AVN – Capítulo 47 – Uma nova imagem (várias perspectivas)!



Quero voltar pros distritos. — Se lembrava do que havia dito no dia anterior. — Quero redescobrir quem eu sou. — Não tinha todas as palavras na mente, talvez só as suas. — Quero apenas a passagem. Não valeria a pena fingir ser algo que não sou. — Estava cínico. — Quero viver com o que tenho, e saber o que eu poderia conquistar. — Quem desejaria estar acima de todos, tendo nas luzes dos postes apenas uma vastidão diferente de estrelas? A luz morta que ainda brilhasse, o recompor, decompor. Imaginaria cada lapso, cada bom momento, do cheiro acre.

Estava lá, o primeiro passo, sendo transportado num trem de sola ionizada. O quadro era o mesmo, com tantos de fora do distrito indo em busca de redenção, com seus perfumes baratos, aquele excesso de formalidade; coisas da pobreza e nada mais. Ficava preocupado: quem realmente sabia ali com o que lidava? Perderiam beleza e nem sabiam; era a única vez que tomariam puro ar e luz solar. Tolos, diria, querendo apenas gritar o quanto a vida é bela, e como de nada valeria se lançar ao inferno de neon por tão pouco.

Escutava: — Mamãe, onde está o papai? — Era uma criança perguntando, de bochechas rosadas, vestida com um vestido azul. Não tinha curiosidade.

Ele está nos esperando lá. — Talvez se arrependesse. — Tenha calma. — Se lembrava do vazio e daquela mulher – qual era seu nome? – juntando, roubando e recebendo cada pequena moeda que homens deixavam junto das rosas. Na metástase sempre há um curioso perigo, imaginava. será isso o que desejava?”.

A imagem de tantas pessoas e seus semblantes terríveis pareceria triste, mas já sabemos que é esperado. A imagem paralisada da natureza, das árvores ao vento, dos rios artificiais e os corpos d’água se lançado entre crateras e a vegetação selvagem.

Filha. — Um pai ao longe. — Sua mãe … ela … — Pausava.

Turing estava no seu bolso, calado. Passava por um longo processo, analisando milhares de códigos; se readaptava.

Esse lugar está vazio? — Perguntava. Era uma garota que dizia, estava sozinha. Seu rosto bronzeado, com algumas sardas, de um cabelo enrolado e cheio, como um buquê de rosas chocolate. Para resumir: era linda. Dava passagem sem sentir muito, mesmo antecipando certas coisas. — Um dia bonito, não concorda?

Ela estava na janela. Seu sorriso era branco e seus olhos castanhos claro. Tinha aquilo que nos faz observar, meio que obrigatoriamente, de um olhar distante vendo através daquela janela.

Não me preocupo tanto com o tempo até que chova. — Alguma resposta densa, que não significava muito realmente. Não podia ficar observando tanto, pra quê faria aquilo não podendo sentir amor por nada? Olhava através das fileiras de pessoas, pensava que elas também tinham suas amarguras. Como seria o esquecimento delas? A beleza estava na ausência de palavras.

Perguntaria: — É de onde? — após uma pausa. Sua face séria, sem sorriso, encarando quem estava na sua frente. Alguma coisa de sinceridade? Não sabia, talvez um reflexo de uma pessoa ingênua. Tanto fosse, responderia:

Sou dos distritos, Redneon.

Ela se excitava, fazia um sorriso.

Nossa, que foda! — Por algum motivo, adentro das paredes havia algo de incrível. O sentimento industrial, talvez a percepção de estar entre as luzes. Não sabemos. — Faz o que aqui fora? — Também não tinha o que dizer.

Acho que buscava me encontrar com alguma coisa. — Abstrato. — Já sentiu esse desejo? — Todos já sentimos, Dois Meia, não há porquê perguntar.

Não sei responder. Penso que sim, mas pode não ser da forma como você pensa. — Ela mostrava um documento, era meio repentino, ter aquele pedaço de plástico quase que na sua cara. — Agora mesmo estou indo pros distritos, pra me encontrar. Descobri que não me chamo Lunar, e sim que sou uma série de números. Engraçado, não acha?

