AVN – Capítulo 48 – Bem-vinda de volta, Redneon!



Tinha um semblante cansado, a mãe da Lunar. Com apenas 30 e poucos anos, ela parecia ser bem mais velha, um pouco acima do peso, com marcas na face, e enormes bolsas d’águas debaixo de seus olhos. O encontro? Estava lá e via: as duas tímidas, uma contendo as lágrimas e a outra um pouco hesitante sobre o possível momento. Ela pediria pra entrar e entravam enquanto apresentava o tal Míchkin Zero. Se perguntava se era namorado, mas “não!”, dizia também pra não ser boba. Dois Meia, que se sentia como um intruso, apenas poderia se desculpar. “Mas que isso?” Não era nada, diziam, como também oferecia uma janta para os dois que estavam, em algum nível, bem embriagados. Um colchão montado, uma conversa animada até alguma hora bem tarde da madrugada. Uma memória realmente quente e acolhedora, pensaria Dois Meia, quando acordaria de manhã e se despediria. Prometia voltar e de fato faria, mas o que incomodava naquela manhã, quando encostaria sua cabeça na janela e veria o mundo mudando e mudando através da fibra de vidro, era que talvez se reencontrasse com algo bem mais diferente do que esperaria.

Um sentimento comum, talvez houvesse um nome específico. Algum tipo de ansiedade que incomodava particularmente e que o forçava tão exclusivamente imaginar sua chegada, sobre o que faria e de como pensariam em ti. Não tinha nenhum tipo de ideia. Mas já regulava seus passos. Primeiro, tinha certeza, voltaria pro orfanato. Tinha muitas coisas pra resolver lá. Depois, tentaria alguma escola técnica pra pegar um certificado. Trabalharia em algo comum, não tão abusivo, que te desse espaço para parte mais difícil do seu plano: se reencontrar, nem que fosse com a imagem mais embaçada, de Dois Meia. Como faria? Havia um motivo pelo qual era a parte mais difícil. Via nas ruas repletas de becos, dos pequenos edifícios que exalavam aquela mesma fumaça, dos homens vestidos de terno esperando algo nas esquinas aleatórias. Os mesmos rostos, alguns novos, outros mais desfigurados. Desceria na praça de Pathré Soint, onde respiraria aquele ar pesado, denso, como se estivesse próximo de algo. Olharia em volta. Um cara de terno e membros biônicos estaria ao seu lado. Perguntaria:

O senhor sabe um bom lugar pra descansar? — E ele apontaria para um edifício de sete andares, que teria um bar no seu primeiro. — Obrigado. — Ia. A mesma direção, não tinha erro, sentia. Mas antes de terminar seus passos, reconheceria algo num canto escuro, olhando de modo letárgico sua escuridão. Pena que não lembrava quem era, pois podia rir ou chorar, em vez de simplesmente sentir o mesmo vazio. Parava de olhar e entrava. Sentia o cheiro amargo de cigarro e olhava para um canto. Era um bar, muitas pessoas de terno estavam sentadas, bebendo. Os membros biônicos, outros apenas com camadas de polímeros e alguns cidadãos sem alma ao fundo. Era engraçado como reconhecia com facilidade naquele ponto.

O que deseja aqui? — Uma mulher idosa, com a face enrugada, cheia de pele, mas exoticamente maquiada e vestida, se apresentava. Ela tinha um turbante de seda com uma pena enfiada entre um broche. Seus olhos, azuis, eram muito profundos para serem reais, e sua roupa, um vestido azul de tecido de malha, se ajustava ao seu corpo irreal, que parecia mais de uma mulher nos seus trinta.

Quero um lugar pra descansar. — Tinha firmeza na fala, sem desviar o olhar daqueles olhos.

Ela poderia dizer que era irritante; não conhecia ninguém por ali além dos seus que ficasse de pé, olhando-a daquele modo. Suspirasse e guardasse suas palavras, pegando um documento por uma daquelas gavetas.

