AVN – Capítulo 4 – O covarde



Com sua alma destruída – e roupa terrivelmente suja –, Dois Meia ia para a escola.

Seu bairro, uma grande favela esquecida pelo mundo, recheava o jovem com as mesmas imagens podres dos muros cinzentos onde se encontravam aqueles caixas automáticos por escâner de retina, a imagem podre do pavimento magnético por onde passavam as máquinas públicas, além dos becos escuros e as pequenas lojas vazias que exalavam a estranha fumaça qual enriquecia aquela névoa, da qual sempre cobria as ruas tristes de sua casa.

Homens sem rumo, mulheres da vida, pessoas ambiciosas. Com seus implantes biônicos, as esquinas também continham suas histórias, e talvez fosse essa a única beleza que inspirava as manhãs de nosso pobre protagonista.

E lá vamos nós!

Dois Meia via os muros pichados, o portão principal enferrujado, o jardim selvagem, os corredores sujos e empoeirados, sendo talvez as únicas coisas mais ou menos decentes por lá, as máquinas de lanches, apelidadas de Trade, cuja uma I.A sempre dançaria anunciando seus produtos aos variados clientes que por lá passariam. A publicidade, feita em letras garrafais de neon, iluminando eroticamente aquele corredor, onde passava, por breves momentos o sequestraria, numa escola que era o retrato perfeito do seu bairro esquecido e acabado. A única diferença era que a beleza selvagem que aqui jazia não o inspirava em nada, a não ser num medo latente e desesperado. Então, normalmente ao chegar, ele apenas se dirigiria depressa para a sua classe, após estacionar sua bicicleta na entrada e se misturar devidamente na escola junto à multidão que se apresentava, trajadas das mais belas roupas, que eram bem diferentes de seus trapos surrados.

Será que terá aula hoje?

Nosso protagonista dobrava o corredor em direção a sua classe, entrando sorrateiramente, evitando olhares – visando sua carteira típica, cheia de rabiscos de poemas que ele escrevia quando algum professor faltava. Esses rabiscos, podendo ser ditos até aleatórios, apetecia os gostos de nosso protagonista, tornando esse estranho lugar num refúgio para sua alma partida.

Lá, ele se sentava, a aula passava e o intervalo, por fim chegava. Como um raio inerte a escola funcionava, com professores de alguns períodos que faltavam e outros quais apenas dormiam em suas mesas sem fazer nada, não sendo também sobre disso que vamos tratar aqui.

Nos intervalos, Dois Meia se mantinha em classe. A violência desse horário o causava ânsia, onde diversas gangues da escola desciam em luta tentando conquistar a supremacia de algo. Sendo um covarde, era impossível para ele entender o sentido disso.

Porque eles brigam?”, Se perguntaria, descansando a cabeça em sua carteira; ‘Será que não existe, por acaso, uma forma de resolver essas coisas sem brigas? Será que o mundo está fadado à violência e às intrigas?

Os devaneios de um menino fraco comendo sozinho durante o intervalo. Sem nenhuma diversão, ele se contentava em observar a pequena garota solitária sentada na carteira da frente. Essa garota, de nome 465.723.981, era bonita, com grandes olhos verdes e um esvoaçante cabelo dourado, o tipo ideal, que o fazia gozar nas noites mais frias e solitárias.

Com sua vida patética, ele sempre se perguntava: “porque ela está sempre só? O que há de errado?”. Mas naquele dia, era interrompido antes de imaginar um mundo perfeito em que a salvaria. E quem o interrompia? Era aquela porta torta de sua sala, chutada por um garoto baixo, de rosto triangular e cabelos espetados, cujo entrava junto de sua trupe.

Dois Meia, que comia sozinho, se surpreendia. Não havia praticamente ninguém na sala a não ser ele, a garota da carteira da frente e alguns meninos jogando em seus computadores de mão ao lado. O que aqueles meliantes desejavam ali? Essa pergunta ecoava em sua cabeça cansada, com a covardia se apossando do seu corpo enquanto observava a trupe passar pelo corredor de cadeiras ao seu lado.

Seu corpo tremia, suor frio descendo por sua espinha, onde os corpos ultrapassavam o seu, indo em direção a um garoto, em meio aqueles que jogavam nos computadores de mão. Dois Meia via: O menino de cabelo espetado estava atrás de 135.274.189 – apelidado de Oito Nove – por algum motivo particular, abordando-o com um grito caluniador.

Oito Nove, maldito! Sua mãe, aquela puta, enfiou uma faca no meu pai ontem! Tivemos que vender o carro pra pagar a porra da reconstrução celular! O que você vai fazer sobre isso, seu merda?

Ao som, os meninos que jogavam continuavam jogando, a menina da carteira da frente continuava comendo e Dois Meia tremia em sua carteira.

O que eu tenho a ver com isso? Seu pai é um vagabundo que queria dá um calote na velha. Sorte dele ter saído com vida nisso!

Ainda ao som, os meninos que jogavam gritaram ‘wow’, a menina da da frente riu, com nosso protagonista ainda tremendo na sua carteira.

Com a face distorcida, o garoto do cabelo espetado bufava de ódio:

Você vai ver seu pedaço de merda, vamos resolver lá fora!

Se a putinha quiser, tudo bem! Só preparo o cu pro pai, por que tu me deixou bem puto, seu merdinha!

Hahaha, para com isso Oito Nove, não basta o bosta do pai dele meter a porrada nele todo dia, você ainda quer batê-lo mais um pouco?

Oito Nove não se preocupava muito com o que seu amigo dizia, respondendo:

Apanhar não é o problema, meu amigo, é a solução!

Oito Nove sorriu vulgarmente, o menino de cabelo espetado deu um olhar feio e os dois se dirigiram para fora da sala.

Nosso protagonista, no entanto, continuava se tremendo de medo na sua carteira!



Fontes
Cores