AVN – Capítulo 40 – Alma [última parte do deserto e o quinto fragmento do deserto]!


Como poderia Zero viver no deserto? Se perguntaria a testemunha que visualizava cada passo; Será que realmente a amava, que a via como um ser digno do seu amor, a altura do que tinha para dar? Será que eram as pessoas, aquelas mesmas que sempre olhavam torto, como se tivesse lhes roubado o brinquedo mais divertido do mundo? Quem observava apenas tinha os quadros de sua perseguição como resposta, onde sua presença parecia se fincar cada vez mais no árido solo. E entre os quadros que via e temia, se destacava o fato de perceber seu desejo latente por heroísmo. Nas falas avulsas admiradas pelas margens daquele lago, ele sempre dizia ao seu pequeno cidadão sem alma:

— Devemos proteger aquilo que amamos? — Ou ao garoto: — Viver para possuir dor; lutar pra conquistar honra.

Eram os clichês que menos suportava. As frases motivacionais ditas no escuro, como se por algum acaso tivessem o poder de levar a algum lugar. Incomodava demais! Como se ele estivesse de algum modo perdido! A verdade cáustica poderia ser decepcionante e ela não estava preparada. Era impossível, o caminho não poderia está mais claro, como poderia se perder naquela altura, na agulha da câmara dum gatilho disparado.

Talvez fosse aquela mulher, pensaria. Ela poderia o fazer se lembrar de uma paixão antiga, alguém quem lhe deu um fragmento de atenção ou algum afeto. A ideia mais louca, suporia: pelo que sabia, nem mesmo a mãe de Zero o amava! Não havia nada lá traz então para fazer surgir seus pesadelos mais terríveis. No entanto, pouco contava se em Zero ou em Dois Meia existisse algo além daquilo que via, pois, se contasse, talvez não tivesse o mandado com tanto risco no lugar onde ele deveria se encontrar com tudo.

Era o caos do esquecimento onde se cegaria, o mudo.


Era tarde, estava num lago, existindo no sopro calmo daquela superfície um pequeno fragmento sobre quem era. Orfeu estava ao seu lado, tragando o ar gelado enquanto observava as nuvens róseas de um céu crepuscular.

— Quanto tempo ficará? — Olhos suplicantes pareciam querer sufocá-lo.

— O tempo que for necessário ser. — Zero havia passado um mês naquela sociedade, na sua reclusão solidária ao psicológico que parecia querer ruir, onde, lá, aprendia coisas que apenas no esquecimento aprendemos, como também fazia coisas que só nas memórias irreais fazemos. Tentava ser um herói, um cavaleiro, um romântico, no clichê de quem não era. Mas por quê fazia? Sequer ele sabia, mesmo que tivesse bem haver com o respeito dado por aquela sociedade. Ele via, desde o dia em que se pusera no quarto daquela, as pessoas observando em sua face alguém essencialmente bem maior e puro do que todos eles; um estrangeiro que carregava toda a beleza dos lugares distantes. Tomar o perfil que lhe atribuíam, era então, o único modo de viver naquela sociedade. Mas como agia? No mês em que estava, ele primeiro educava aquelas crianças mal afamadas. Continuando, ele também auxiliava financeiramente os comerciantes do centro do Oblivion, assim como pregava paz e desejava saúde aos cidadãos desamparados e moribundos loteando as ruas do esquecimento. As pequenas estruturas, emaranhadas numa aglutinação pouco saudável, dava luz a pequena sociedade que precisava, cada vez mais, de um caminho e, talvez, fosse esse o motivo final: ser o caminho. Mas como poderia? Na luz pálida de um quarto trêmulo, onde as paredes cinzentas e de traços de mofo traziam o sentimento mais interessante de sua vida, a resposta era como chamas fúlgidas mas inalcançáveis de seu fronte. O prazer o deixando próximo, dum verme o deixando tão distante. As vozes que surgiam parecia não levar a qualquer lugar.