Poucas pessoas estão pedindo casa agora. — Dizia. — Por isso está dando bastante sorte, os preços estão em conta. — Olhava para uma das mesas, um cara estava te encarando. Não reconhecia, ele usava óculos e seu maxilar estava coberto de penugem. — Tenho várias considerações a fazer sabe, não sou uma pessoa desonesta, mas gosto que as coisas se mantenham as mais estáveis possíveis. — Dava uma olhada no contrato.

Eu não deveria conferir o quarto primeiro? — Dava um sorriso sincero. Não que achasse que ela estava de malgrado, era apenas uma situação vista de forma incomum.

Fazia isso antigamente, mas hoje em dia percebi que é desperdício de tempo. O que interessa, efetivamente, às pessoas desesperadas como nós, é quanto custará nossa existência. — Ele dava uma risada junto dela.

Acho que vou concordar. — Pegava aquele contrato e dava uma lida. — É praticamente um loft, e parece que tem um bom design. — Estranho. — O preço é um pouco salgado realmente, mas vocês dão assistência técnica gratuita e o valor pode ser quitado por negociação após 28 prestações pagas. Me pergunto do por quê não alugarem?

Alugamos, se quiser, mas no geral é mais lucrativo vender. — Ela tinha um sorriso um tanto quanto podre. — Sabe, como disse, não tem mais tanta gente querendo viver nessa cidade suja. Os que vivem são arruaceiros e vagabundos. E os poucos que vem são tão pobres que não podem com um imóvel desses.

O salário-mínimo ainda são 497 Rps? — Perguntava.

Deflação meu querido, está a 456 Rps agora.

Ficava impressionado.

Isso explica muita coisa. Okay, posso ficar. Mas quero negociar o preço dos primeiros meses, posso? — Seus olhos hesitavam um pouco.

É complicado, posso negociar até 15%, mas pode aumentar significativamente o valor da quitação.

Não é problema para mim. — Não queria se apertar tanto nos meses iniciais. — Mas antes de assinar preciso tomar nota de algumas coisas. — A velha compreendia. — Quantos anos têm a estrutura?

Pergunta exótica. — Seus olhos azuis quase saltavam. — Foi fundada junto com a cidade, a uns 60 anos atrás. Mas fizemos algumas reformas ano passado.

É a proprietária? — Tinha uma intenção, a velha reparava, hesitante.

O quer saber com isso? — Seus olhos se cerravam, de modo a parecer como intimidantes.

Só quero ter sua palavra? É proprietária? — Dizia.

Sou, mas como isso te importa tanto, o prédio não está no meu nome. Se algum dia quiser me processar, processará uma empresa laranja. — Sabia.

Não é bem isso que me importa, sabe. — Ela não acreditaria. — Precisava saber para o caso de um dia fazer algum tipo de reforma. Sabe, após quitar a dívida, no caso de constituir uma família, precisamos ter noção disso. — Ria.

Okay, é sensato. — Estava absurdamente impressionada. — Se meu marido fosse como você, eu não teria que correr tanto atrás de dinheiro ultimamente.

Ha! Já passei por problemas referentes. — Tinha um sorriso. — Mas não importa tanto, queria vê o apartamento antes de tomar qualquer decisão.

Com certeza. — Com um assobio, ela apontava para um homem meio distante. Era o mesmo que encarava Dois Meia. — Heichi, leva esse homem para o loft do último andar. A senha você sabe qual é.

Se lembrava, quanto tempo; das dores que havia sofrido, da dignidade furtada; um dos seus maiores mal, o reflexo que toda manhã o apanhava. Sorria, tentando manter algum lastro de orgulho, mesmo que a qualquer momento caísse e chorasse por pouco.

Quanto tempo … — Diria. — Nem te reconheci quando passei.

Incrível não? — Parecia querer dizer muito, não tinha tanta certeza. Mas quando tirava seus óculos e via aquele rosto pálido, os pelos negros de seu rosto, os olhos castanhos, parecia ter certeza de algo. — Acho que temos muito do que falar.

Era terrível, sentia alguns pingos de ansiedade. Parecia até que quem estava na sua frente não queria esconder suas intenções.