É interessante. Minha identificação, por exemplo, é 267.432.157, mas consegui me tornar Míchkin Zero. — Podia considerar isso algum mérito seu? — É uma luta burocrática e é muito mais caro do que deveria. — Mostrava também seus documentos. Aquele pedaço inútil de papel, que carregava pra muitos o único traço de suas existências. — Fico indignado como nos negam a própria individualidade, como também nossa busca por ela. Mas bem, é ótima que você seja ao menos cadastrada nos Distritos. Vai te poupar tempo.

Queria responder, mas não sabia. Não tinha tanta familiaridade nem vontade nesses assuntos, mesmo que concordasse. Era uma pioneira em todos nossos atos de civilidade.

É foda, fico decepcionada. — Os olhos de Dois Meia sem sair daquele rosto, deslizando pelas maçãs convexas, o queixo fino, as sardas pontilhadas no centro, os enormes e expressivos olhos. — Essas merdas dizem que somos incivilizados e ficam jogando bombas em nós. Queria entender qual o problema deles!

Ria, gostava bem do assunto.

Eles querem ser a origem de cada manifestação. Assegurar que não vamos ser incontroláveis.

A imagem da luz ondulando pela superfície de um lago, o som dos trilhos. Tudo tem beleza, imaginaria; não precisarmos necessariamente macular, concluiria. Há também no nosso silêncio aquela vontade específica por contemplar, seja no silêncio do sufoco ou nas inverdades sugeridas de nossa alma. De vez em quando se perguntava se não estava louco.

Me diz, porque estava fora dos distritos? — Uma dúvida intragável, talvez a remoesse, fosse complicado. — De verdade.

Eu tentei encontrar a mim mesmo no deserto escarlate. Cada passo na areia vermelha, temendo que o sol surgisse e rasgasse sua carne. — Quase morri. Estive no Oblivion também … — Também havia todas as lágrimas lançadas na chuva e o fim de seu verso. — Me apaixonei e vi-la morrer tão futilmente que me restou quase nada. — Era tão intragável quanto. Ela não tinha ideia; como é ver alguém morrer, principalmente quando se ama? Será que tem um gosto tão ruim, será que dói. Ainda não imaginava.

Isso é terrível! — Diria, achando que o consolava. — Mas como conseguiu chegar até aqui? Pensei que ninguém tivesse sobrevivido? — Seus olhos cintilavam, o que fosse …

Eu não fazia parte do esquecimento. — Ela começava a se irritar. Tudo que ele dizia tinha aquele ar de mistério insustentável, das pessoas que fingem serem mais do que realmente são. — Sabe, estava lá só de passagem.

Isso … eu não entendo … — Não era tão ruim, apenas um detalhe irritante. Podia mentir pra si um pouco, para não ser tão desagradável.

Você não entenderia, a não ser que sentisse o mesmo que eu. — Relembraria. Talvez pensasse por um momento e concordasse, mas ainda pareceria um tanto quanto impossível. Tinha o mesmo clima, não ia se deixar enganar. Não somos tão profundos quanto pensamos.

O que fazia quando estava nos distritos? — Tinha uma legítima curiosidade. Mas ele apenas sorria. Não sabia se queria dizer realmente.

Melhor, por que não comemos algo? — Sentia quase nada. — Tem um vagão-restaurante por aqui.

Não tenho Rps. — Eles valiam quase que uma vida fora dos distritos. — Só a passagem de ida já me sugou 80, e tenho que guardar, sabe, preciso de moradia, alimentação, essas coisas chatas. — Não poderia dizer que não entendia.

Deixa que eu pago! — Diria. — Tenho alguma coisa aqui ainda. — Havia juntado 6 mil e alguns quebrados nos três anos trabalhando na fábrica de pilhas de plutônio. Não importava. Se dirigiam.

