AVN – Capítulo 33 – Alma [Parte 3 e o segundo fragmento do deserto]!



Lábios cortados, secos, empalidecidos e com traços escarlates, um corpo magro cambaleante e passos registrados – tão logo apagados – numa colina qualquer, de areia. Zero andava sem descanso por aquele deserto, onde os olhos te observando sentiam indecisão, mesmo com mente focada. Turing apitava:

— pressão arterial está abaixo do recomendado, e suas provisões acabaram. Caso faleça, tem alguma mensagem que gostaria de deixar?

— que se foda tudo!

Zero se sentia um tanto enganado, os cálculos de Turing pareciam errados. Já era pra está no Oblivion, mas a verdade mostrava que sequer no horizonte se apresentaria, restando apenas um túmulo sem flores, árido, que esconderia, tão efêmero quanto sua existência, o tolo que ousara. Tantos erros executados! Zero também estava irritado consigo mesmo. Todo seu planejamento de nada adiantara, tendo tantas lacunas, tantas problemáticas, que sua morte já estava até premeditada. O que sobrava então ali naquela colina, que ele desbrava sem vontade, observando seus passos que falhavam, o corpo que caía e se arrastava?

Se Um realmente o observasse, ela, com certeza, estaria decepcionada. No fim, apenas a ilusão de uma sombra perfeita fora buscada, com a pressa atrasando a perfeição e morte surgindo nas falhas.

Zero esperava algo – esperança na desesperança. Além das colinas, Zero esperava algo. Subindo e descendo-as, era causa da fadiga. Sua mente despedaçando no espaço do escarlate e seu corpo como areia no vento. Zero esperava algo, era sua esperança, quer o que fosse o significado dessa palavra. Turing outra vez apitava:

— acho que tenho medo, senhor. — Sua covardia inata era desesperada. — Não sei se tem também, mas eu tenho … não quero ser esquecido …

— é apenas a passagem do tempo, Turing. — O niilismo de uma alma conformada; — recuse-a ou aceite-a …

O Led de Turing piscava em vermelho, a areia que surrava seu rosto era carmesim e o sangue de seus lábios cortados, escarlate. Tudo que era doloroso tomava aquele tom, desde o solo que te sustentava e o céu azul passageiro.

Zero enlouquecia nos seus próprios devaneios. Sem a certeza de nada e a fome o entorpecendo, ele sentia que morreria a qualquer momento.

— se reerga! — Uma voz, surgida do nada, te dizia. Zero sabia de quem era e isso te assustava. No entanto, compreendendo a ordem, não havia mais nada que pudesse fazer, a não ser seguir em frente, como no roteiro.

Então, passo por passo nas areias fofas, sua cabeça se revirava. Havia uma sombra em frente ao crepúsculo. Era Franker lhe dando o caminho, e, como recebendo água no deserto, ele o seguia. Sua alma, próxima do abismo, reencontrava forças, e seu corpo, passo por passo, continuava, erguido. A vida reconquistada no princípio. O recomeço que todos desejariam.

No topo da colina, Zero encontraria finalmente, com ele sorrindo ao lado de uma caixa, embrulhada como presente. Uma mensagem escrita num cartão despercebido. Laços sendo destruídos. A ilusão se tornava verdade ao fim, com Zero abraçando o que recebia.

Mas quem o dava? No cartão ignorado, era Um a diva que presenteava, com tantas palavras de amor nas letras perfumadas.

Mas seus atos, na ilusão da barbárie imediata, apenas fariam a gentileza cair no esquecimento. Esquecimento que o alcançava e assoprava pra longe Franker, mas não como se isso importasse …

— Isso é sorte? — Vendo o sol se despedindo, Turing apitava.

— foi Um … — Onde, no esquecimento, Zero respondia. Sua face rejuvenescida sentia o torpe sentimento de início e da dor da volta sem nenhum caminho; — mas isso não importa. Estamos no plano. A luta que foi esta não será nada comparado ao resto.

Naquela caixa, suprimentos de água se acumulavam. Comida não fazia falta. Mas a quantidade que ele poderia carregar contigo era tão pouco comparado onde estavam armazenados.

Uma pistola de pólvora também se encontrava, com munições largadas, rolando através das barras embaladas e garrafas empilhadas. Algumas agulhas com doses de adrenalina estavam presente stambém, dentro de um estojo preto.

— o que faremos agora? — Turing continuava.

— não sei, apenas se conecte a GW 0. Uma localização, uma sociedade, qualquer coisa. Dependemos disso …

A fome bárbara! De uma só vez, Zero devorava três barras. Mil e duzentas calorias sendo mastigadas e mastigadas, dissolvendo em água, se tornando um mingau que entupia sua boca e quase lhe engasgava. Mas veja, o sentimento de fartura era tão bom, que o nem o sabor de isopor lhe incomodava, com a água sendo o mais doce vinho daquelas partes.

