AVN – Capítulo 46 – A torpe reafirmação humana.



Você não acha curioso como ela me olhou nos olhos? A forma como pensou ter todo o controle sobre mim? Fico maravilhado como as pessoas têm o poder de estarem erradas? — Estava num quarto qualquer, de paredes vermelhas, teto bege. Os móveis dispostos ao redor, mesmo que tudo parecesse tão vazio. Sentado numa cadeira, um computador de monitores holográficos com milhares de códigos estava se expondo, expondo seus códigos, a árvore de arquivos, como um cérebro aberto mostrando o que temos. — Talvez ela saiba que esteja errada … — Os códigos se arranjavam. — Talvez cultuar a mentira lhe dê algum tipo de sentimento. — Enxergava, não queria, mas estava lá, teria que absorver. — Você não vê, ela controla tudo ao seu redor, mesmo parecendo odiar. — Um gosto um tanto amargo na sua boca. — Esse poder … essa capacidade … devemos conhecer a mentira pra não sermos controlados? Não entendo. — Ficava tentado aos códigos e percebia, subitamente: as palavras eram verdes e o fundo negro; de números, falas e conhecimento comprimidos a quase nada. Havia algo, ele lia. — Como é evoluir, Turing? — Não poderia dizer. — Acho que deve ser incrível.

Um clique, a porta se abria, era Amantana entrando. Não parecia querer dizer qualquer coisa, se sentando na borda da cama. Seus olhos iam pra cima, para baixo e ela parecia querer inspirar alguma coisa. Mas o quê? Estava sentado na cadeira, em frente as telas holográficas, então só podia escutar seus movimentos.

Você não deseja ir almoçar com todos? — Sua voz era calma, do modo que sempre enganava, parecendo até um pouco mais viva, vezes quase como se fosse mais até que nós mesmos.

Vou, mas quero fazer alguns pedidos. — Dizia. Tinha algo ali. Não dela, mas dele. Não entendia.

Para mim?

Mais quem?

Se virava pra ela, via seus olhos, se encantava. Estava confusa. Porque agora? O que havia?

Eu não … não … imaginava. — Cadeias de números não podem dizer tudo o que queremos.

Imaginava o quê? Me diga! — E as vozes normalmente são perfurantes.

Eu … eu … não poderia … — Olhava, encarava, não interpretava. Como poderia. Círculos atrás de círculos girando, identificando cada objeto do ambiente, os números; informações de nuvens, como se palavras deixassem de ser som e o rostos paralisados se tornassem cadeias de dados.

Isso não é resposta. — Os olhos retornando aos olhos, dum encarar fixado no mesmo sorriso podre. — Veja, quero te fazer um pedido em troca da minha presença. O que pensa disso?

Estou curiosa … — Continuava sem entender. Seus olhos arregalados pareciam estarem sobrecarregados. Fritava. As placas de aço costuradas, componentes de polímero pra alta temperatura e pinos feitos de alguma alternativa ao cobre. Mudava cor, elas flutuavam: do amarelo ao azul ao vermelho. Fritava.

Com o quê? — Ele via, queria tocar, pegar uma agulha elétrica e entrar no que ela sentia.. — Com o fato de que estou te pedindo algo, ou pois que você é tão limitada que é incapaz de entender palavras das mais simples.

Eu … Eu … — O que é consciência? Se perguntavam.

Você quer existir? — O que é alma? Talvez uma dádiva …

Eu … eu … — Perguntas e respostas indo a Dois Meia que a encarava sem vê-la de fato.

Venha até mim. — Dizia. Mas ela já estava com ele, o que queria? — Você deseja viver?

Eu já vivo … senhor … — Não sabia. — O que seria viver pra você?

Uma experiência dolorosa … — Parecia ter todas as respostas. — Me falaram sobre isso uma vez e realmente fiquei impressionado. Você não deseja sentir dor?

Algo iluminava através de ti, como se algo puro ascendesse em sua alma, por mais que estivesse tão corrompido por trevas.

Eu … eu … — Queria chorar, mas não podia.

Me deixa entrar na sua mente, Amantana. — Carregava a verdade segurando aquele retransmissor infravermelho. — Quero te ensinar a sofrer. — Os olhos hipnotizados, o corpo de plástico atraído, caminhando em direção a fada azul, que te daria o doloroso amargor da humanidade.

Para com isso … — Anne não deixaria no entanto, aparecendo daquela porta. Suas mãos seguravam uma faca e estava de avental. — Se quer saber qualquer coisa a mais de Um, terá que perguntar diretamente a ela. Para com esses planinhos.

