AVN – Capítulo 51 – Uma canção sem harmonia!



Dois Meia nunca conseguiria recuperar sua bicicleta. Na verdade, um dia depois de pegar seus documentos no orfanato, ele descobriria que ela havia sido recuperada por um órfão de número 357.426.189, que também trabalhava na fábrica de pilhas de plutônio. Ele era negro, alto, mas absurdamente delicado. Tanto, que dava pena; possivelmente deveria ser surrado, ou por vezes chamado de bicha pelos becos. Isso te recordava de coisas, um passado qual não valeria a pena retomar. Não tinha esse desejo de reaver coisas dolorosas, tanto que mal ia para o orfanato se encontrar com 435. Vivia apenas de alguns encontros aleatórios. Não que importasse, desistia também da ideia da escola técnica. Após frequentar algumas aulas, sentia saber bem mais do que qualquer um por lá, o que desanimava e por fim o fazia desistir por completo. O melhor que fez então foi conseguir um emprego de gerente, pela recomendação de Heichi, na prefeitura de Redneon. Nem sabia que existia, mesmo que o escritório ficasse num prédio luminoso, perto da Light Avenue, do centro. Era irônico, ela ficava de frente para um dos bordéis, aquele que dava nome pra cidade.

Redneon, duma estrutura sensual, sempre banhada de vermelho, tinha dois andares, num formato irregular, como se cheio de cubos. Seu interior, havia entrado após o trabalho num dia frio, tinha tons roxos ondulando por sua face, onde dezenas das mais lindas mulheres dançavam, balançando seus corpos, vestidas a se expor, encantando os olhos de cada homem. Cadeiras e poltronas dispostas como num labirinto e bares que percorriam todo cenário. Era a base da Plastic Tree, qual sustentava toda aquela rede criminosa. Era curioso, sempre ia ali, bebia um pouco, mesmo que só. Tinha um sabor interessante e era de algum modo simpático, por mais solitário que fosse, ficar lá, sentado, embebido de luzes, imerso em silêncio. Depois da primeira semana, começou a ir com um colega, chamado Kairus, filho de um engravatado do subdistrito D, cidade de SoftTorn. Ele era engraçado, esse tal; bebia e contava sobre toda sua vida, enquanto agarrava umas putas e pagava suas companhias. Dois Meia o mantinha por perto por isso, pelo ar dele de sinceridade e da forma como era superficial. Sempre diria: “Em toda essa merda hurh … em toda essa merda de cidade; desculpem; em toda essa merda de cidade, conheço só um cara mais bonito que eu, e ele se chama Míchkin e por incrível que pareça tá solteiro.” Normalmente dizia isso quando tinha toda atenção, cada pessoa ao seu lado, as prostitutas rindo; “Mesmo tendo um apartamento massa e um emprego foda, não quer cair pra cima de ninguém, fico pensando: mas que porra!, mas é aquilo né, um homem santo pode acabar se guardando por toda uma vida” Sempre ria quando ele falava essas merdas. Não podia encarar melhor o bom comportamento dele, principalmente pelo fato que era ele quem pagava toda aquela esbórnia, o que te permitia juntar quantia suficiente pra sustentar certas viagens.

E sobre elas, ia dia sim, dia não. Pegava um taxi, 30 quilômetros depois estava lá, tão próximo dela e sua mãe, como algum tipo de filho retornando ao lar; da face radiante de Lunar e sua mãe, qual acompanhava sempre o bom humor. Vezes se perguntava do quê contemplava realmente por lá? Tinha aquele pensamento delas terem uma dívida muito grande com a Plastic Tree – algo em cerca de 3 mil Rps –, e que precisava ajudar, seja nas compras de casa, com pequenas quantias, além do principal que era sustentar os estudos de Lunar para que o futuro não a assombrasse tanto. No entanto, não fazia por ti. Era engraçado, muitos benfeitores existem apenas pela volúpia, mas Dois Meia não tinha esse sentimento. Na verdade ele se via lá apenas por uma simples e sincera razão de responsabilidade, como se, de algum modo, fizesse parte daquela família, e que fosse obrigação sua ajudar. No entanto, também pensaria sobre outra coisa; imaginava do como era incrível o esquecimento não sair de si e do tanto que ele se materializar ao seu redor. Tinha essa ideia as vezes quando via as ruas pela janela do táxi, com uma visão bem curiosa em mãos, sobre tudo e mais um pouco e nossa indignação sobre.

De vez Anne questionaria: — Você está feliz vivendo assim? — E sempre se perguntava se poderia dizer que sim.

