AVN – Capítulo 5 – A carta e a menina do beco!



Voltaria para sala Oito nove depois de um momento. Seu rosto repleto de hematomas, seus punhos manchados, com um enorme sorriso no rosto. Se te perguntassem o que houve, ele responderia:

Você tinha que ver como estavam os outros caras!

As garotas da sala o paquerariam, dos meninos te louvando, sendo apenas nosso protagonista, lá, em seu canto, que se queixaria. Ele era um merda, sabia, não que se importasse realmente com isso. Sua mente, ainda naqueles tolos pensamentos pacifistas, não conseguia deixar de desejar está no lugar daquele que era paparicado ao mesmo tempo que se censurasse por algo, sendo assim a forma como se passava aquela manhã, até a aula acabar e ele ser forçado a ir embora. A imagem da menina que se despedia o causando certo vazio, mesmo que não fosse para ele o tchau tão desejado. E o pior, ainda eram apenas meio-dia, onde ele ainda teria todo um meio expediente para fazer e um péssimo dia para continuar.

Desceria as escadas, desprovido de vontade, onde delinquentes fumavam e se drogavam, passando pelo refeitório onde alguma gangue vencedora escutava música e gritava, seguindo em direção ao corredor sujo, de armários depredados e paredes pinchadas, passando ao lado de uma trade de letras garrafais que brilhavam em neon roxo, onde a I.A anunciava: “Sprout-Cola: Não pense, viva!”

Saindo, ele se encontrava com sua bicicleta nova, em perfeito estado, porém, com uma carta colada, com durex transparente, no guidão. Ele abria, se atordoando na leitura, sendo o conteúdo daquela carta baseada em apenas três linhas essenciais, que o encheria com sentimentos distintos de ansiedade e paixão.

Entre essas linhas belas, mas vagas, dizia-se apenas:

Vejo que você me vê; quero te vê também; encontre-me às nove no beco leste do orfanato de Saint Mary; PS: aquela que também te vê.

As mãos de Dois Meia tremeriam, seu corpo entrava num frenesi, da sua alma flutuando. Seu paraíso pessoal era descoberto num minuto breve e todo o seu ser regojizava. Até iria contente para o meio expediente, que ficava numa fábrica de pilhas perto da Praça de Parthré Soint, com sua bicicleta cantarolante cortando a névoa e a paisagem depredada.

Estava tão alegre, que seu dia, repleto de descarregamento de caixas lacradas com material nuclear, limpeza em lugares diversos e montagem incessante de pilhas brilhantes de plutônio, se tornava até recompensador, passando de uma forma tão rápida e discreta, que Dois Meia sequer sentia as dores no corpo ou o costume estranho do seu peito doer, além de outros derivados do seu trabalho diário na fábrica.

A noite – a tão esperada noite – surgia então rapidamente e Dois Meia saía de seu expediente com um enorme sorriso no rosto, ao contrário da face cansada que normalmente tinha ao fim desses dias.

Em direção ao orfanato, ele tentava imaginar, pela milésima vez, quem poderia ser aquela que o esperava.

— Será que é ela? — Sonharia. — Não pode ser, nunca nos falamos! Como poderia ser?

Pelas noites no bairro de Blacklight, o perigo tinha o costume de rondar, com becos escondendo luxúria iluminada pelos letreiros luminosos e cortados pelas luzes escorregadias de uma névoa selvagem. A violência se misturava com o breu da miséria, além do glamour das bebidas e os cigarros fétidos. Bares e boates estando lotados e os sons recorrentes de tiros escutados por toda a parte. Sussurros por socorro ecoavam por toda parte e o resto era erótico.

Dois Meia desviava do cenário mórbido pela rota que havia composto em prol da própria sobrevivência, virando para o beco leste. O local estava escuro e enlameado, além de estar repleto de lixo. Era um aterro comum iluminado pela luz da noite, porém Dois Meia ainda decidia ligar sua lanterna, aparecendo ali a figura de uma silhueta feminina. Ele parava sua bicicleta, enquanto bochechas coravam de ansiedade. Seu coração batia rápido com aquela visão, dizendo, sem reconhecer muito:

— Ei, você é a garota da carta? Aquela que também me vê?

Havia um certo nervosismo te corroendo, numa visão primaveril bem ingênua. Se tivesse que dizer alguma coisa, não saberia, queria apenas que ela dissesse algo que fosse belo e te levasse para longe.

Sim … — Mas também pensava se não seria exagero da sua parte. Quer dizer, ela apenas falava que te via, e se te visse, o que ela poderia querer? Eu sou aquela que te vê… — Te preocupava, talvez estivesse com a opinião certa; talvez não fosse de amor que ela buscasse, mas algo diferente … — … e castiga! — Queria pedir perdão pela sua pretensão, sabia o quão nojento era pensar … — O que pensa disso?

Não tinha resposta, na felicidade então momentânea e o sentimento vibrante que padeceria. Não sabia se ficava atordoado, na verdade sentia outra coisa, parado, com seu olhar catatônico, onde ela sacava um cassetete e acertava brutalmente seu queixo.

“isso …” Seus olhos fugiriam para cima, enquanto caía. Ele via seu rosto pardo, seus olhos castanhos, o cabelo alba, vestida dum sobretudo com capuz, além do seu sorriso. Aquele cassetete pousando nas costelas rígidas e os braços fúteis, que mal te protegiam. “tão previsível” Te faltava ainda mais alguma para chorar, um detalhe importante. Um ser desprezível procurando a felicidade e caindo na mais cruel armadilha da vida, isso não era novidade. Ninguém te amava, já sabia, e até poderia rir disso, se cada golpe não fosse como ferro quente na pele, fazendo surgir pelo seu corpo cicatrizes tão lindas. O sangue manchando o solo e alma que dançasse. Vendo, ele sabia: até seu carmesim causava nojo naquela desconhecida. Um chute na boca do estômago mostrando que quem castigava não o deixaria vivo, não havendo clemência nem ao som dos seus ganidos de dor. Uma breve pausa, ele se levantava, tentando se apoiar nas paredes invisíveis. Respiração ofegante, as pernas bambas e seu sorriso. Com um chute no queixo, sua cabeça latejava, onde apenas o encolher na lama e no lixo lhe restava.

Para … — Sua voz sussurraria ao nada. — Por favor, para! — Se perdia no espaço em branco da própria dualidade humana.

— Faz o que ele diz … — Alguém no fundo diria. Tinha certeza que ia se lembrar dessa voz pra sempre. Você não deseja manchar suas mãos com alguém desse tipo …

Olhando para Dois Meia, ela via sua face que inchava junto com o sangue que escorria. Cuspiria. Sem dizer adeus, ela cuspiria; fugindo do beco, em seguida, onde escorregava pelo neon e a névoa como se nada tivesse acontecido.

Por lá, na solidão, além de toda a dor e o desprezo, ainda haveria uma coisa. Era um fato, de que na verdade estava chorando. E o pior, as lágrimas eram tão amargas, que não conseguia mais, não conseguia. Teriam sido mais clementes se tivessem te matado, pensava. Talvez não aguentasse um outro dia, imaginava que não houvesse nada que te restava. As poucas luzes da lua ainda no céu veriam sua face inchada, cheia de sangue e lama, e nem mesmo elas te diriam uma frase.

O foda é que também estou sozinho … Fechava seus olhos, ia para outro lugar. Mas acho que já sabia isso …



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