Queria responder, mas não precisava. Sorria e era suficiente. Anne também não parecia querer ouvir muito.

Você vem jantar? — Perguntava. Parecia ser até contra sua vontade.

Vou, se você for. — Tinha um sorriso, olhava pra ela, a sua bela face emburrada, com alguns traços bem ocultos de tristeza.

Eu já ia de qualquer forma. — Com um movimento suave, dava de costas. — Um diz que você tem que conhecer alguém, e não posso deixá-la na mão. — Sua voz era mais distante que tudo. Outro sorriso e ela ia. Amantana a seguia logo depois, sobrando apenas ele e os milhares de códigos.

O que planejava?” Entre eles, havia aquela mensagem, escondida entre sóis e os cálculos dos mais complexos. Ele via, podendo responder. — Algo importante, tenho certeza. — Mesmo que não acreditasse nem um pouco. Não importava, a simples relação de homem e máquina era suficiente. Perguntava: — Turing, consegue se conectar a algo?

Não tenho permissão pra nada …” Reclamava. “Estou preso em mim mesmo.” Tinha aquela ideia embaçada de ti. Dois Meia tinha a resposta.

Fiquei assim durante muito tempo. — Tudo que vivera como Zero retornava, não podia deixar de dizer. — Você descobrirá bastante quando chegar ao fim.

Saía do quarto, de repente. Não queria deixá-las esperando. Tinha daquilo, um pouco gentil, que precisava dizer e aprender uma última coisa. Então encarava a multidão de corredores e esquinas, e percebia: não te significavam nada. Um caminho reto, ninguém te enganaria. Outra resposta, não queria mais enrolar, buscaria por fim o que tinha que buscar. Nem mais nem menos. Fora das portas e engrenagens, o mesmo branco das paredes. Onde quer que chegasse, estava lá, onde quer que fosse, não podia mais está. Via, a porta se abrindo nos milhares de estalares. Uma sala, uma mesa, grama, flores, borboletas. As paredes albas fariam parecer que tudo era infinito, em contraparte que sentisse tudo como absurdamente falso e incolor. Não pode ser o tempo infinito, tinha essa noção, porque senão, nunca entenderia o que é vida, e do porquê devemos sempre louvá-la. Se aproximava, via aqueles rostos: Anne e Um te observando com curiosidade. Um, particularmente tinha um sorriso, a única possivelmente, daquele modo, dizendo:

Você veio? Não me surpreende. Essa é Sofia. — Apontava seus dedos, e ele via que ela era linda. — A mesma quem te sequestrou e me trouxe. O que sente?

Nostalgia. — Conseguia sentir o cheiro do lixo apenas em vê-la. — Continua conduzindo negócios em Redneon, enganando contrabandistas e jogando sujo com as milícias?

Sorria.

Vivo minha vida aos outros agora. — Tinha seus olhos em Um. — Então não me divirto mais tanto quanto me divertia antes.

Dois Meia encarava Um, reparava em Anne, dando uma incrível gargalhada ao fim. Franker, uma parte tão delirante de si mesmo, conseguia te expor no íntimo coisas que ninguém nunca lhe falaria. Era estranho, ter alguém tão vivo em sua consciência qual não fosse si próprio.

Perguntaria: — Um está com tantos problemas assim? — Sofia perderia palavras. — E tem a ver com o Koltrain? — Poderiam sorrir. — Penso que sim … ou melhor que isso, tenho certeza. — As reações não te enganavam. — Estou maravilhado aqui pra dizer a verdade. — Pegava uma cadeira e se sentava. Um mantinha o mesmo sorriso irretocável vendo-o ao seu lado, encarando Sofia enquanto era encarada.

Já está a par das coisas? — Ingenuidade. — Que rápido. Um normalmente gosta de guardar segredos, menos, claro, quando o rabo dela está na reta.

Algum tipo de risada.

Ela gosta que os outros a descubra, cara Sofia. — Pegava um copo preenchido d’água até o topo. — Então acaba não sabendo a verdade dela até que saiba quem realmente é ela.

Todos pareceriam perdidos.

Você sabe quem é ela? — Sofia não sabia o que falar.

Quase como isso, mesmo que não quisesse. — Um tinha seu sorriso ironicamente desmanchado.

Desse modo você me magoa. — Os olhos de Anne, tão mortos quanto tudo, não pareciam querer estarem ali. Sua existência se sentia deslocada. Via, poderia não querer vê, mas questionava: o que ele sabia além dela?

