AVN – Capítulo 42 – Operação sem deuses no distrito [não que exista finais]!


Dirty Roots, em algum outro dia, de rajadas de tiros cortando o ar no crepúsculo, de crianças correndo a abrigos e máquinas como tanques destruindo tudo. A polícia automatizada havia entrado em ação, com suas máquinas de guerra a postos, em meio ao fogo cruzado dos Kalashinikovs com o cartel de sampa. O estrondo da guerra soava por todo o distrito, causando pânico até mesmo em quem não era. O sol se punha junto com a esperança, muitos pensariam.

Mas o fato era, na tela de cada distrito, onde notícias de emergência poluíam o já poluído visual, um homem com todas as respostas surgiria. Era André Touloise, trajado no seu mais respeitável terno, com seus intensos olhos azuis penetrando cada câmera que registrava sua face. No pedestal, na mágica das luzes dos flashs de câmeras errantes, acompanhado de dúzias de engravatados falantes, ele se destacava, com sua voz no microfone dizendo, cada coisa que todos queriam ouvir no momento. Os ‘não se preocupem’ como vinho, acompanhados do ‘é tudo uma questão de ordem’, além de sempre citar ‘a verdade se sobreporá e todos seremos recompensados’. Quem não estivesse desamparado, poderia pensar nele como algum maníaco religioso, o que era a intenção, já que no fim, ele apenas precisaria apresentar seu plano, que mudaria tudo, no conceito de alguns. Veritas, introduzida de forma simples, num enquadramento de seus lábios, se mostraria como a forma definitiva, onde até se questionariam como ninguém até aquele momento não pôde pensar naquilo. André era elevado ao mais alto patamar, sentindo que, todos os sacrifícios até aquele momento valeram bem mais do que ele havia mensurado inicialmente.

Pena que não sabia que, na escuridão, todos quais o apoiavam estavam absurdamente divididos. A escola utilitarista, que aparentemente estava criando uma pequena filial no distrito B, na cidade de Eletric Kings, estava sendo invadida pelas assassinas idealistas de Um. Em Red Neon, seu filho era usado como moeda de troca com os Kalashinikovs pela fidelidade do cartel original, sendo o negócio intercedido por Sofia, podendo se supor que a guerra em Dirty Roots era só uma fachada sem fim, com o líder dos contrabandistas se transportando para o distrito F. Seu objetivo era pegar o cartel de sampa de pernas bambas, mesmo que eles pensassem está desfilando nas luzes. A organização de manifesto social dos distritos não ia deixar eles quietos depois de uma bagunça dessas.

De volta ao distrito B, vários problemas. A escola utilitarista não ia ser tão burra em confiar num eugenista barato como André Touloise. Além do mais, parecia que eles amavam se fingir de sombras. Nem mesmo as escolas mais semelhantes conseguiam saber sobre qualquer coisa daquela vinda repentina. Talvez a esperança estivesse em Um, no entanto, curiosamente, mesmo tentando de todas as formas se encontrar com Koltrain, ela ainda não tinha nada. E o que restava? Também nada. O único que podia a encontrar era Koltrain e isso irritava, já que, tudo que ela mais queria era matá-lo pelas costas. Um era uma cobra, e ela se orgulhava. Conseguira sobreviver tantos séculos dessa forma, então, o que restava?

Solitária, em sua fortaleza, se questionava se já não era hora de fazer um backup da própria consciência. Caso algo acontecesse àquele corpo, seria bom ter um clone por dentro de tudo, bem capaz de te vingar. Todavia, também valeria se questionar até onde seu inimigo sabia sobre ti. Naquela situação, muito provavelmente, o backup poderia ser facilmente corrompido e todos seus planos poderiam ir pra vala. Se manter viva era uma prioridade, concluía.

— Amantana deve ter sido corrompida também. Acho que posso só confiar nos orgânicos agora, que piada!

Ela sabia: Zero não estava pronto ainda e Anne oscilava demais em seu temperamento. No mínimo dependia de Sofia e nas suas assassinas, mas ambas tinham problemas nas dinâmicas de suas essências. As assassinas eram muito dependentes da sua razão incontestável e Sofia navegava demais num mar de superficialidades. Se pudesse fundir a características das duas, de todas as formas não teria uma peça útil, só outro algo defeituoso. O fato era, ninguém daquela enorme rede funcionaria decentemente caso ela não retomasse o controle. E o outro fato também era, ela tinha perdido o nó de tudo desde o início. Parecia que se distanciar dos distritos não tinha dado em nada, apenas em solidão, se contestava.

— talvez eu tenha que encarar o fim. Alguma coisa posso ganhar disso, penso.

Ela continuava no mesmo quarto, das mesmas telas de tons azuis brincando no brilho vermelho, do seu cigarro sempre aceso e o ruído incessante da eletricidade. Zero andava pelas pequenas casas de cal, entre as espirais de luzes, com aquela face de sempre, de quando se questionava ou questionava algo. Naquela, a única coisa que podia sentir era que, acelerar atrasaria os resultados, o que era bem engraçado, visto que pressa era tudo que tinha.

Na GW, ela via a mensagem que chegava, ascendendo as faíscas mais terríveis à sua imagem. Estava na hora de ativar todas suas cartas, não sobravam dúvidas quanto, mas a piada era: ela não tinha nada.

As imagens retornavam a sua volta, esperando algo, todavia, o que restava era, por curioso, o mesmo nada, onde nem mesmo esperança havia, para consolá-la do trágico. Precisava de um lento adeus ao mundo servido com soda e gelo. Ela se deslogava.


— Só me diz, por que? Sério, por que, depois de tudo, você deixou tudo ir assim, desse jeito? Não pensa, o que é? Acha que tudo já se perdeu no meio do caminho? Vai se foder, não sabe nem da metade do que passei pra te manter viva, e vai querer que tudo vá por água baixo pelo motivo de que não consegue raciocinar mais? Não é uma questão de razão, devia saber disso, é uma questão de viver! E daí que não havia ninguém na ‘suposta’ base do Koltrain? Ele nem deve saber onde fica a sua, e se tentar descobrir, não vai achar nenhuma resposta concreta. Você é uma sombra bem antes do que ele, e só está nessa por sentir medo. Hoje, Veritas se findou, André está em algum lugar comendo caviar, seu filho deve continuar brincando de traficante com os Kalashinikov e a porra do Koltrain deve tá em alguma sombra a paisana cagado de medo sabendo que, por bem ou mal encontramos sua merda de esconderijo. Mas quer saber, de verdade? Bem, nós vencemos! É isso, várias coisas se revelaram, mas nada disso importa, porque o cartel de sampa, pelo menos, tomou uma derrota fodida e, mesmo que seja uma ínfima vitória, ainda é alguma coisa, não concorda? Se não fosse por eles, sequer saberíamos de Koltrain ou Veritas. Então, acho que deve concordar comigo né? Pois se for, ficar com esse mesmo rosto irritado não vai dá em nada. Sorria, vai, sabemos que, quem quer que você seja, não foi feita pra ficar triste. Regojiza-se enquanto ainda está viva!



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