto nosso. — O velho afundaria aquela arma na bochecha dele.

Vem na porra do meu caso sim! Esse noia não é comum, eu conheço gente dessa laia! E pior, agora ele tá naquele quarto, deve ter enganado a porra da minha sobrinha. Sabe o que é isso? Se não souber te explico: ele pode fazer o que bem entender lá.

No primeiro andar alguém entrava.

Ei, Vênus. Chega aqui. — Ela dizia que não, mesmo assim tinha um sorriso. Por algum motivo gostava da situação, todo aquele clima. Estava abafado, tantos armados e ele com todo controle. Parecia absurdo demais, e incrível portanto, te deixando de algum modo excitada.

Lá fora, diriam: — Se importasse tanto assim, porque caralhos até agora não chamou ela pro seu lado?!

Eu não sei porra! — O velho diria. — Vênus, vem pra cá. Deixa esse noia, que merda tá fazendo aí pra começar. — Percebia não ter nem o começo da linha. — Aliás, quem é você?! — Voltava a afundar seu revólver naquele rosto. Algum dos seus soldados rondava.

Lá embaixo, alguém lentamente subiria as escadas. E no mesmo andar de sempre, Dois Meia diria: — Júpiter Apple, caro amigo! — O velho botava seu rosto para dentro. — Temos uma chegada prevista. Então, escolhe: deixa eu terminar o que comecei, ou tenha uma desagradável surpresa. O que há? — Ele não sabia responder. Na verdade sentia medo, uma quantidade acima de qualquer limite de medo.

Mítia observava, como se querendo correr também. Os soldados eram mais burros, e não sabiam de nada. Estavam lá, com suas submetralhadoras apontadas para os Kalashinikovs, sem saber realmente quem eram, apenas com a consciência de que tudo estava muito estranho.

Vênus, minha linda, tem certeza que não deseja vir até mim? — Ela queria dizer que não de novo, mas, mesmo assim, se aproximava, nua, andando com todo controle. Os poucos que te viam não poderiam dizer que estavam admirados, pois lá estava Dois Meia, apontando sua arma para o vazio, encarando aquele rosto; a beijando. — Fez uma péssima escolha, sabe? — Ela não se importaria. — Pensa que é apenas uma linda e breve primavera … — Júpiter escutaria do corredor, como se estivesse louco. — Então que seja eterno enquanto dure …

Alguém apareceria no corredor. Estava vestida de um blazer negro feminino e tinha uma pistola em mãos. No peito dela, um broche que todos conseguiam facilmente reconhecer.

É a porra das assassinas … — Mítia enlouqueceria.

Anne! — Correria nu para o corredor. — Eu sabia que viria, eu sabia que viria! — Ela olharia como se visse um louco. — Só faltava você pra completar meu primeiro quadro a essa cidade maldita. — Teria um enorme sorriso. Ela olharia, tentando compor alguma coisa, observando os cadáveres pelo chão do quarto, a turba de soldados biônicos apontando suas armas ao grupo de Mítia e o mesmo com uma arma afundada na sua bochecha por Júpiter Apple. Que imagem!

Por que tem uma assassina em Redneon? — Mal conseguia dizer qualquer coisa. — Que merda está acontecendo aqui. — Nem suas retinas adaptadas, os chips de processamento flutuante nas suas têmporas, ou até mesmo o anexo de memória volátil acoplada na caixa craniana conseguia dar qualquer resposta.

Você tá fazendo a pergunta errada … — Mítia diria. — tem essa mania, sempre tira seus olhos do foco principal. Veja, quem realmente importa nesse momento é aquele garoto ali.

O que quer dizer? — Tirava a arma daquele rosto, endireitava sua batina.

Ele nos enganou, porra, ele nos enganou! — Endireitava suas roupas também.

Todos os personagens não sabiam o que dizer realmente, olhando aquele ali, nu, falando tão animosamente com uma assassina; o louco com todas suas palavras.

Eu posso terminar meu arco? — Anne diria que não. — Então tenho alguma coisa ainda para dizer? — Falaria que sim. — Entendo, então o que digo: aquilo que devo ou apenas aquilo ao momento?

Diz seu momento … — Ela apontaria sua arma a Mítia.