As faces desoladas de fome pelo vagão não eram suas; das pessoas bem-vestidas, mesmo que não fossem de perto ricas, assim como de pequenas crianças, acompanhadas ou solitárias, fingindo estarem em algum mundo mágico enquanto por vezes também tentassem se dá conta da realidade. Os vagões, conectados por pontes de ferro, sempre trariam algum ar novo, mesmo que sentisse apenas as mesmas imagens, junto daquela estranha.

O que vem fazer dentro dos distritos? — Perguntaria. — De verdade.

Vou para o funeral do meu pai e viver com minha mãe. — Não havia sorriso. — Aparentemente me abandonaram com a minha avó quando eu tinha 8 anos, pra tentarem a vida, ter seus ganhos e depois me buscar. Deu tudo errado e meu pai morreu de overdose. Irônico, né? — Entendia o que ela sentia. — Agora tenho que fingir que está tudo bem e tentar me virar com minha mãe lá.

Foda. — O que poderia dizer? — Meu pai morreu com três tiros na cabeça. Ele era caminhoneiro e parece que gostava de curtir a estrada. Sempre cheirava, tomava doses pesadas de SNC-Down e ficou viciado. Devendo aos contrabandistas, acabou tendo que pagar por favores. Nunca tinha pego uma arma e quando pegou, tirou uma vida. De consequência, morreu num beco com três balas na cabeça. Lembro muito bem do seu corpo gelado e minha tristeza. Mas era inevitável, eu acho.

Nunca conheci meu pai. — Responderia. — Por isso não senti o desprazer de chorar pela sua morte.

Eu também não. Mas sabia que ia ficar sozinho, assim como você ficou quando te abandonaram. — Existe uma terrível razão que nos impera …

Tinha minha avó … — É engraçado: não somos nada sem ela, mesmo que por tantas vezes estejamos tão fora dela.

Ela não era o suficiente.

Lunar queria ter uma resposta. Olhando para a paisagem, pro vagão, para o tal Míchkin, tinha algo de como se sentir triste, meio dependente e talvez um pouco distante, admirando sua própria ingenuidade, se confrontando tão repentinamente daquilo sobre sua realidade.

Chorei quando eles partiram, mas ela foi o suficiente. — Sua voz era um pouco mecânica, encarando-o. — É apenas que, não sei, um dia ela vai morrer e não quero está lá para perturbá-la. — Entravam no vagão-restaurante. — E sua mãe?

O que tem ela?

O que aconteceu?

Não queria dizer.

Isso é uma ótima pergunta. — Encarava as pessoas por lá. Liam livros, bebiam chás e cafés. Também tinham uma aparência detestável, vestindo casacos caros, calças jeans, com suas faces pálidas encarando aquelas letras com a mais desprezível pretensão.

Não sabe? — Alguns te encaravam.

Até sei, mas não tenho certeza. — Outros não se importavam.

É um órfão? — Queria matá-los.

Infelizmente. — Mas percebia que também não tinha vontade. — Patrão, me vê uma garrafa de Scott e separa dois copos aí.

Se acomodavam no bar.

Identidade. — O garçom tinha traços asiáticos e torcia o nariz para os dois. Não se agradava pelas roupas, pela forma de agir e também o de falar. Percebiam o desprezo nos olhos daquele e desprezavam de volta, entregando de qualquer forma o que ele desejava. — Míchkin e uma numerada? Okay, as fotos batem. — Tirava uma máquina de transação da bancada. Não entendia, cerrava suas sobrancelhas e poderia dizer como se ameaçasse:

Passo agora, como é isso? Pensei que fosse um restaurante. — Sentia-se irritado. Na verdade queria arranjar uma confusão, que os envergonhasse, te envergonhasse, mas que causasse um quadro belo, de algo grotesco.

Procedimento padrão senhor. — Tirava Turing do seu bolso de todas as formas, mantinha a calma; a dignidade.

Então anote tudo que pedirei além do uísque. — Do ódio, acumulava quase 1000 Rps de dívidas. Não te importaria, a garota estaria impressionada, seu orgulho não estaria ferido, mesmo que tivesse que pagar tudo mais tarde. De vez em quando há isso, o desprezo. Pessoas desconfortáveis com si tem essa tendência, de se preencherem de dignidade roubada. Não que importasse. Eram servidos numa mesa; da luz que entrava torpemente por uma janela coberta de cortina carmesim. Lunar encarava a bebida.

