AVN – Capítulo 37 – Alma [parte 7 e o sétimo fragmento do deserto]!


Sexo. Era essa a palavra grudada no céu da boca, desde as épocas mais primaveris de sua juventude. E no tão esperado momento em que ele desfrutava do sentimento, havia, de certeza, um certo desprezo. Mas por que? Nem ele tinha a resposta. Na luz pálida que adentrava na fresta do que deveria ser uma janela, ele observava o rosto daquela que o enlouquecia, nos seus sorrisos, nas suas faces distorcidas de prazer, no gozo querido, despertando sempre seu lado mais voluptuoso, no entanto, mesmo naquela posição, o sentimento de desprezo imperava por debaixo de suas pálpebras, no fechar de seus olhos, nas mãos que a tocavam. O prazer era de uma excelência que ele não duvidava, reafirmando o axioma do sexo. Mas o desprezo que vinha em sua consciência doente, lhe golpeava fatalmente, onde fazia surgir na escuridão enluarada, o vazio.

Ele pensava: Estou sozinho”, onde Medeia reafirmaria, suada, de seus olhos brilhantes e sua pele tão branca quanto luz lunar, que quem a tocava talvez fosse uma espécie abastada de anjo. Zero a tocaria, alisaria, beijaria aquela pele suada, tomando gosto pelos seus fluídos, enquanto relembrava o vazio que era possuí-la. Pessoas também pareciam ser cada vez mais deslocadas.

— Não mais … — Ele olhava pra sua face. Talvez ainda estivesse um pouco embriagado, mas ela o remetia a alguém no passado. Se sentando na borda, ele desejava não pensar muito disso, indo em direção a um espelho errante num canto vazio da sala. Ele via sua face, e ele era, por algum motivo, bem mais belo naquele momento do que em toda sua vida. Seus olhos pareciam ser mais claros, sua pele mais bronzeada, seus cabelos mais sedosos, seu queixo mais quadrado e o rosto mais simétrico. Até seus lábios secos pareciam ter mais vida e a pouca penugem de seu rosto ainda o encantava, fora as olheiras que o dava certo ar misterioso. Fazia tanto tempo que não se via, que ele se impressionava, se esquecendo, até mesmo, da antiga face que por tanto tempo o acompanhara.

— Vê o que deseja? — Perguntava. Despreocupada, ela não parecia compreender a profundidade das próprias palavras, com um enorme sorriso em seu rosto marcado pelo deleite.

— Não sei … — O sorriso era devolvido, marcando os olhos daquela que o observava. — acho que não sou o suficiente ainda …

— Nunca estamos satisfeitos com nós mesmos, querido. Se acostumar é o primeiro passo!

Era percebível e Zero de algum modo se sentia acolhido.

— E você? — Perguntava.

— Você o quê? — Corpos se aproximavam.

Um sorriso era dado como resposta. A sombra de sua face resplandecia, tentando dizer algo.

— Eu tenho que dormir, sabia?

Ela não se importava.

— Não vai me deixar dormir?

Seu sorriso respondia. A face se aproximava dela, pondo suas mãos naquele queixo e o suspendendo ao seu. Os dedos deslizavam, indo em direção as bochechas, onde ela se achegava.

— Como posso saber que isso é real? — Perguntava.

O sorriso daquela derramava.

— Não sente o calor do meu corpo? Tudo que derramei pelos lençóis, todos os gemidos que dei, o quanto te arranhei … o que falta pra acreditar em mim?

Ele a beijava …

— Praticamente tudo … — E abruptamente a derrubava. Antes que a mesma protestasse, outra vez o prazer retomava, dos gritos bestiais de uma loucura incessante da noite interminável. Mas o vazio, infelizmente, se perpetuava …

Dois Meia finalmente lembrava, e, naquele momento, despertava. Lágrimas impercebíveis caíam, descendo das suas bochechas e pousando nas costas despidas de quem gritava. Ele se lembrava e pior, reacordava! Mas por que? Depois de tanto que percorrera e sofrera, por que? Já devia está morto nas entranhas cefálicas, no jardim dos sonhos, tomando chá no campo de rosas surreais! Então por que? Por que lá estava, roubando seus olhos, tomando seu prazer?! Os pensamentos mais bizarros brotavam, mas não seria aquele seu momento de fraqueza. Sua face levantava nos movimentos rítmicos de sua pélvis, e o teto sombrio te roubava. Talvez fosse o álcool, talvez o sexo, as memórias antigas que reprimia, não importava. Dois Meia retornava e pior, ele parecia querer ficar, tendo algo bem mal resolvido pra resolver.

— Por que? — Uma batalha mental se sucedia.

— Porque sou você, ora! — E Dois Meia vencia, num milésimo de segundo tão longo, que o tempo parecia não ser, de nenhum modo, mais seu.

— Isso! — Um grito o despertava. “É …” E ele pensava, “Ainda estou aqui!” Reimaginava. “Se não estivesse, estaria fora dessa casa …”.

Suas lágrimas secavam ao movimento, e seu corpo parecia se reintegrar a realidade. A composição das coisas, sabia, era justamente tudo aquilo que via. Nenhuma ideia, nem nada, apenas aquilo que via, o fazendo ir de encontro, justamente, a alguém com quem se zangaria caso escutasse aquilo. E pior, ela, sim, escutava aquilo, ou melhor, de algum modo via. Mas não importava. Para onde ele iria, isso sim era algo para se observar.

— E se eu pedisse pra você ficar comigo, sabe, só por um tempo? — Nos seus braços, ela diria, enrolada no calor de seu corpo.

— Acho que aceitaria. — Dizia. — Mesmo não entendo o porquê disso …

Ela se achegava nos seus peitos, escondendo seus olhos, como se houvesse vergonha de algo.

— Acho que estou cansada de ficar chupando esses velhos decrépitos. — Um sorriso depreciativo se formava no arco de seus lábios.

— Prefere então um jovem triste de merda?

— Sem dúvida alguma.

— Ha! — Uma risada. Os brilhantes de seu sorriso acompanhavam, substituindo os astros da escuridão do quarto. Na sala, Orfeu dormia, roncando por culpa da asma, enquanto se encolhia numa manta.

— Acho que quero ficar por algum tempo aqui … — Dizia-se, e posta em seu peito, ela sorria.

Os dois fechavam seus olhos. Ela, dormia, e Zero, alucinava. No terrível campo de sua memória, um homem jovem rapidamente se mostrava. Num sorriso, ele apenas finalizava, antes de sumir pela manhã banhada de sol dos desertos:

— Você chegará lá, tenha calma!

Dois Meia não compreendia …



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