Eu quero a cabeça do seu sobrinho, meu caro. — Todos olhariam pra Mítia. — Igor Maximovitch Kalashinikov, o moleque que levou J-Down ao crime, um dos filhos do seu falecido irmão. Eu sei o que esse filho da puta fez; minha querida benfeitora tremia encolhida nos meus braços repetindo esse mesmo nome; e eu to aqui, pensando que você fosse fiel aos seus donos. Seu nepotismo falou mais alto, né? Achando que simplesmente me enganaria … Anne, acho que estava errado … — Perguntaria o porquê. — Acho que tenho que falar sobre tudo. O que acha?

Infelizmente seria traição …

E se ele tivesse nos traído primeiro? Pode até me dizer que não vem ao caso; realmente ele era incapaz de saber com quem estava lidando. Mas reter informação depois que deixo ele se redimir de tal pecado? Me diz: acha mesmo que temos algo com ele?

Você tem que saber que quem mais importa aqui é Um.

Realmente, você tem razão! — Levantava sua pistola. — Tantos contatos seriam perdidos. Então vamos a um acordo, meu caro Mítia: dê-me a cabeça do filho da puta do Igor! Pode fazer isso? — Estava tremendo e poderia dizer que não. — Sabe que vai perder tudo assim, né? — Perguntaria se não tinha outra coisa; estava de joelhos, chorando, rogando! — Então me dê sua vida. — Ele paralisava, encarava seus próprios joelhos, com a face avermelhada como se não tivesse ar para responder. — Realmente me diz sim? — Dava um disparo no carpete. — Realmente me diz sim! — Mítia tremia, todos seus soldados perderiam o ar. — Então tá. Diz para todos seus homens que não há mais Kalashinikovs; Diz para todos que sou seu dono! — Não poderia dizer que não. — Anne, olha … realmente somos feitos apenas de conexões; Como no espaço cerebral, de inúmeros neurônios, estamos na sinapse, simplesmente vendo as informações passarem. Sabe o que é isso Mítia? Um dendrito recebendo impulso ou um axônio mandando, simplesmente, fazendo com que toda estrutura funcione regularmente, a que nada se estagne? Vejo que sim, por isso é necessário a sinapse e eu sou feito apenas disso, estou vivo por conta disso agora. Essa foi a raiz e é isso que te fode. — Apontaria pra Vênus trazer suas calças. — Anne, acho que eu amo mesmo conflitos … — Ela abraçaria seu braço.

Você é feito de sinapses. Conflitos te deixarão demente … — Vênus te traria suas calças, completamente nua.

Mas quem disse que desejo ser a lucidez. — Sorriria e desapareceria daquele prédio.

Uma noite marcada diriam, de uma notícia que percorreria toda Redneon. Não que importasse a alguém.

Anne …

Sim?

Acho que finalmente estou pronto pra ela.

Mas não como se fôssemos feitos apenas de verdade, na manhã que a todos acordava e fazia dormir apenas as criaturas da noite, destruído pelos próprios vícios e coragem. Mesma noite ainda, mesmo corredor de cadáveres e soldados mecânicos; três palavras: — Mas que porra.

Nunca tinha conhecido alguém feito apenas de loucura e coragem. Não que fosse o fim. Em Redneon, sabia ser inevitável reencontros. Era como uma pequena caixa aquela merda de cidade.

No seu quarto, não diria, nem mesmo dormiria. Olharia as próprias imagens, ansioso, questionando se fosse de bem ou mal; de sorte ou azar. A linguagem, pena, não fosse tão bonita assim; fosse um caos.