— Você tem algum objetivo? Alguma história? — Não havia nada. Era como uma folha em branco, escrevendo tudo que tinha num constante presente, ainda umbilicalmente ligado a Dois Meia, drenando tudo para ascender, sabia. Infelizmente, sabia. Poderia temer aquele, poderia sentir asco e desprezo, mas a realidade, a crua e indesejada realidade, era que eles estavam ligados e não, ele não estava se alimentando dum cadáver; Dois Meia pulsava como um coração amargo, no triste timbre de um retumbar delirante.

— Se não tiver, poderíamos fazer a nossa, o que acha? — Também não achava nada, mas, era algo e talvez fosse tudo o que precisasse. Nos dias que se seguiriam, onde andaria pela cidade vendo os transeuntes sorridentes, fazendo uma trilha cálida de cumprimentos, sentiria o dever máximo de um sentimento completo, onde, nela, poderia vê entre as casinhas baixas feitas de cal vermelha e esverdeadas, de luzes que pendiam sobre cabos, como num circo, numa visão que te embriagava de modo a espairecer completamente.

— Turing, você se sente feliz? — Sua pergunta vinha como se admirasse as sombras letárgicas e ao mesmo tempo tão sorridentes.

— Penso que sim, Zero!

Tudo estava fúlgido, como se até mesmo a escuridão desistisse de sua forma.

— Claro como o dia … — Relembrava. — então o que me prende? — Concluía.

Zero não entendia metade do mundo e a outra metade constantemente tentava lhe engolir. O esquecimento, então, era como um sonho; próximo e distante, bom e mau. Sua definição pois não havia nada além daquilo a não ser uma constante antípoda, onde os dedos bailantes em concupiscência tocavam o seu corpo, dizendo coisas bonitas sobre amar. Por quê?

Uma lembrança: aquele maldito diário. Havia se esquecido. Estava tanto tempo dentro de si, que havia se esquecido. No entanto, quando abria, via notas escritas numa caligrafia completamente diferente da sua. O zangava, vendo sua pessoalidade sendo devidamente furtada por alguém cujo não o amava.

— Ser amado é um indescritível sentimento de paz, não concorda? — Lia alto, como se para todo mundo. — Desde o primeiro dia em que a perdera, procura esse mesmo sentimento, e tanto tempo sofrendo na solidão o deixa realmente desesperado. Essa cópia em que se assenta não tem todas as respostas e você sabe que ela vai se decepcionar, quando perceber que não é mestre sequer de sua própria alma. E o que sobrará no final? Já sabe, cacos salientes na areia dourada nos deslizantes raios solares. Aliás, sabe também muito bem quem assina. — No término, apenas chamas restavam daquele diário. Não valia a pena lembrar cada passo, cada dia, sendo que parecia saltar anos-luz no espaço.

— Agora entendo, sou um fragmento de energia se distorcendo num só feixe alongado em centenas de milhões de quilômetros no espaço. Ninguém me vê, toma consciência do que sou ou para do meu caminho. Estou triste nos anos que percorro e todos estarão mortos no exato momento em que me encontrar. — A boca não se mexia. — Não, na verdade somos estrelas, cada qual vendo seu respectivo brilho, mas não interagindo, apenas observando a imagem estática até perder seu brilho. Esquecidos seremos e nada mais haverá no fim, além da total escuridão de um mórbido espaço vazio. — Os dedos moviam. — É curioso a forma como me elevo a grandeza dos astros, quando na verdade sou apenas uma pequena célula num grande corpo, vivendo interligado a tantas outras, cumprindo a mesma função de sempre, esperando apenas o dia de minha morte, onde simplesmente serei descartado e esquecido em suas entranhas. Acho que desejo ser uma mutação, no pior viro um câncer e destruo todo corpo comigo, no melhor me torna um determinante que fará tudo mais especial possível. — A conclusão. A finalíssima conclusão que o desencantava. Não havendo mais nada no seu leito misericordioso, apenas a cama de pedra e a majestosa dama que punha álcool em sua boca, ele chegava, finalmente, à tão esperada conclusão naquela jornada de sua alma. — Eu sou … eu?



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