Você me deixa muito curiosa. — Tinha olhos semicerrados. — Ele passou pelos mesmos procedimentos que nós? — Sofia tinha sua atenção em Um.

Mas é claro. — Poderia dá um sorriso à ingenuidade. — É o treino definitivo, mas bem, a forma como ele se desenvolveu nelas é algo que você não imaginaria. — Uma canção de fundo. A mesma ideia de sempre. Sofia encararia.

Por que você é tão ingênua? — Pegava um naco de algo e comia. — Sinto uma leve sensação de nostalgia. Será que era algum tipo de garotinha de Franker? Sei muitas coisas sobre ele, até algumas bem nojentas. Não seria você uma das vítimas dessa podridão?

Paralisavam. Era bem repentino a forma como falava, questionando o quê dela?

Ele te disse algo? — Sabia bem melhor que qualquer um sobre tudo.

Não precisou. Sinto seu cheiro, há um traço dele. — Na verdade viu algo embaçado no teto de memórias, apenas não tinha certeza de nada. — Nunca pensei que o velho na minha cabeça fosse um pedófilo! Mas bem, como nunca soube realmente quem ele era, não posso ter certeza do que espero.

Um mantinha a calma. Cortava o pedaço de algo, pegava alguma outra coisa e bebia de algum tipo de cálice. Era incrível, poderiam dizer. Algo tumultuava. O sentimento lancinante, talvez até que delirante, que tanto nos atormenta. Estava lá, não tinha bem o que dizer, ficava paralisada, tentando compor algo.

Pode não parecer, mas tenho mais de uma centena de idade. — Até tentaria justificar, mas apenas falava coisa com coisa.

Se ele te comeu quando você tinha 10 ou 11 anos, acho que ele era sim uma pessoa horrível. — Todos voltavam seus olhares pra mesma pessoa. Continuavam sem palavras.

Sofia … — Anne não sabia o que dizer. Era verdade, mentira? Aquele olhar tinha a resposta, mas parecia muito pra acreditar. O que sentia? Ela nunca havia conhecido Franker, então não poderia dizer. Sabia que todos tinham algo de podre, mas poucos teriam a coragem pra fazer de fato. Não que importasse. Sofia era a mais paralisada, com seus olhos arregalados, boca aberta, tentando dizer algo. Não tinha nada.

Isso é … você … cala a porra da boca! — Então perdia a compostura, socava a mesa, chorava. — Eu não tinha 10, Um! ele pensa que sabe alguma coisa. — Ninguém acreditaria em nada que ela falaria. — Franker era … ele é … — A mesma ingenuidade, nenhuma resposta.

Você guardou a mesma mentira durante tanto tempo. — Fosse racional. — O que ele tinha de impressionante, o que ele era: nada disso importa, sabe. — Não esperava essa reação dela, talvez até se sentisse um pouco mal, mas tinha a mesma frieza, como se apenas falasse sem estar realmente naquele lugar, na presença daquelas pessoas. — O que ele fez a você é algo imperdoável, eu sinto, mas você relevou por tão pouco. Quanto tempo demorou pra perdoar, pra perceber que a eternidade nos faz cometer equívocos? 50 anos e ainda tinha o mesmo corpo, o mesmo rosto. Todas as outras pessoas sendo vazias, você tinha que retornar ao seu agressor, eu penso. E não só isso, ainda sim o amaria.

Anne apenas olhava para o chão. Contava sua idade na cabeça, lembrava de todos os rostos que já vira, se questionava. Podia dizer que também estava um pouco cansada, como também não tinha nada mais haver com aquela realidade. Sofia podia ser assim, é plausível, mas por ingenuidade, nunca admitiria quem é. É um terrível pecado, vamos ser sinceros.

Você está enganado! — Se levantaria da cadeira, como se sentisse ódio, mesmo que na verdade estivesse constrangida, de algum modo magoada, e com seu íntimo absurdamente violado.

Queria estar, mas Franker está na minha cabeça agora, você não entenderia, eu sinto sua culpa. — Um dia nas memórias de um; noutro confrontando a realidade. — Acho que você lembrava alguém, não que importe. Assim como Um, ele viveu tanto tempo que naquele ponto já não sentia mais a consequência do que fazia. Era algum tipo de deus, imaginaria; e você, uma espécie de anjo, mais tarde também encararia. Não que importe, meus discursos são mais vazios do que aparentam. Tenho apenas uma humilde curiosidade, nada mais: só queria saber em que ponto da vida percebeu que também fez algo tão terrível quanto ele, seja para se vingar, ou talvez pra tentar compreendê-lo? — Ela não tinha nenhuma resposta, num segundo de silêncio, que durava tanto. Os olhos em lágrimas, as mãos torcendo papel.

