AVN – Capítulo 44 – O réquiem das chamas [Último fragmento do deserto!]



Numa sala qualquer, duas pessoas. Suas faces exaustas, pareciam carregar todo peso do mundo, pálidas como se em morte. Os cabelos despenteados balançavam com seus olhares cabisbaixos.

— Você não matou Koltrain?! — Sofia dizia. — Tudo que fizemos, tudo que sofremos. O que há? O que há!? Me diz …

— Não há nada … — Respondia. — e esse é o problema. Estamos completamente perdidas, segurando pontas soltas. Não é culpa sua, agiu de maneira correta, possivelmente pode ser minha, que não consegui tomar uma decisão realmente incisiva sobre o assunto. Mas a questão é: estávamos desde o início na mão de Koltrain e se ele me quiser morta, assim o fará. Eu posso usar ainda alguns movimentos, no entanto, posso perder, verdadeiramente, tudo. Preciso de Zero, por isso vou ter que acelerar seu treinamento. Preciso também de você, Sofia, de tudo. Vou foder Koltrain e toda sua trupe de arrombados, mesmo que custe tudo.

Num deserto, apenas uma cama sobrava ao redor de ruínas. O negro de corpos carbonizados e a poeira carmesim se destacava, brincando entre si aos olhos que despertavam. Uma parede ali caída, chamas crepitando noutra parte, e o laranja de napalm em cima de corpos que nem mais se contorciam. Na queda de algumas estruturas, havia sangue, e, como se acompanhasse, o cheiro doce de terra molhada. Naquele deserto, também chovia, era delirante. As espirais de luzes quebradas, se misturando com lama e água. Os cacos escondidos nos nada. Zero apenas via cada um que amava exilados, para sempre, fora do esquecimento. Franker, que aparecia por fora dos seus sonhos, dava um sorriso estranho, como de quem tentasse consolar. Tudo se perdendo com o fogo crepitante do napalm escorrendo pelas estruturas em ruínas. Ele caminhava com sua tristeza, procurando algum lugar em meio ao silêncio onde pudesse chorar.

Próximo do lago, Turing apitava, entre o corpo marcado de fendas carmesins pulsantes. A lamúria vista numa face pálida, estava paralisada, como o tempo. E Zero engolia saliva, das lágrimas brotando dos globos e se tornando nada, na chuva lancinante e gelada. O odor doce de terra molhada, onde jazia Orfeu, que nunca mais diria qualquer palavra. Medea talvez chorasse, caso visse, no entanto seu corpo estava igualmente gelado e largado.

— E eu nunca mais beijarei seus lábios. — Não sabia como reagir. Estava parado, com seus olhos transbordando e o corpo se encolhendo na lama. Memórias quentes, reconfortantes, como uma cabana de madeira e lareira crepitante em meio a neve, lhe levavam, tornando a realidade cada vez mais dolorosa e pesada. Talvez não sentisse nada pelo esquecimento, mas por ela e possivelmente Orfeu, era fato, o que piorava toda situação. Lembrava: havia algo no seu jeito, no seu sorriso, na sua doença, em sua corrupção. Ela não era a melhor pessoa do mundo, e por muito, talvez nem se importasse realmente com ele, sendo até alguém facilmente descartável. No entanto, eternamente, ela sempre queimaria como algum tipo de paixão. Possuí-la terminava nisso, por isso sua condição ao fim da vida era aquela. Zero sabia, não que importasse, possuí-la era se apaixonar e a verdade dela ter sido o último catalisador da verdade em si, é algo que tornava a memória ainda mais preciosa. Se agarraria nela pela eternidade, não tinha dúvidas.

— Mestra, me diz o que fazer? Estamos tão próximas assim do abismo? — Quem perguntava não entendia a imagem desfigurada que surgia como camada em meio ao atributo geral disposta no todo criado.

— Viver é continuamente encarar esse abismo. — Respondiam.

Continuamente, naquela chuva, unhas se quebravam com o retirar de pedras; de pedras sobre pedras se empilhando como num castelo. A luz de relâmpagos distantes estrondando aos ventos e caindo em faíscas. O solo tomava as cores de um verde-claro, vezes parecendo amarelo. Algumas vezes sentia como se vermes rastejassem sobre seus pés, e outras como se algum cheiro terrível lhe furtasse a memória. Péssima, única coisa que poderia dizer de fato, onde sua mente fulgente tomava o caos de espírito e seu corpo se rasgava de modo em que tudo facilmente se tornavam sombras, mesmo que na escuridão total do ambiente.

— Anne, o que vale mais a pena: dedicar sua vida a si mesmo ou ao seu ódio?

Não havia nenhum tipo de resposta quando as covas já haviam sido preparadas. Os corpos gelados caindo como luvas e enterrados como suicidas, na buraco mais raso. No entanto, não há nenhum tipo de vergonha no drama, apenas um sísmico orgulho, da falha de nossa instrumentalidade.

— acredita que há algum tipo de Deus? — Perguntas como cáries, no doce modo de viver.

— No começo, era pra sermos nós, agora não, agora eles usam terno e gravata, querida!

Carecia de respostas, quando retomava suas coisas e caminhava, de volta para o lugar que nunca deveria ter saído. A chuva criava pântanos, com mil braços que lhe faziam se afogar. A respiração ofegante, de algum modo até como triturada, não sabia bem o que havia no mundo, além de si mesmo. Turing apenas dizia:

— O homem é o lobo do homem. Porque vocês se devoram? Não faço ideia, mas sinto que não deveria ser tão natural às suas existências.

Temos certeza de nada, sabia. As centenas de mortos, também. Aliás, quem naquele ponto não sabia. Talvez as telas sussurrantes de todos os subdistritos soubessem. Continuamente, elas diziam:

— Não é possível, mais de cem anos depois de todas as insurgências e continuamos a manter esse espírito incivilizado. Não é inteligente de nossa parte e retém nossas capacidades. Poderíamos já conquistar todo a faixa meridional, mas não, estamos aqui, bombardeando toda e qualquer tipo de manifestação humana não surgida de nossas mãos. Mulheres, crianças, idosos, mortos pelo único e cruel motivo de nossa falta de visão. Recursos essenciais desperdiçados e um desgaste constante do ambiente por conta dessas atuações danosas. Até quando continuaremos desse modo?!

O sol não é pra todos, principalmente para os que vivem além da periferia. A dança crepitante de um carmesim que continuamente existe, no sol desolado de mim para ti e todo resto.

— Viver é uma experiência dolorosa. Não concorda, Zero?

Todos concordariam. Quando a cor esmeralda surgisse no horizonte, todos concordariam.



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