Primeiro me leva ao loft. — Tinha um sorriso, de quem mantinha toda felicidade. — Depois você me paga uma bebida.

Os dois riam.

Pode deixar. — E num passo um tanto quanto amistoso, iam. Tinha aquela sensação meio estranha, poderia está torpe, mas não. No elevador, suspendia sua respiração e encarava seus reflexos no espelho. Ria.

Acho muito engraçado … — Heichi não tinha compreensão, mas naquele clima leve, se deixava levar também. — No fim das contas eu tinha a total certeza que seria assim. Você, num desses ternos, trabalhando para a plastic tree, e eu, tentando levar a vida normalmente como um merda qualquer. É irônico não é?

Acho que sim … — Ele pensava. — Pra mim pelo menos foi inevitável, sabe. Um dia eu estava lá, no orfanato, noutro já tava com uma pistola na mão fazendo favores.

A inevitável condição humana de nunca conseguir controlar seu destino … — Divagaria. — Mas me diz, a dona lá debaixo tá metida nisso?

Entre nós, ela é um banco. — Respondia, encarando a câmera. — Sabe, uma pessoa que empresta dinheiro, lava e reaplica dinheiro. Ela tá podre de rica, mantém o bar só por nostalgia. O marido morreu faz um tempo, e ela é meio sentimental quanto a isso.

Foi o que me pareceu … — Chegavam no andar. — Quero dizer, sabe, tanta gente de terno no mesmo lugar e ninguém de armas a postos? Entendo muito bem.

Entrando no loft, sentia um cheiro enjoado de naftalina, plástico e poeira. Os móveis, um tanto antigos, estavam de cor cinzenta, mas não era bem isso que importava. Olhava para o ar-condicionado central. Estava no sétimo andar e a névoa ficava um tanto quanto pesada e úmida. Para isso, era preferível que tivesse um sistema de ar eficiente, que filtrasse toda aquela poluição.

Uma opinião decente aqui: o que você acha desse loft? — Perguntaria. Tudo parecia okay, mas estava com um tanto de preguiça de ter que reparar em tudo.

Queria comprar, mas pesa muito no bolso. Ter que se manter no plaza e aqui, sabe, sou só um soldado, então não dá pra ficar sonhando com esses luxos. — Dois Meia tinha uma boa opinião. Principalmente da vista. Talvez aquele fosse o segundo edifício mais alto de Blacklight o que, mesmo não sendo muito, ainda sim dava pra ter uma bela vista de tudo.

Então eu vou assinar. — Retornava. O elevador fazia seus sons mecânicos, fluindo gentilmente, sem qualquer tipo de susto. — Me diz, qual seu duplo E?

Te passo. — Abria o computador de pulso. — [email protected]!

Anotado. — Retirava Turing. — Te passo um contato depois que me resolver por aqui.

De boa. — E saía. Andava em direção da proprietária, com um sorriso. Ela te diria:

Um pouco sujo, mas parece que gostou do que viu. — Fazia que sim.

Me diz o nome da senhora, infelizmente esqueci de perguntar. — Pegava uma caneta.

Você pode lê no contrato.

Eu sei, mas faz parte de uma boa educação perguntar … ou não concorda, senhora Dália. — Ela ria. Progressivamente, gargalhava, como se percebesse aquilo que haviam te dito.

Gostei desse seu humor. — Ela não tinha dúvidas. — Mas me paga logo pra efetivar esse contrato. — Retirava uma máquina de transações do balcão. — A mensalidade, como diz aí, são 750 Rps por mês. Multa de atraso é vinte por cento do valor. Como negociado, serão cobrados 10% a menos pela própria máquina nos próximos 3 meses. Aliás, sabe bem com quem estou metida, então sem de ficar com gracinhas pra cima de mim! — Dois Meia ria.

Eles não me intimidam nada se comparado a sua adorável personalidade. — Retirava seu chip noutra gargalhada.