Nunca bebi uísque. — Estava encantada com a cor.

Bebi essa mesma garrafa quando estava no esquecimento. — Dizia. — Você coloca gelo, um pouco de refrigerante e tudo fica bem melhor. — Ela não tinha certeza.

Mesmo assim, uma só garrafa custa 50 Rps. — Não conseguia assimilar. — Imaginava que tinha algum dinheiro, mas mesmo assim …

Nem, to com uma dívida fodida agora. — Não tinha emprego, moradia, teria que investir uma grande quantia no primeiro ano em Redneon e cada centavo podia vir te custar muito. — Queria só tomar uns goles pra honrar tudo que estou deixando para trás. O resto eu fiz por ódio.

Ela ria.

Você é uma pessoa orgulhosa. — Tomava os copos, enchia até a metade; pegava gelo, três pra cada.

Pensa? — Nunca havia pensado assim de si.

Não acha?

É a primeira pessoa que me diz.

Ela não acreditaria. É aquela: criamos sons, fazemos imagens, existimos; mas ainda assim quem realmente somos depende de como nos veem.

Essa garota que você amou, qual era o nome?

Um céu desconhecido era o teto sem cor.

Medea. — Ela ria.

Exótico. — Tomava o uísque em pequenos goles. — Como ela era?

Sentia o cheiro almíscar, o sabor doce de licor e lembrava também daquele mesmo sorriso.

Depreciativamente linda e irritamente adorável. — Queria tê-la em seus braços de novo.

Nossa … — Era surpresa. — Parece que você a odiava.

Diria: — Em algum nível talvez, mas na maior parte do tempo eu amava. — Não entendia tão bem assim pra dizer a verdade.

Qual era o problema dela? — Tinha que perguntar.

Eu sabia com toda certeza que uma hora ou outra ela me abandonaria. Não era algo pra toda uma vida. — Já chorou alguma vez, de verdade?

Pensa que ela não te amava? — Eram pequenos os goles que davam.

Na verdade não. Em algum nível ela até que gostava, mas de outro, eu era apenas um meio pra emancipação dela. — Tinha a total certeza. — São coisas que só percebo agora. Aliás, nem sei se amei de verdade. Eu estava lá, e estava com ela. Se fosse outra pessoa, ela não existiria. Então pensa: o que havia?

Não era você que tinha que me responder? — Imaginaria que sim.

Eu amei algo nela que se assemelhava minimamente a outro alguém. — Dois pratos fumegantes de carne com cogumelos chegavam. O garçom, sorridente, fingia não existir.

E o que era?

Não faço ideia … — Cortava um pedaço. A carne era tão macia e de aparência tão suculenta que se perguntava: o que 300 Rps realmente custavam?

Ahwn! Nunca comi algo tão amável! — O rosto dela era tão bonito, Dois Meia pensaria. — Me sinto até mal de comer esse tanto?

Hah, não precisa. Custaram tanto que deixar de comer seria pecado. — Ficou se perguntando, pra onde ela realmente iria? — Me diz, tem algum duplo E?

duplo E? — Perguntava.

Endereço eletrônico, mas se não sabe, bem, o que fazer? — Tinha um sorriso, talvez o seu mais sincero até ali. Vai ficar por onde?

Iron gate, subdistrito F. Acho que é no bairro das luzes, na única casa cinzenta, disseram, do único beco da rua do mercado.

Dois Meia se lembrava. A matriz da Green Amb, empresa qual seu pai havia trabalhado, era lá. Muitas vez na infância, sentia amor quando ele te levava por aquelas partes. Era o único lugar além do seu próprio bairro que havia visto durante aquela época. Particularmente, uma vez tinha passado por aquele mercado com sua mãe, por talvez ser o único lugar de todos os distritos unificados que vendesse produtos orgânicos a preços justos. No mesmo dia, surpreendendo seu pai, os dois o flagraram cheirando com outros caminhoneiros. Foi a primeira vez que viu sua mãe chorar.