Observava, ela lá, bebendo do seu uísque, sentada no seu sofá, pensando em algo, enquanto tocava alguma coisa de tristeza no fundo. Observava pela janela as ruas infestadas de luzes, silencioso. — Por que gasta tanto tempo se dedicando nessas ninharias e mentiras? — Queria dizer o motivo, mas não tinha como. — Sei que está trabalhando na prefeitura, mas não sei o que quer lá. Sei que está visitando uma garota qualquer, mas não sei se é por sexo, se é por amor platônico, ou apenas egoísmo. O que me diz?

Não era por sexo. Retornava ao mesmo parágrafo de que talvez fosse o esquecimento, porém se recordava: não era por sexo que tudo brilhou tanto? Perdia seu texto ao fim, bebendo um quarto de uísque numa golada, olhando pela janela, sem responder nada. E Anne, do seu modo, o acompanharia.

Possivelmente, ela começava a gostar de passar seu tempo naquele apartamento, sempre lendo algo, ou descansando a cabeça antes de desaparecer com o tempo. Tinha algo como relaxante, a vista da janela, a sensação gelada que emanava, o cheiro de álcool e louça suja, a escuridão. Parecia combinar mais com seu tipo de vazio, onde os desejos misantropos sempre se elevavam ao seu máximo. Bebia com ele, sentia o agradável clima, via os carros e luzes piscarem no ameno silêncio, até se reaver com a realidade.

Sobre Anne, naquele ponto em Redneon, estava coordenando os Kalashinikovs a mando de Um e Sofia. Elas diziam que levariam guerra, e mais, desejavam conquistar todo distrito F e E, como também todas as sociedades fora do distrito, durante o cessar fogo promovido pelo grupo de liberdade humana e a juventude pela liberdade. Tinha a ideia de que os Utilitaristas já estavam comandando o poder médio dos distritos, entre toda faixa de D a C e pequena parte da B. Era um tanto injusto, considerando que o subdistrito A já estava sendo comandada por Marius Orfan e os Sub E e F eram terra sem lei. No entanto, veja, pra Um era bem mais fácil iniciar onde não havia nada do que tentar reestruturar onde Koltrain comandava. Dois Meia não sabia o que pensar sobre. Turing até falaria que era guerra perdida. Todos os servidores já estavam loteados; pois, se de um lado não se importasse, doutro mantinha algum interesse. Era só lembrar daquele rosto, daquele corpo, da aura que sempre emanaria de seus poros fazendo que tudo tivesse sempre a aparência mais linda. Também o modo evocante de amar, de parecer que ela apenas desejava cuidar.

Mas eu também me lembro daquele olhar … — Tinha duras dúvidas em seu peito. — Ela me olhava como um verme, me fez rastejar, e apenas me respeitou quando fugi de suas mãos. — Tomava um outro copo de uísque no seu monólogo, tinha algo transparente, brilhando, em seus olhos. — Acho que estou aqui por isso: enquanto continuar fugindo dela, ela continuará a me respeitar. — Concluía. — Acho que nunca senti nada por Medea, acho que apenas o sentimento incrível que eu tinha de saber que ela estava lá, me observando, sendo feliz nos braços de outra pessoa, que me enganavam. — Se perguntava se ela o vigiava. Poderia dizer que não, mas sempre haveriam dúvidas. Um era capaz de tudo, até de se sentir certa estando tão errada. — Não posso continuar assim.

Era uma noite como todas as outras, Anne já havia saído e estava sozinho. Era um tanto ruim, pois nesses momentos, por algum motivo, doía, como se estivesse sendo digerido por algum organismo apático.

