AVN – Capítulo 36 – Operação sem deuses no distrito [parte 2]!



— Sofia, Sofia, sempre em busca de algo nesse mundo. — Numa sala qualquer, Um tragava. Seu cigarro fazia fumaça, da qual dançava ao seu redor como a névoa das margens de um lago enluarado. A sala era escura, com um tom vermelho escapando das telas. Certo ruído constante passava, enlouquecedor na sua pior forma.

Piiiiii!

Algo alertava. Era um aplicativo na área de trabalho, que se levantava em todas as telas que se mostravam. Estranho, Um não se lembrava de ter qualquer coisa do tipo instalada em qualquer um dos seus computadores ou hologramas. Então, sim, haviam a hackeado, e pior, poucas pessoas tinham coragem de fazê-lo.

— Sofia, linda Sofia. — Sua face em cada tela, na escuridão carmesim do quarto, mostrava os sorrisos absurdos de uma face. — O que você quer de mim, Sofia?

Se virava para as telas. O rosto de quem sorria era de um cansaço visível, das olheiras saltantes e do tom embaçado dum branco amarelado na tez de sua pele. Ela também parecia não ter linhas de bordas, como se estivesse a um passo de se decompor naquele ambiente pútrido que se escondia.

— O cartel de sampa é um negócio as escuras criado pelo grupo da liberdade humana … — Sua voz tinha traços agudos de uma emoção que se continha. — Segunda força política da Giant Tree e outras cidades dos subdistritos C e D. O perigo não é tão imediato quanto imaginávamos!

O Cigarro se apagava, com sua face sombreada apenas pelo brilho LED das telas. Ela dizia, com um sorriso terrível de desprezo:

— Desde o começo não é disso que se trata. Você deveria saber … — O rosto de Sofia se enrijecia. O sorriso se desmanchando pelos milhares de pixels que se atualizavam milhares de vezes num só segundo. — Veritas minha querida, projeto antigo. — A voz rouca percorria. — Sei que você ficou sabendo, seus cidadãos sem alma devem ter captado meu sinal. André Touloise, um babaca curioso – nos termos antigos –, estava doido a anos para por fogo em Dirty Roots e nos cortiços ao redor. E quer saber o porquê? Ele é a porra dum eugenista! Ele piamente acredita que apenas aqueles quais derivam do verdadeiro sangue terráqueo que são dignos de ser considerados parte da humanidade. Toda a escória marciana, sem nenhum contato com a verdadeira história terráquea, é apenas um utensílio; escravos desses novos senhores, para ser mais exata.

Com os olhos a espreita, Sofia respirava alto. A inteligência de No-heroes sequer chegava aos pés de todo o conhecimento qual Um acumulava ao longo de tantos anos. Certos e obscuros poderes, que Sofia pouco conhecia, também era um trunfo escondido, cujo a fazia está sempre no mais alto pedestal desse mundo.

Um peito inflava relacionando tudo que era dito, fazendo sua respiração oscilar, e seus olhos se fixando ao centro da tela, na escuridão do rosto de Um, pareciam querer saltar,

— Isso não faz sentido, todos nós derivamos da população terráquea! A reprodução é contínua, passamos esses mesmos genes adiante, então o que há? — Ela se exaltava. Não havia sentido em nada, pensava.

— Não, isso é parcialmente verdade. — Um dizia. — No entanto, antigamente, bem antigamente … — O bem que se alongava. — a humanidade estava reduzida a menor fração dessa parte. Vou te contar uma verdade: no Satélite Gateway 0, antes deste se tornar um enorme servidor de dados, era o local onde 24 mil dos mais talentosos cientistas residiam na órbita dessa pérola carmesim, sendo, para assim dizer, os últimos terráqueos que restavam da humanidade. Nos estágios finais de colonização, precisávamos mandar seres que fossem, como podemos dizer, que não fossem nós para preparar o terreno. Assim criamos um sistema de clonagem absurdamente eficiente, num plano chamado 2 M. André, que piamente acredita derivar de um desses 24, simplesmente pensa que, quando o dia chegar, apenas os filhos retornarão ao seu lar.

Ao redor de Sofia, pessoas se reuniam. Eram Jó, I.O e K, com olhos quase perfurando a tela, onde tentavam compreender cada palavra que se sucedia das linhas absurdas de um passado distante.

— Então, toda a humanidade, hoje, não tem nada com a terra? — K perguntava. Era tão curioso e intragável, que sua curiosidade extrapolava.

— Na verdade não, eu, por exemplo, sou da terra. Vi os últimos dias daquele insalubre planeta na minha infância, e, para ser sincera, todo o material genético de vocês derivam de algum dos 24 mil cientistas na Gateway 0. Aliás, também somos seus criadores, criadores de suas tecnologias, e da organização dessa sociedade. Então de algum modo, nós, verdadeiros terráqueos, seríamos como seus deuses. Mas apenas aqueles que lá estavam. Vocês clones, até as crias de nós, originais, não tem nenhum direito de se pronunciarem especiais, e sinceramente espero mais que todos vocês morram. Não precisávamos de vocês, além do fato de só terem nos trazido desgosto. Mas bem, tenho certeza que não morrerão amanhã, pouco me importando. Quero dizer, ainda tem uma coisa, uma pequena coisinha que nós, terráqueos, deixamos passar, e que, sim, me incomoda.

— Veritas?! — Sofia dizia.

— Veritas! — Um confirmava. — Nosso artefato mais antigo. Na época em que vivíamos enjaulados na Gateway precisávamos de algum tipo de justiça imparcial, que investigasse os nossos desvios contra um utilitarismo instaurado para a não decepção de nossa vida eterna ociosa. Não querendo entrar em detalhes sórdidos, certos cientistas bem importantes acabaram sucumbido ao tédio da eternidade, o que é danoso em vista que, quando não há relógio para nossa existência, justificativas são párias. Mas não sendo sobre isso que quero tratar aqui, Veritas aparentemente foi redescoberta e não só isso, reprogramada. Quando conectada aos servidores, toda nossos segredos serão constantemente violados e nossos piores eu julgados e condenados. É uma preocupação para mim, para vocês, para os engravatados das Megatorres e das maiores empresas, sejam privadas ou compartilhadas. O que deveria te levar a uma segunda questão, que sequer deve ter passado por sua cabeça: “quem é aquele que protege André Touloise e seu louco e intragável plano?”. O cartel de Sampa, queridinha, é apenas um peão desimportante, que nem mesmo arranha qualquer parcela do meu negócio, sendo, na verdade, controlados por uma peça bem maior por trás das mesas.

Naquele momento, Sofia nem mais conseguia segurar o ar que se acumulava em seu peito.

— Você se encontrará com ele, não é? Então faça-me um favor e descubra quem é esse fodido. Temos assuntos importantes a tratar com eles, e disso você sabe.



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