AVN – Capítulo 34 – Alma (Parte 5 e segundo fragmento do deserto)!


— Ei moleque, como vai sua mãe? Fiquei sabendo que ela chupa meu pau por um saco de arroz, é verdade mesmo? — Em algum lugar, na imensidão carmesim, um jovem sofria. Talvez ele tivesse nome, uma vida, fosse alguém a ser mencionado, no entanto, naquele pequeno fragmento, guardado nas entranhas de uma memória viva, ele não era nada. Vozes dolorosas ferindo sua alma. O que ele poderia fazer estando cercado?

— será que ele fica batendo punheta vendo a mãe trepar? — Seu rosto enrubescia …

— para aquela puta até eu fazia. — … também tremendo com tantos o cercando …

— é gostosa mesmo, acho que vou até passar por lá mais tarde! — E sua mente empalidecendo com o desejo de agir rompendo …

Naquele mundo escarlate, o ódio era despertado por nada. Aquele sem nome, como um grão de terra, era soprado pelo vento naquele lugar, tentando se agarrar em alguma epítome, sem sucesso; parecendo sempre um estranho no meio de todos, restando, na sua vontade, um ódio legitimamente motivado.

Então, nesse ódio, ele fazia o que podia, devolvendo a dor das palavras com seus punhos e pernas, na devoção, honrando quem não ouvia às palavras dilacerantes do seu estado. Mas era fraco! Como eram fracos seus socos e chutes; como eram lentas suas pernas trêmulas, e também como era inapta sua mente à batalha.

Desse modo, a dor dirigida a sua alma destroçava também seu corpo, manchando-o de hematomas e sujeira. Os gritos ensurdecedores se desdobravam, com alguns dizendo “maldito” e outros apenas “filho da puta”. Doía de muitos modos, aquele garoto do deserto sentia, desejando, ao fim de tudo aquilo, apenas vingança. Sangue cairia da mesma forma que seu orgulho morria.

— Ei! — Uma voz surgia numa colina arenosa qualquer. — qual de vocês pode me dar um copo d’água ou uma boa cama pra descansar. Ando a dias e meu corpo roga por tudo isso. — Descendo lentamente, se aproximava a sombra, com um halo de luz ao seu redor. A figura encolhida, sem mais botas lhe ferindo, sentia está na presença de algum salvador divino. Mas quanto mais o mesmo se aproximava, mais a súbita decepção o levava. A figura encoberta de luz estava em trapos e seu rosto estava tão magro que parecia um cadáver. Um vagabundo qualquer vagando os desertos, como tantos antes daquele.

— Acho que a mãe desse daqui pode te ajudar. É só ter a quantia certa! — Um dos meninos respondia. A maldade escancarada de um sorriso que formava nos seus lábios.

— Verdade! Além do mais dizem que ela gosta de estrangeiros como você! — Outro continuava. Seus olhos afiados ia em direção ao capuz da figura.

— Se é assim mesmo, então tirem seus pés de cima dele e o permita me levar até ela. — O ator e sua inocência. Seja falsa, verdadeira, não lhe importava.

— Mas veja, esse maldito tentou bater em mim. Tá vendo esse corte aqui no meu rosto, foi ele. Temos que fazer alguma coisa por conta disso. — Um pequeno corte que sequer sangrava, apenas uma mancha negra em sua face.

— Vocês deveriam saber que não me importo … — Olhos vindos da escuridão do capuz parecendo devorar-lhos. — só tirem seus pés dele, e mais nada.

Todos os garotos esboçavam um sorriso. O capuz que protegia o rosto contra o sol caindo. A realidade do estrangeiro surgia, com sua face amarelada, os cabelos castanhos emaranhados e uma barba recém-formada, falhada Nada mais que um simples jovem moribundo como todos aqueles que lá estavam. Que ameaça!

— O que vocês nos dará? — Perguntavam. Uma risada parecia desejar sair de suas bocas, contidos apenas por um sarcasmo próprio.

— Nada! — E a resposta que vinha como água gelada.

— Então porque faríamos qualquer coisa por você? — Ceticismo sagrado!

A figura se aproximava. Um olho vermelho brilhava em seu peito e seu olhar perfurava a turba. Sua mão se fechava como num punho e o grupo recuava. Sua voz, plena como água, apenas dizia:

— você não quer irritar um homem cansado!

Medo surgia, como se presenciassem a morte em suas frentes. Um menino aleatório tentando atacá-lo. Um soco surgido que o fazia viajar metros em direção a nada. Era um soco, mas ninguém o via. A pose retornando tão rápido como se estivesse estático. A visão intragável, onde percebia-se que talvez quem tivesse aquela força não era um simples brinquedo qualquer, como o garoto sob seus pés.

— Vamos pessoal, não me forcem a ser mais duro. — Um sorriso diabólico, como se também dissesse ser sarcástico. O medo imperante onde todos saíam. Naquele dia qualquer, todos fugiam, restando apenas duas figuras. Uma mão dava apoio a quem desejava levantar, e o sustentado perguntava:

— Quem é você? — Sua voz baixa parecia não existir. Mas como num sonho, a resposta vinha, do resgate de suas palavras, onde apenas respondia:

— Sou Zero, e você?

— Orfeu …

Solitários naquele canto, eles se dirigiram a uma pequena sociedade, às margens de um lago rosa pelas cores do entardecer. A beleza era sufocante, com uma humildade imperando nos pequenos edifícios de cal esverdeado.

O semblante de Orfeu era silencioso e o de Zero, sussurrante, vendo tudo e a todos como curioso.

Uma casa distante se mostrava, pequena e parcamente iluminada por luzes frias e fluorescentes. Um silêncio reinava e adentrando, parecia que havia certo tipo de fúnebre sentimento pairando. Zero talvez soubesse já o que acontecia. Um vento gelado trazia a sua face o sentimento de memórias antigas, de um verme que há tanto já morrera.

Saía uma figura, e ela dizia …



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