AVN – Capítulo 49 – Um pouco de mim [Algo de nós]!



Minha senhora se preocupa com você. — Tinha nas mãos uma pistola. — Ela diz que as coisas vão ficar um pouco estranhas nos distritos. Por isso te dá isso. — Era prateada, cabo de couro, leve e fina. Nove milímetros e com um pente para 15 balas.

Anne, diz pra ela que não me importo. — Nos jornais, dizia: “Veritas finalizada e instalada. Novas máquinas de guerras e detetives serão espalhadas por todos os subdistritos.” — Se eu morresse hoje, acho que não me importaria, sabe.

André Touloise estava na televisão, dizendo algo como: “Veritas é a parte fundamental. A nova polícia que proponho sequer existiria se não fosse por ela. E mesmo que digam que a verdade possa violar nossos íntimos, vos falo que ela apenas tornará mais segura a existência. A liberdade não é ilimitada. Precisamos agir dentro de alguns conformes, pois apenas assim podemos garantir que, no exagero de um, ninguém limite a de outro.”

Já parou pra pensar: Ela te ama e mesmo assim fica desse modo, se rebaixando. — Alguns tiros se escutavam, como fogos também. — Ela acha que vai morrer em breve, acha que seu backup foi corrompido e deposita todas as confianças dela em você. Então, me faz um favor, só um: viva!

Na televisão, a câmera deslizava. Muitos estavam eufóricos, mesmo que houvesse silêncio. A imagem dum caminhar confiante, rumo ao cadafalso da figura mais surpreendida. Gritavam um nome, gritavam uma palavra.

Ela não me ama. — Centenas de pessoas boquiabertas, um vestido longo de cor negra, um chapéu a esconder seu rosto, mulheres trajadas de terno a escoltando. — Ela ama algo distante de mim. Quem eu sou, de verdade, ela considera um verme. Amá-la seria mentir pra mim mesmo, você sabe.

Tomava o microfone de André, e mostrava sua face para as câmeras. Tinha um óculos, mas retirava. O batom vermelho quase tocava o emaranhado uniforme do aparato. Podiam dizer que era a mulher mais bonita que já viram em suas vidas.

Deveria ser o suficiente. — Anne Sussurrava. — Não sei por quê quer mais …

Dizia: “A verdade nos libertará, pessoas de cada subdistrito. É uma novidade pra nós, perpetuados na mentira. Mas encarem, é parte do destino vê-la. Suas vidas poderão ser violadas, cada menor erro e bug pode destruir uma existência. Não importa, o contexto geral sempre será a melhor parte. Os contrabandistas de alimentos orgânicos serão presos, as mulheres da vida e seus clientes multados, esposas notificadas e casamentos destruídos. Máquinas de guerras atuarão à sua vontade pelas ruas lotadas, controladas pela mais completa I.A. Nosso escravo, cidadão sem alma, atuando sem consciência. Me orgulha a forma como confiam neste modelo semiperfeito.

Ela vai sair de sua toca? — Perguntaria. Anne não tinha dúvidas.

Ela vai voltar a brilhar, você vai ver!

A televisão piscava, a transmissão também tinha quedas nos servidores onlines. Pareciam querer parar, ou melhor, tantos viam, que era insuportável. Tinha algum dedo por dentro. André estava lá, vendo. Não sabia se estava convencido. Era ironia? Era verdade? Entendia apenas que ela falava talvez toda verdade.

Me dá a arma. — Tinha que dizer. — Não que eu tenha algo com você ou ela.

As telas pareciam quase saltar, pois quem via, sentia um desejo imenso de tocar com seus lábios. Continuava: “O grande André Touloise entende todas as consequências, e tenho certeza do amor dele por nós. É um bem que traz mais felicidade, mesmo que dane poucas pessoas. Chamamos de utilitaristas essas ideias, sabem, sobre não se preocupar apenas com aquilo que nós, indivíduos, achamos melhor. O nós, coletivo, deve mandar. É a razão do porquê levantamos estados.” Havia apenas silêncio. “Não encaram essa proposta de forma menos adversa? Em breve não teremos mais traficantes, não teremos mais corruptos, não haverá austeridade, apenas castigo aos que nunca foram castigados. Marius Orfan, querido amigo …” Apontava para alguém distante, rodeado dos mais bem-vestidos e ilustres. “não acha também essa a melhor ideia possível pra nossos distritos?”

Não tinha resposta. Na verdade ele se retirava, sem nem mesmo que as câmeras focassem. Se perguntavam o porquê.

O que você quer fazer de verdade? — Não tinha ideia. — Sei que não tem medo. Viu coisas que devem ter destruído qualquer expectativa de favor. Então o quê? Tem medo de Um, ou algum tipo de repulsa? Não me entra na cabeça.

Queria sintetizar todas as suas ideias, sem palavras. Apenas olhava, se sentia um distante. O que poderia fazer quanto? A televisão ligava, não por ti, ou dela, quase como um espasmo e ele via: Um no cadafalso seguida de Sofia e Anne. Ela estava ali contigo, como também na tela. Não fazia sentido.

Ela quer te encontrar, quer dizer … passo por passo … e você está aí, sozinho. Se ela morresse, o que faria? Pelo seu descaso, acredito que nada. Não como se eu fosse deixar, mas de vez em quando sinto que ela sofre. Então, o que faço? Pra ela, não sou nada comparado a você, o que me é engraçado. — Ela tinha um sorriso maldoso a devorá-lo. — Sabe, se eu quisesse, poderia tê-lo matado, mas o que me restaria ao fim? Navalhas a cada esquina ou algo pior. Por isso tenho que te fazer de meu protegido, até aquela do outro lado perceber que você não é nada.

Apontava a arma para a cara dela.

Bang. — Só precisava dizer. Ela não tinha reações, apenas esfriava, observando como segurava aquela e apontava pra sua face. — Você me odeia tanto, mas deveria saber que antes de tudo, deveria se odiar. Ser um verme antes de tentar ser uma deusa. — Ela não tinha palavras. — Me dá o novo endereço de Um, posso acabar visitando-a. — Ela se sentava. Seu peito doía por algum motivo.

Já fiz o upload dos arquivos. Turing deve achar a qualquer momento. — Se continha. Precisava ter total compreensão da sua existência, entendia, por isso o odiava. Mas como? O fato era que naquele ponto, até Anne poderia se ver absorvida. — O que você fez com Sofia? Ela nunca … nunca … nunca chorou. — Tinha isso entalado na garganta.

Questionei a existência e suas dores, ela no entanto, foi surpreendida. Apenas um choque. — Tinha todas as respostas. — E você, não choraria se eu te perguntasse o que mais te doeu?

Acho que te mataria. — Olhava para a janela, e encarava as luzes e o neon de blacklight. Haviam tantas cores e tantas pessoas que não entendia como tão pouco espaço abrigava tanta gente. — Eu tenho uma missão hoje, não quer me acompanhar? — Não entendia nem mesmo o que dizia. — Só me acompanhar. Talvez você ame o clímax ou a ausência desta.

Dois Meia olhava atentamente ela. Podia ser algum tipo de truque, mas o que poderia fazer? Seu corpo era um catalisador atômico e a destruição dum, poderia causar o desastre doutro. Uma troca de números precedendo o desastre. Enquanto essencial, nada tiraria seu lugar.

Vou precisar usar essa pistola? — Ela fazia que não. — Então eu vou. Apenas me diz, o que vai fazer?

Não precisa. Vai saber quando vê



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