Curioso. — Dizia com algum ânimo. — Iron Gate é a porta de entrada. Não tão bonito, nem mesmo dá pra vê as Megatorres, mas pode te fazer sorrir. — Uma conversa paralela diria exatamente o contrário. — Sabe, vou ter que pegar um ônibus por lá, e como vamos chegar só depois do entardecer, meio que eu teria que ficar num hotel. Seria pedir muito um lugar pra dormir?

Você me comprou um Scott … — Seu sorriso tinha algo infantil. — Então é mais do que obrigação minha oferecer pra um amigo desses uma cama pra descansar a cabeça.

Ha! — Ela não tinha ideia. — O que mais amo das pessoas de fora do distrito é que elas sempre te darão um lugar pra chamar de lar quando você não tem nada. — Seu rosto corava, dando garfadas tímidas na carne.

Qual sua idade. — Não sabia como reagir.

Em anos marcianos acho que algo entre cinco a sete, perdi completamente a conta. — Os distritos preferiam usar um calendário gregoriano adaptado, mesclando ciclos da terra com os de marte. — Mas tenho 18, oficialmente.

Nossa! — Não podia ser verdade. — Parando pra pensar eu vi na sua identidade, mas é difícil de acreditar …

Sério, por que?

Você tem algo estranho, sua face sempre tem esse olhar sabe, um tanto condescendente, um pouco amargo, de vez em quando distante … não sei, também fala assim, meio vago, como se tivesse escutado o suficiente pra poder poupar palavras. — Dois Meia dirigia seus dedos ao nariz dela, num movimento a querer roubá-lo. — Por que? — Perguntaria de modo fanho.

Nada, queria só te surpreender. — Se desmantelava. — Quer algum tipo de sobremesa? — Ela não tinha ideia.

Não acho que vai combinar com álcool. — Tinha razão.

Então vamos reencher nossos copos, pois praticamente não bebemos nada. — Concordava. Os copos reenchidos, gelo, e algo mais. Era um tanto amargo. Estava acostumada àqueles licores doces de sua velha casa. Mesmo assim bebia, num minuto de contemplação. O som dos trilhos, o ambiente um tanto aveludado do restaurante e a iluminação tímida. Da janela, via uma revoada de pássaros planando sobre a água. O sol que descia e fazia o brilho ondulante naquela superfície de cor esmeralda. Contemplavam.

O que você espera encontrar lá? — Lunar já se sentia um tanto anestesiada ao terceiro copo.

Acho que você já perguntou isso … — Só tinha o cheiro adocicado das pessoas ao redor.

Acho que é porquê ainda não sei o que espero encontrar lá. — Entendia. — Minha mãe deve está desgraçada, sabe. Meu pai morreu de overdose e parece que ele tinha dívidas. — Era percebível como não queria chorar. — Acho que só vou encontrar mais merda por lá, não sei. Posso está errada, seria pecado um pouco de otimismo? Não precisa responder, eu sei que sim.

Não era tão ingênua quanto pensava, Dois Meia diria, imaginando o quanto talvez a situação dela fosse selvagem.

Não se preocupa com isso. — Levemente colocava sua mão sobre a dela. — Aproveite a viagem … — E ela sorria. — E viva um problema de cada vez. — Lágrimas caíam. — Para com isso. — Umedecia seus dedos naquele rosto. — Beba mais um copo e depois sorria.

Acho que esse tal uísque não tá me fazendo tão bem … — Se sentia melhor que isso.

Eu gosto do efeito que faz nas pessoas, nos deixa honestos. — Era incrível.

É meio constrangedor. — Dava uma risada depreciativa. — Sabe, querendo ou não, nos conhecemos praticamente nessa tarde. Ficar se expondo tanto … não sei …

É verdade mas … — Percebia um homem te olhando no fundo. — pensa, se não fosse assim, eu teria que gastar mais dinheiro pra me alojar em Iron gate e também não estaríamos comendo aqui.