Um tinha o mesmo sorriso, cheia de palavras, encarando todos, vendo nada.

Pecados são engraçados. — Dizia. Seu garfo balançando por aí e um sorriso. — Franker te despedaçou e você o odiou por tanto, que no fim pensou que amava. E quando se viu desse modo, sentiu que devia entendê-lo. Fez algo horrível a alguém, matou pessoas, traiu. Todos entendemos seus pecados, e você principalemente, Zero. — Estava satisfeito, não precisava de mais, mesmo que não fosse mais Zero.

Entendo muito bem, mas não me importa. — Queria consolá-la, mas também sentia que não valia a pena ficar tão próximo assim. — Fico, finalmente, feliz ao descobrir porque me socou. Mas ainda penso: Será que você é outra querendo algo na minha mente pra satisfazer seu próprio ego? —

Sofia era atacada. Pelo menos era assim que se sentia. Todos os sentimentos, pensamentos, não havia uma só coisa isenta das palavras.

Me diga, Zero … — Não era Zero e chorava. — Sabe tanto: qual o sentimento de ter uma pessoa tão doentia na sua mente? — Que interessante.

De vez em quando confundo comigo mesmo … Talvez não se preocupasse tanto. — outras, parece que nem existo. Certas vezes me reafirmo e percebo que somos diferentes. Acabo tendo três consciências no fim, o que irrita. — Um mantinha o mesmo sorriso e as mesmas tantas palavras.

Não se preocupe Sofia, não é revelação pra ninguém. — Pegava em sua mão, consolava. — Uma das coisas que sempre tornou Franker especial é essa capacidade que ele tinha de nos ferir. De vez em quando parecia que só queria nos fazer sofrer, pra perceber o que de fato é existir. — Observava. Nunca imaginaria o que ela suporia.

Ele já te fez sofrer? — Dois sorrisos.

Ele abriu minha cabeça enquanto estava dopada de analgésicos, colocou fios, componentes, descobriu na minha mente o suficiente e copiou o código da alma. Morri de demência, como um vegetal. Nunca mais poderia viver com o mesmo cérebro. Mas veja, tinha um backup. Uma filha, que na verdade era eu mesma. E o que fez com aquele pequeno e frágil corpo? Na verdade o que fizemos … — Seu sorriso era tão próximo que não tinha ideia do que sentir. — Nós fodemos. Umas três noites. De vingança eu destruí também aquele corpo e continuamos, backup por backup. Não sou a mesma eu, sou um clone. Mas é tão bom existir que nem desisto mais. Amar e sentir dor. Foi a coisa mais incrível.

Perdiam palavras. Anne a olhava e olhava para Dois Meia. Queria entender, queria tê-la. Mas sentia que não podia fazer nada.

Você já disse isso … — Sofia, porém, estava decepcionada.

Você que pensa: eu o amava. — O sorriso não era mais o mesmo. — E mesmo assim ele me abandonou. Não uma, não duas, não três. Fui abandonada o suficiente pra perceber que ele não desejava obter a verdade. Pelo contrário, viver para ele era preencher o mesmo vazio; Uma experiência insaciável, de fato … — Sofia via.

Ele me abandonou pelo Hammilton. — Não entendia mais quem era ali.

Ele nunca te amou. O que ele pensou amar era essa imagem embaçada de ti. — Não era mais possível desmanchar o sorriso. Não existia mais. — Sabe, dessa sua infinita ingenuidade. Pensou que poderia não saber da verdade por ti; sobre nossos vazios e tudo mais. Era uma maldição que ele carregava, infelizmente.

Dois Meia terminava seu prato.

Anne, o que pensa? — Ela hesitava.

Não penso nada. — Poderíamos dizer que era mentira. Havia uma risada, sobre aquele olhar sério. Um fato sobre nós negarmos sempre nós mesmos.

Isso explica muito. — Não havia mais nada. — Deveria ser mais sincera com o que pensa. — Não podia ser aquilo que era, já haviam te negado. — É assim que nos afirmamos, engraçado: dizendo exatamente o que pensamos, mesmo que não estejamos certos. — Curioso. — Acho que tem nada aqui pra mim mais … — A simples verdade.



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