Quero me encontrar com coisas bonitas. — Diria, escutando aquela música semi-estática; dos seus olhos mortos caindo pelos reflexos embaçados. Não tinha amor e Ia para o bar, falava com a velha Dália, cheia de sorrisos, e ia à praça. Não tinha o costume, mas de vez tomava um cigarro e por lá mesmo fumava. Não te fazia tanto mal, e gostava do sabor amargo, enquanto encarava todos aqueles jovens festejando, bebendo, falando alto. De vez em quando, se perguntava: “eu não tenho a mesma idade?”. Mas era aquela, já esteve muito tempo dentro de si pra precisar reafirmasse noutras pessoas. Alguma coisa de si mesmo, por isso não te tentava ficar com eles, naquela algazarra, preferindo aproveitar o sublime do cigarro. Normalmente, passaria horas consigo mesmo, de um por um, pensando em nada, no entanto, tinha um sentimento interessante, como se houvesse alguém de verdade próximo de ti. Olharia pra multidão e se aproximaria: uma turba de trombadinhas que não queriam nada, de idade variando dos 13 aos 20. Não podia deixar de ri quando chegava na roda, pegando um copo e enchendo de bebida. Tanta gente te observando, sentindo como se um estranho chegasse apenas pra perturbar. Seria questionado, mas com um sorriso, diria apenas: “estou com vocês.” e todos ririam, vendo que não era ninguém a se temer. Uma figura pra se tornar o material de maior interesse. Era engraçado. “Quantos anos?” Perguntariam. “Tenho 18”, diria, “Faço 19 em breve”; e todos se questionariam. Era o único ali com emprego, apartamento próprio, dizia, como também o único com algum tipo de vida decente. O chamariam de playboy, também engomadinho, oferecendo produtos diferenciados e com garotas atraindo-o pras suas teias. Mas não era bem disso que vivia, ou se importava. Havia alguém, já foi dito, porém não tinha certeza. Seus cabelos eram castanhos e seus olhos, negros. Baixa, parecia ter algo entre 1,50 e 55, vestida de qualquer jeito, com shortinhos jeans, uma camisa de tecido fino e barato e jaquetas jeans, cor oliva. Ela era linda, mas ninguém se aproximava, com um rosto pequeno e magro, de grandes e expressivos olhos. Precisava saber quem era, por isso estava lá, fingindo ser alguém que não era, sempre a olhando, tentando compreender, até que te vinha a tona, meio que estúpido. Ela era a garota que ele observava; sim! Ninguém menos. Ela apenas tinha mudado a cor do seu cabelo e estava um pouco mais desbotada, compondo quase que integralmente aquele ambiente. Quem observaria senão ele; achar o ouro por debaixo dos entulhos da vida. Ia pra cima dela, com duas garrafas de cerveja e um sorriso. Diria: — Ei … — Mas ela não responderia nada. — Como vai? — Além de silenciosa, estava acompanhada de um cara meio estranho. Ele tinha uma cicatriz de queimadura na cara e usava óculos, mesmo que fosse noite, estando de regata e bermudas de praia. O que chamava atenção era seu cordão, uma plaqueta de identificação, com as informações gravadas de diamantes falsos. Era caro, muito caro, algo quase como 10.000 mil Rps. Em Redneon, era óbvio, podia só ser por furto, mas tinha outra informação, sobre daquele ser alguém de fora.

O tal até perguntaria: — Quem é você? — olhando fixamente em seus olhos. Fútil tentativa de intimidá-lo, olhava. No entanto, ela, a figura questionada, sequer se virava, no seu mesmo silêncio, transparecendo no ambiente.

Alguém importante. — Não queria dá a resposta, mas fazia. Olhava também fixamente pra ele, e a encarava, com a cerveja em mão, oferecendo.

Parece mais com um palhaço. — O cara fumava. Seu cabelo era raspado, e seus olhos tinham um quê de arrogância. Seus lábios se distorciam odiosamente, e sua tez pálida fazia Dois Meia sentir-se como se estivesse falando com algum tipo de fantasma.

Qual seu nome? — Precisava perguntar. Tinha a séria intenção de criar uma desordem ali, surrá-lo o suficiente pra que calasse a porra da boca. Mas claro, não faria sem saber qual tipo de objeto era.

Me chama de J-Down, filho da puta!

Ria, até que perdia o ar; não conseguia nem se sustentar. Era alto, todos observavam, e J-Down lá, perplexo, com um pouco de raiva, querendo saber o do porquê. Até a garota tinha alguma reação, tentando entender.

Você é o Júnior Touloise, né? — Sorriria de canto a canto, sem saber mais se segurar. — Um trombadinha diretamente exportado da Giant Tree. Quer saber, foda-se! — Levava um soco, era engraçado, não sentia exatamente nada. — Ei você … — Estava parado lá, o punho estático no seu queixo e todos os olhares pousando sobre. — Cuidado. – E simplesmente escorregaria pela noite, como sem rumo, sem se preocupar com nada. Não diria nem adeus pra aquela garota; se esquecia do seu nome. Sabia que não tinha nenhuma coisa pra si, talvez encrencas, mas imaginava, por que não arrebentava aquele retardado? Se lembraria do que Anne tinha te dito sobre o lance do sequestro dele, mas parecia furada. Um plano realmente muito ruim perfeitamente executado. Podia deslizar o rosto dele pelo asfalto, mas não. Como era intragável ser humano e confuso. Não que importe, já virava uma esquina quando te chamavam. Era ela e dizia algo como:

Ei, você! Quem é você? — Estava ofegante como se tivesse corrido atrás, mesmo que não estivesse realmente muito distante dele.