O rosto se contraía num sorriso.

Tá certo, concordo.

Dois Meia, no entanto, via através dela. Não haviam sorrisos.

Aquele cara tá nos observando. — Já se incomodava demais. — Isso é uma merda.

Hum, sério? — Se virava. — Devemos ser bonitos demais pra ele, deixa disso. — Não deixaria.

Pode até ser verdade, mas tenho que admitir. — Falava um tanto quanto alto. — Essa mania das pessoas dos subdistritos de “classe” é irritante. Um elitismo sem muita razão, não acha? Achando que conquistaram alguma coisa pelo fato de terem nascido num berço de ouro. Cientistas que pensam estarem noutro patamar existencial também, mesmo que na verdade não passem de putinhas dessas empresas privadas de merda. — Muitos te olhavam, tinha toda a atenção. — Não criam nada, só replicam e repetem as mesmas coisas ditas de modo a serem seus. — Seu sorriso irônico de quem carregava toda a verdade. — E o melhor, ganham tanto poder pelo pequeno motivo de ninguém ter acesso aquilo que tiveram, que pensam serem deuses.

O clima abafava.

Por que está falando isso pra mim?

Todos que te olhavam pareciam querer dizer alguma coisa.

Não sei, mas … acho melhor irmos. Não quero passar nem mais um minuto aqui. — Pegava a garrafa. — Meio repentino não? Parece a vida.

Lunar se levantava, sem entender muito, olhando pra ele, tendo um sorriso irônico enquanto observava os rostos. Na verdade, achava que havia entendido e por tal, gostava muito. Não era todo dia que tinha o poder da razão e aquela sensação incrível de fazer parte de uma ideia maior que ela própria. Sentia algo interessante, talvez fosse a primeira vez na vida.

Acho que devíamos fechar os portões de novo. Esse pessoalzinho de fora está muito sem amor. — Diria um, lendo algo de Júlio Verne num divã.

Concordo. Tanto estresse por pouco? Pelo menos souberam se poupar de mais vergonha e se foram. — Outro, com o príncipe em mãos.

Acho que eles falaram a verdade, seus elitistas de merda! — Todos riam lá dentro, não que importasse. Dois Meia e Lunar já estavam longe o suficiente para não se importarem com nada, derramando aquele uísque e pensando como o dia poderia ser mais incrível.

Havia algo bonito, eles paravam numa daquelas pontes, na luz do sol, sem ninguém ao redor. Se encarariam, estavam sorrindo, mas pelo quê? Não precisa de resposta. Uma memória agradável talvez, como se fôssemos apenas lembranças. E o que há? Pensa, se a vida for apenas a constante de consciência, nunca poderíamos mentir e dizer que algum dia fomos felizes.

Você é incrível. — Ela diria, em alguma hora em que tudo já estava balançando mais que o próprio mundo. Não poderia achar verdade, e mesmo se fosse, talvez mentisse para si. Não somos exatamente que gostaríamos de ser, mesmo que também possa ser uma mentira, principalmente quando não entendemos mais quem somos. Olhava para ela, via aqueles olhos castanhos e percebia, talvez ela fosse ainda mais incrível que todo seu vazio.

Você também é … — Já estavam tão perto da estação que veriam as paredes de concreto enegrecido, que exalavam de si o vapor que se acumularia na noite gelada e iluminada. Chamava atenção o Neon, as luzes de refletores que cortavam a noite, como se estivessem se aproximando de uma constelação. — Você tá sorrindo. — Diria.

Eu sei. — Seu olhar de admiração percorria, com seu rosto bêbado de luzes. — é como você me disse … — Ela não pensaria que fosse tão bonito aquele dia e nem o quão interessante seria aquela pessoa. Talvez se sentisse um pouco acomodada, acolhida, como se encontrasse algum tipo de lar. Não que fosse importante, pois havia luz, muita luz, de modo que seria impossível haver incertezas. Apenas memórias exalam dessa mística beleza.



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