Um chip ilimitado? Nunca pensei ver isso em blacklight, ou melhor, em toda Redneon. — Dois Meia apenas podia dá uma risada sem graça. — Também tem seu próprio nome? Me pergunto: o que faz nessa merda de lugar, senhor Míchkin? Eu que sou velha vim por dinheiro, mas a mina tá se esgotando por aqui sabe. Então, por que?

Ficaria impressionada caso te contasse a verdade! — Mais outra risada. — Brincadeiras aparte, queria que me contratasse um serviço de limpeza ainda pra hoje.

Nem precisa disso, sabe. Gostei de você, mando algum dos meus funcionários pra deixar um brilho. — Tirava Turing.

Então toma um extra pelo enorme favor que vai me fazer. — Dava 30 Rps para a máquina dela.

Uma carteira eletrônica? — Tinha mais um sorriso. — Outra coisa que não pensei vê nesse fim de mundo.

Retribuía e fugia do bar. Ainda era muito cedo, nem mesmo eram meio dia, tinha que terminar o que havia planejado fazer naquele primeiro minuto. Tinha algo como um sorriso, a primeira impressão havia sido incrível, nada poderia dá errado, pensava. Então ia, no passo solene. Crianças fumando e escutando música na praça, máquinas de guerra quebradas nalgumas calçadas. Pensava que realmente nada havia mudado. Ou era apenas ele que havia se tornado algo diferente?

Se deprimia, entrando no beco que dava para o orfanato, pensando que talvez não houvesse um traço seu, não fazendo então sentido estar lá.

Entrava, via as mesmas freiras que nunca gostou, várias crianças novas fazendo as mesmas coisas de sempre; uma menina num canto conversando com um grupo de crianças, um garoto aparentemente cometendo bullyng com outro, algum novato chorando num canto. Estranhava, deviam está na escola, mas depois se lembrava que podiam ser férias, não sabia.

Tinha também ali um pouco de saudades, não que fosse muito, apenas de uma pessoa, que talvez nem mesmo soubesse seu nome. Se lembraria dos cabelos loiros, não dos seus números, os olhos verdes talvez e sua pequena face. Uma freira que passava, te perguntava.

Ei, te conheço, não conheço? — Fazia que sim.

Sou o Dois Meia, ou, pelo menos, era. — Tinha uma face de surpresa aquela freira, como se tentasse se lembrar de algo.

Fiquei sabendo que foi adotado, nunca explicaram essa história direito. — Ela pedia que se sentasse numa daquelas camas. — As irmãs também não pareciam se importar muito, tinha todo esse ar meio insensato em cima de você sabe. Mesmo assim, sempre te achei um trabalhador diligente, mesmo que na época eu não passasse de uma órfã por aqui também. — Dois Meia reparava, ela tinha quase sua idade.

Eu te conheço, acho … — Tentava se lembrar do nome. — Você dormia na cama ao lado. Número 435?

Pode me chamar de Trinta e cinco. — Se lembrava, ou melhor, nem tanto. Só tinha uma vaga certeza que ela estudava no próprio orfanato e que também tinha todo um ar tímido. Não prestava muita atenção naqueles dias.

Então você conseguiu? — Precisava ser simpático. Alguma coisa te fazia pensar nisso.

Não como eu quisesse de verdade. — Falava baixo. — Estudei no orfanato por medo e virei freira por conveniência. — Tinha um sorriso. — Ficava pensando que se um dia encontrasse um jeito de sair daqui, desistiria. A maioria das irmãs aqui são assim. Mas não como se eu deixasse de acreditar em Deus ou algo do tipo. — Reparava bem, ela não era tão bonita, no entanto tinha um charme. Seu rosto era fino, com um queixo afilado, cabelos castanhos cacheados e um nariz singelo. Seus olhos eram a parte mais bela, extremamente simétricos, de uma cor castanho claro e grandes o suficiente para serem sempre encarados com sinceridade.