Não sabe quem eu sou?— Não tinha exatamente toda certeza. — Mas eu sei exatamente bem quem você é. — Como? Queria saber, apenas olhava pra ele: parecia ter dinheiro, era bonito, então como não reconhecia. Sabia quem era cada um, tinha certeza de tudo. — Não me olhe tanto assim sem dizer qualquer coisa. Um outro dia eu te procuro. — Pegava um táxi, escorregava por aí. Não queria exatamente estar em Blacklight, não era um lugar saudável, sabe; tinha todo um clima radioativo ao redor, ionizando suas células. Te cansava. Se sentava no banco, olhava pro motorista que te perguntava:

Mas para onde você vai? — Esse mesmo era um pouco estranho: branco, loiro, gordo e baixo. Talvez sua mulher risse de seu estado, possivelmente nem seus filhos te respeitassem; sua filha já fosse uma prostituta e o filho algum trombadinha mal encarnado. Não que te importasse, mesmo tendo vários pensamento estranhos, bem maldosos. — Quer apenas ir por aí? — Não sabia o que passava por aquela cabeça, mas sabia o que tinha naqueles olhos. O taxista não precisava ter todas as palavras.

Sim. — Responderia, sem sentir praticamente nada. — Quero só desaparecer por aí.

O taxi desancorava, seguindo pelas ruas iluminadas, repletas de gente. A light avenue repleto de homens de ternos, prostitutas e drogados. A prefeitura silenciosa, alguns bares e restaurantes infestados. Olhava pra tudo com desprezo, passeando com seus olhos. A degradação completa, o afastar da poesia e mais alguns outros elogios sem sentido. Um pouco deslocado, havia feito tudo certo até ali, na tentativa de se encontrar, mas talvez percebesse que nunca de fato tivera amor. As paredes pichadas do beco, os pequenos bazares ainda abertos naquela noite. Sentia o cheiro da fumaça mesmo que as janelas estivessem fechadas; o fedor de mijo e vômito escorrendo pelas calçadas. Dois Meia poderia dizer que era apenas de ódio que vivia naquele momento e finalmente entendia, um pouco, Anne. Tinha daquilo, ela podia viver como uma lunática, mas no fim fazia por não ter mais nada. Tanta coisa que ele já fez, que ele poderia fazer, mas se mantinha inerte. Não era de solidão que reclamava.

Posso fumar? — Perguntava? O motorista dizia que sim. Olhava firmemente o céu sem estrelas em cada trago. Podia ser um tanto ruim estar como estava, no entanto ainda tinha algo bonito. É possível que nos expressemos em coisas simples. Tentava imaginar como se casado com alguma pessoa qualquer, no mesmo trabalho, no mesmo apartamento, juntando Rp por Rp até um dia se mudar para algum subúrbio de classe média no subdistrito B ou C. Pensava no cheiro de grama cortada, nas crianças brincando no jardim e concluía que não deixaria o tempo te levar; antes desse final desprezível era certo que poria uma bala na própria cabeça.

Um gosto amargava na sua boca, olhava pela calçada, reconhecia alguém. Era aquela freira, número 435. Ela estava andando sozinha, como uma ninguém, na escuridão de uma rua qualquer. Pedia pro motorista parar, abria a janela e gritava: — o que faz por aqui, nessa hora? — Não dizia como um curioso, na verdade era um tanto autoritário, como se fosse pai dela ou algo do tipo. E Ela se assustava; era repentino e naquela escuridão não ajudava em nada. Não que importasse. Ela estava com um dos olhos arroxeados e tinha um corte na boca. Seus cabelos desgrenhados escondiam uma testa coberta de suor e podia se ver uma bochecha manchada de lágrimas. — O que houve? — Perguntava, mas ela não parecia querer responder. Seus lábios tremiam, se perdia a compostura, tentando compor alguma frase. Dois Meia apenas podia abrir a porta do táxi e pô-la pra dentro, pegando naquelas mãos frias, sentindo seus tremores enquanto a conduzia. O taxista olhava pra situação sem compreender.

Ela precisa ir ao hospital? Perguntaria.

Não, me leva pra onde você me encontrou. — E Dois Meia responderia, jogando o cigarro pra rua e fechando a porta. Queria perguntar mil coisas, queria saber do porquê se preocupava, mas sabia que não era importante. As ruas movimentadas pareciam mais mortas, as luzes como se apagassem, do som e os homens deixados a margem. A 435 encostava sua cabeça no peito de Dois Meia como uma criança assustada, se agarrava nos seus braços, tremia, com seus cabelos sendo alisados. Murmurava algo, ele não queria escutar. Preferia que ela se acalmasse e que pudesse dizer com suas verdadeiras palavras, dizendo algo como: — Não se preocupe. — dela não parecendo acreditar. — Se acalma, acorde desse pesadelo, não se deixe ser engolida. — se agarrando mais e chorando. Queria também dizer que ela não estava sozinha, mas poderia ser muito. — É aqui.