Lunar … eu só queria te foder … — Nunca diria para ela. — Você sabe que estou pouco me fodendo pra você ou sua mãe. — Cada personagem ilustre. Mas no fim dizia pra Igor, amarrado naquela cadeira, naquele quarto podre, de torturas. — Igor … eu não tinha nada contra você. Na verdade você que se foda, entende. — Tinha um martelo. Cada palavra, uma martelada. — Outra verdade é que sinto um pouco de ódio dela … eu chorei, ela me faz fraco. — Cada fala, uma dor incompreensível. De todos seus crimes, Igor pensava por qual deles estava pagando. — No entanto, no fim, acho que amo todo mundo … de algum jeito … — Os gritos que não cessavam, sua canção favorita. — Medea foi só sexo. Três capítulos da minha vida. Seu filho nada demais, só um merdinha como eu. — Fumaria um cigarro. — Passei três anos numa biblioteca e assim que vi a primeira mulher, fui um louco atrás dela. — O embebedaria de querosene. — Tenho Franker na minha cabeça, e ele ama Um pra caralho. É um louco, toda vez que durmo, me diz a mesma coisa. Como posso viver minha vida assim? — Derramaria seu cigarro sobre seu corpo. — Acho que ele quer viver seu romance por mim e eu, como um papel em branco, não tenho nada pra fazer. Me diz, o que você faria se tivesse um superpoder? — Mítia estava lá também, segurando pra não chorar. — Fui conduzido até o final por um som invisível, dela o tempo todo aqui na minha cabeça, desde a primeira vez que a vi. — Sairia do quarto. — Um é mais perigosa que a névoa; que me abraça e de graça me doa uma doença. Que fosse seu erro. Não, acho que ela me preenche de vida, por isso sou tão dependente dela … ao fim — A luz e a neblina daquele beco. — Não como se eu fosse feito de reencontros. — Deslizaria, no completo fim, não havendo a ti nada além de nada.

Descobria: — Acho que era a voz da névoa que cantava nos meus ouvidos o tempo todo desde que a conheci. — Além do desgosto sobre si e as inacabáveis mentiras. — Na verdade acho que bem antes disso. Eu penso: por que caralhos ajudei aquele velho? Não sou uma pessoa boa, nunca fui. Sempre fui a droga de uma pária. Aqueles moleques me metiam a porrada porque eu roubava a caixinha da igreja sempre que eu podia, porque eu sempre comia fora, inventava mentiras pra que fábrica não contratasse ninguém e depois me fazia de vítima. Eu tinha um amigo, lembro, seu número era 457. Amava ficar do seu lado porque ele era o mais fraco, parecia a porra de uma bicha, e todo mundo gostava de zoar com ele. Me lembro, até cheguei a beijá-lo uma vez, mas foda-se. De vez em quando eu pensava o quanto eu podia brincar com os outros e no fim, quando percebi que não era ninguém, me recolhi. Deixei que me atacassem, me permitir me apaixonar por alguém que nunca olharia para mim, como coloquei na minha cabeça do quanto eu era incapaz. Nunca mereci nada, não sou escolhido de merda nenhuma, mas penso: será que não é verdade, que ela já cantava por mim a tanto tempo no passado. Por isso aquele espasmo; de tudo já predestinado a ela. — Fumava um último maço, estava num quarto de tons pastéis. — Ou posso estar só delirando; que seja. Já me lembrei do porquê amei tanto Medea: minha mãe também foi uma prostituta! Ela foi, por mim; uma salvação da minha vida. Sabe, Depois que meu pai morreu, descobrimos a quantidade de dívidas com a Plastic Tree que tínhamos. Sem dinheiro, eles deram a oportunidade que ela se prostituísse. A outra opção era vender meus órgãos, então meio que me salvou mesmo. O foda é que ela odiava essa vida. Te dizer, ela era cristã como você, e depois da morte do … você sabe quem, ela ficou bem mais religiosa. Se prostituir acabou a fazendo atirar na própria cara e é isso … — Estava repleto de lágrimas. — É isso que me fiz esquecer … é isso que me fez querer destruir essa imagem merda de mim, que me fazia entrar naquele lixão cheio de depósito radioativo e ser tão merda com todos ao meu redor. Eu não queria viver toda minha vida, queria morrer. Na verdade quero até hoje e sabe o que mais? Não me importaria se você enfiasse sua unha no meu pescoço e me fizesse sangrar até o fim. Eu veria a escuridão e antes, seu belo rosto … o que você acha …

435 estava lá, te encarando, com os profundos olhos que ela sempre mantinha, olhando nos dele com gentileza; não sabendo de que forma também segurar suas lágrimas …

Você se atormenta … — Diria e ele afundaria sua cabeça naquele colo, sem dizer nada, apenas ali, fingindo não ser o mesmo verme desprezível; sendo apenas alguma outra pessoa digna de pena.

Queria ser forte como você …

Limparia suas lágrimas.

Você nunca conseguiria ser …

Fim do volume 1!



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