AVN – Capítulo 41 – A assassina!



— Você sabe qual é a sua missão não é? — A voz de Um ainda ressoava por sua cabeça. — Não te daria tal tarefa caso não confiasse no seu potencial, sabe disso, não sabe?

Era noite, e Anne andava como uma transeunte qualquer pelas calçadas da Giant Tree. Ela observava eencontrava algo no meio da multidão de engravatados que iam de lado a lado, sempre ocupados no tão abarrotado encalço. Era engraçado, ela se sentia imensamente desconectada com tudo. Vivera tanto tempo sob as saias de Um, que não sabia mais como reagir a sociedade. Na verdade, percebia nela algo de tamanha idiotice e incompatibilidade pois de cada pessoa nesse mundo. Se tivesse opção, ela simplesmente formataria e reprogramaria desde o começo, para que tudo fosse perfeito.

— heh — Apenas poderia rir com toda aquela idiotice. Era fato: impossível haver perfeição num mundo com tanta gente idiota. E melhor, impossível ser perfeito com aquela quantidade miníma de pessoas melhores que ela. Nem mais, nem menos, apenas múltiplas cópias de si mesma seriam suficiente. No entanto, do que importaria. Seus devaneios eram tão irreais quanto sua vontade de completar a tal missão.

— Porra André, isso não tá certo, tu sabe disso! Se for verdade o que eles dizem, então estamos fodidos … Okay, okay, entendo o que quer dizer, mas o grupo de liberdade humana vai bota tudo pra foder … cara, tu sabe que não vai dá pra conversar essa merda aqui, depois te encontro, calma aí! — Ela registrava a conversa além de seus pensamentos, em algum lugar através daquela multidão compactada numa só massa. Ainda desconectada, parecia como se fosse o único ponto destoando de todo o cinza que eram aqueles estranhos.

— … sequestraram meu filho, Estrades … — O computador de pulso captava o áudio da transmissão. — … querem que eu venda nossa líder … — O tom de melancolia parecia legítimo. — Ele vai morrer … por uma causa maior, mas vai. — Anne não conseguia assimilar. — … eu precisava desabafar, desculpa … mas vamos aos negócios. Me encontre na … da sétima rua … temos aliados … e ela também … — O sinal se afastava. Anne não sabia para onde ia, tentando olhar através da multidão.

— vou ter que preencher as lacunas por mim mesma … — Seus sussurros pareciam como pequenos latidos a lua. Irritantes, sem qualquer significado profundos. Era concernida apenas a solidão, sabia. — acho que entendo meu ódio … — Não era idiota também. — tudo que um dia fui, fora brutalmente desmembrada por esses engravatados. Óbvio que não consigo me conectar a tudo isso … — Ela seguia para algum lugar …


Naquele mesmo dia, Anne havia seguido pelas chiques vielas e becos de algum bairro luxuoso da Giant Tree. Com praças a cada virada e jardins, onde biólogos estudavam plantas e insetos, ela tentava se reconectar, com quer que fosse, procurando a tal rua sete em qualquer lugar que fosse. Engravatados, no geral, eram tremendos filhos da puta elitistas, então ela sabia que eles não se sujeitariam a ir para algum cortiço ou área na periferia, preferindo algum restaurante num bairro desses. Crianças brincavam por lá, trajados de uniformes e chutando bolas, sempre acompanhado das mesmas babás vestidas totalmente de branco. Suas faces eram mórbidas, sem vida nos olhos de cada, como clones processando seu papel, sem encontrar qualquer coisa para si. Anne não se importava, passando por debaixo de árvores floridas, gramado verde aparado, com um perfume particular, paralisante. Seus olhos deslizavam tentando assimilar.

— Tudo aqui é real, mas parece ser bem mais difícil de aceitar. — Em algum nível, os toques gélidos do ar e os odores doces que surgiam, também tinham seus níveis de falsidade, como se fossem de plástico ou qualquer outro material derivado. Não como se te importasse, já que o computador de pulso apitava.

— Prédio Haste verde, o maior de Green Flowers. No décimo quarto andar, existe o “Bistrô”, um popular ponto de encontro da Giant Tree.

Anne reparava na fachada, percebendo alguns veículos estacionados ao lado. Se aproximava, fazendo o computador de pulso analisar as placas. Engravatados não usavam veículos registrados em seus nomes, para ser mais difícil de rastreá-los, usando o transporte registrado no nome da organização ou grupo filiado. No entanto, dava para fazer um paralelo caso tivesse informações suficientes sobre essas filiações, sendo dessa forma o modo como encontraria o veículo que carregaria André Touloise.

— Ei garota! — Um homem qualquer, com óculos protegendo seus olhos, e braços negros, de uma textura estranha, tocavam friamente o braço de Anne. — Que porra tá fazendo aqui?

Ela nem teve tempo, mas num só movimento, que quer que fosse ele, morreria. Sendo posto rapidamente na mala, sem qualquer rara figura perceber qualquer coisa que ali havia.

— Parece que você não teme nada, André Touloise … — Ela dizia, deslizando o cartão magnético pela tranca daquela porta. — até respeitaria se não fosse uma puta duma idiotice.

Dentro do carro, ela tentava penetrar no sistema do computador central, para controlar algumas funções remotamente. De lá, talvez, poderia fazer as coisas correrem de algum modo menos cru e fácil. Após, ela apenas ia para algum lugar distante, vendo os pontos necessários se mostrarem no display do seu computador de pulso.


— Quem é você e o que você quer? — Alguma voz dizia, no escuro.

— Um sofista, sabe … — E a escuridão parecia lhe engolir o ar do peito.

— O que deseja de mim, sofista? — Uma imensidão dourada que surgia através de um holograma qualquer na esquina dum quarto.

— Seu apoio … — O suspiro.

— No quê? — O cigarro se ascendia no brilho distante vindas das janelas embaçadas.

— Você já sabe, naquilo que chamamos ser a verdade! — A transmissão que se desligava, como se nunca tivesse existido de fato. Nos seus pensamentos, da sombra incontestável, certas palavras se passavam, sobre coisas distantes, impensáveis.



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