No fim apenas fugiria do táxi, dela agarrada nele e ele não querendo soltá-la por nada. A velha Dália via, Heichi também. As pessoas do bar tinham alguma ideia, mas não te importavam, voltando a pegar suas bebidas, comendo seus petiscos, as mesmas conversas paralelas de sempre. Entravam no elevador!

Eu … eu … eu … — Ela não sabia o que dizer, via. Percebia alguns hematomas escondidos pelo seu corpo também. Começava a sentir algo estranho, qual inflamava seu interior por inteiro. Perguntava:

Quem foi? — E ela paralisava. Seus olhos arregalados e avermelhados não conseguindo enxergar nada além da escuridão. Perdia seus sentidos, sufocava; seus soluços matavam as palavras e Dois Meia não poderia pedir por mais. As portas abriam, o elevador apitava.

Seu quarto limpo, estava com Anne lá e Lunar, delas parecendo estar se entendendo de algum modo. Não tinha interesse, colocava 435 no sofá e ia pra cozinha, pegando um copo d’água e o kit de primeiros socorros.

Bebe isso, tenta se acalmar. — Sua mão ainda tremia, ela não tinha ar nem mesmo para beber. — Respira fundo, você ainda está viva; ainda pode fazer com que tudo fique bem melhor. — Ela o encarava, tomava em longos goles. Seu olho roxo era limpo, o ferimento na boca também. Anne e Lunar olhavam.

Quem é essa? — Não respondia. — O que aconteceu com ela? — Poderia dizer que não sabia.

Cuida dela. — Ia pra sua gaveta, pegava algo, voltava. — Quem foi? — Ela ainda não conseguia dizer nada. — Eu não sei o quanto dói, mas posso te dizer que sei o quanto melhorará; só precisa me dizer quem foi! — Anne se juntava. Pegava uma cadeira, olhava.

Você não está tão certo assim. Na verdade tá sentindo apenas raiva. — Dois Meia nem se virava pra encarar. — Se acalma aí; para de ficar assustando ela. Não vai adiantar de nada, você sabe …

Fica quietinha aí. — Responderia. — você não se importa que eu sei. — Ela suspirava e olhava através da janela, sorrindo. — Me diz quem foi! — Lunar não tinha uma resposta sequer.

Você não pode … Se desmanchava. Eu não posso … Era de impotência que sofria, qual lhe rasgava lentamente, te fazendo trapos. Queria dizer algo que consolasse, que a fizesse se sentir especial. Não tinha nada, nem uma sílaba sequer.

Você pode me contar … Seus olhos queriam perfurar os dela; dela sem reação, apenas lágrimas.

Eu … eu …

Anne diria algo: Você não fez nada de errado. Se aproximando e a encarando. será melhor confiar em alguém do que guardar tudo pra si, sabe.

Seus lábios voltavam a tremer, queria dizer algo. Murmurava: Igor. E Dois Meia ensandecia.

É um começo, mas não precisa dizer o que queremos. Anne se sentava ao lado, dava o ombro e alisava seus cabelos. Na verdade, não precisa dizer nada até ter vontade para isso. Olhava para Dois Meia, como se pedisse pra não fazer nada além do seu roteiro. Descansa, você é uma guerreira e sei o quanto precisa disso. 435 chorava, pois na verdade queria dizer muito, apenas não tinha forças. Pensava em algo, se desmanchava. Tinha um pensamento estranho, na verdade tudo era estranho. Sempre que pensava no que podia falar, perdia forças e quando não podia, vezes se enganava de que tudo estava bem. Não estava, ela sabia, precisava de forças. Se sentia como reduzida a nada – a cacos; um sentimento delirante de ser despedaçada. Pegava um pouco de força e falava:

Mata esse filho da puta … Dois Meia não entenderia de primeira. Sua voz estava fanha, seu corpo desmoronado, nos braços de Anne, sendo consolada. Por favor … Ela queria fazer por si mesmo, pra dizer a verdade. Tinha algo queimando no seu olhar. Ela estava triste, se sentia fraca, na verdade como se tivessem roubado algo muito importante de ti, no desejo de retomá-lo. Mata esse filho da puta, por favor. Seria apenas lágrimas.



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