Mesmo assim, fico feliz por você. — Não podia de deixar de se sentir tão confortável. — Muitas garotas acabam não tendo um destino digno desses. Normalmente se tornam prostitutas ou dona de casas solitárias e tristes, até se tornarem viúvas sem qualquer perspectiva de qualquer coisa. — Trinta e Dois desmanchava seu sorriso, num movimento apenas seu à compaixão.

Não julgo. — Ela tinha um ar um tanto triste. — Nem sempre podemos controlar quem iremos ser, as oportunidades que temos são tão poucas. Ninguém nos dá uma caneta e um papel e diz: “faça poesia.”. Nos ofertam uma arma, alguma bala estranha, o neon das noites. O amor que podemos ter é apenas obsceno e sendo tratadas como posse, tentamos até nos guardar pra sermos mais valiosas, mesmo que no fim sempre seremos descartadas e trocadas no passo do tempo. — Era triste, um pouco cruel, mas não era mentira. Suas palavras o faziam um pouco mais próximo dela. Te fazia tentar imaginar do por quê não tinha se aproximado dela quando criança. Se lembrava das palavras de Franker, elas eram verdades: alguém te observava, mas estava tão bêbado de si que nada mais importava. Vê com clareza seus próprios erros é algo dos mais intragáveis, normalmente sente-se distante, aquela dissociação cognitiva. Poderia ter palavras, mas do que adiantaria. Seria apenas remoer o imutável.

Me pergunto, quem eu era … — Ela não poderia responder. — Quero dizer, já tentou se vê em algum ponto no passado e perceber que só temos arrependimentos? — Fazia que sim. — Essa sensação me remói sempre que descubro algo novo. — Tinha um sorriso, tentando compreender. — Olho pros seus olhos agora e fico me perguntando: por que nunca falei com você? — “Assim é a vida”, responderia. — Não, não é. Eu devia ter me aproximado, pelo menos assim não teria sentido apenas dor. — O encarava, tinha algo de estranho. — Quer saber do porquê eu fui? — “Sim”. — Eu estava doente. — Mantinha seu olhar fixo. — Eu era fraco, incapaz de reagir, sabe. Era surrado dia após dia, não tinha amor, estava sozinho. — Ele tinha algumas lágrimas, entendia muito bem. — Um tumor crescia no meu pulmão, a porra dum tumor. — Não se importava nem mesmo que berrasse aqueles palavrões. — Disseram que eu ia morrer em alguns dias. — Ela pegava naquelas mãos. Podia dizer algo pra consolar, podia tentar dizer pra ser forte, mas sabia que não seria o suficiente. — Um dia, fui atacado por uma garota. Praticamente morri; ela amassou minha cabeça com um bastão. Nunca entendi o porquê, só sei que ela me enganou. Pensei que iria ser amado pela primeira vez na minha vida, e o que me restou? — Tinha lágrimas e ela o abraçava. Tremia, não entendia o porquê.— Fui sequestrado depois disso, melhor, me deixei sequestrar, e lá aprendi, eu acho, mas não vale tanto a pena. Só sei que quis me matar e durante muito tempo me torturei. Andei por desertos, destruí meu corpo pensando que poderia suprimir quem sou. No entanto, no fim, descobri que quem eu sou é imutável e por isso volto, porque me odeio demais pra manter essa persona sem resolver algumas coisas. — Ela não tinha nada, apenas seus ouvidos. — Você já odiou? Me diz que sim. Não sei como, mas odiar pra mim se tornou um papel fundamental na minha existência. O que há além disso? Somos motivados por questões bárbaras e no fim não nos resta nada. — Sussurrava: “Odiar é pouco, ame também …”. Sentia um vazio no estômago. — Então como é: podemos amar sem no fim odiar? — O olhar estava fixo. — O que é amor? — Não tinha resposta, apenas segurava aquele rosto com suas duas mãos, contemplando. — Me diz: viver é apenas sentir dor? — Não podia contar mentiras … — Entendo, mas, pelo menos, me engane um pouco. — Seu sorriso amargo. — Acho que é isso, entendo finalmente … Não há uma coisa sequer pra mim aqui … também … Não havia qualquer lugar para ti …



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