Acho que fiquei próximo da morte …” Enquanto engolia, Zero pensava; “E pior, acho que ficarei mais vezes perto dela, enquanto seguir este caminho que me forcei …”

O revólver, brilhando, era pego. As mãos rígidas observando o tambor de balas, o cano prateado, o cabo de aço revestido com borracha. Ele mirava através do deserto que escurecia, com todo o poder nas pontas de seu dedo. Click, Ele disparava! Mas descarregada, apenas o fútil som da agulha e engrenagens era-se escutado.

— Turing, se você tivesse uma arma, o que faria? — Zero perguntava, colocando garrafas encima duma rocha próxima.

— caso tivesse braços, creio que nunca usaria, quero dizer, como um cidadão comum vivendo em sociedade. Na sua situação, acho que cedo ou tarde usaria, mas não consigo entender o porquê …

Com certo mal jeito, Zero recarregava o revólver. Bala por bala encaixandonas lacunas, com as engrenagens – nunca sequer usadas – fazendo seus estalos. O tambor girava. Olhos atentos desconfigurados. Um tiro que soava no vazio do espaço acertando algo na luz estrelada – enluarada.

— Errei! — Um grito ecoava. Decepcionado e sem muita emoção, ecoava em meio ao breu. — isso é mais complexo do que eu imaginava …

Turing, com sua Led piscando, processava. Algumas informações na sua memória pareciam lhe dá dicas úteis, mas havia certos conflitos para interpretá-la. Um bug na sua programação dificultava. Mastanto faz, pois sabia que não era uma simples máquina. Turing descobria que podia reparar pequenos erros e evoluir, mesmo limitado pelo modo como fora programado.

— fecha um dos olhos, isso pode adiantar. — Ele apitava após um milissegundo de silêncio. — Estica mais os braços também, parece que influência …

Zero escutava, digerindo. Seus olhos se readaptando a unidade indicavam. Seu ombro apontava. Outro disparo pulsante contra o vento, acertando o centro da garrafa, que voava.

Isso é bom …”

A emoção dilatante do sucesso te fazia continuar, tiro por tiro, derrubando as garrafas como se tivesse passado a vida atirando. Noite caindo. Outro aprendizado pra levar para vida. No entanto, para quê?

Zero pensava: “limitado a solidão, uma arma se torna perigo ao quê além de mim? As trevas de minha paranoia não servirão, então devo me aproximar de algum tipo de decisão? Lutando pra sobreviver, como eu poderia cogitar algo que me fizesse rever o próprio significado de minha vida? Isso é impossível, as linhas que Um escreve provam isso. Então o que será? Algum outro desafio? Terei que matar alguém? Uma arma confunde demais e isso pode me causar doenças na situação que me acomodo. Será que é esse o plano dela? Me fazer lutar contra meus próprios pensamentos? Confusão maldita!”

Zero olhava através das trevas. A arma ainda em sua mão lhe fazia revê certas coisas referentes a alguém num passado não tão distante.

Sua mente, como um toca discos velho lhe falando, com a verdade se aproximando e a mesma voz obsessiva conversando:

Se passaram dois anos. Não que seja importante, tudo pareceu correr num pisque. Mas ainda assim, se passaram …” Sem fogueira, lembranças aqueciam no jardim sem flores. A mente relaxando. A realidade das palavras vindo de si para ti. “Realmente, se eu não tivesse aqui, já estaria morto. Em algum outro lugar – talvez Redneon mesmo –, com uma pistola como essa e os miolos estourados. Também poderia morrer em algum assalto, linchamento. Todos me odiavam, a última opção é bem sensata, no entanto não gostaria. Em revolta, tenho certeza que o poder de tirar minha própria vida seria a melhor vingança contra a sociedade – não a sociedade de verdade e sim a que projetei em minha mente.” Os olhos sussurrantes da noite espreitavam o momento íntimo. Nem Turing, voando no espaço interligado da GW, imaginaria; “Se torna minha obrigação agradecer Um. Mas antes, devo agradecer ao velho e também àquela misteriosa no beco. Entrei num mundo onde obtenho o que desejo e que me transformo, a todo momento, nalgo novo …”

Com uma caneta que guardava no bolso da calça, Zero escrevia, num livro cujo o perseguia a tanto, que já integrava sua própria alma. A letra, trêmula, diria: “Saindo da morte, encontro suspiros. O deserto carmesim não tem presas, trabalhando no veneno, lento e dolorosamente, tentando nos digerir em seu estômago. Isso consome minh’alma! Não deveria dizer deste modo, estou cansado! O sol arrebatador surgirá em breve. Nuvens se distanciando ao centro do mundo! Devo me aproximar. Ser mais rápido do que nunca fui. Ao mesmo tempo que tenho muito mais carga pra levar. Assim como todos os dias em que cito, pressinto que posso está em meus últimos suspiros. Então, adeus. Espero não dormir tão cedo …”

O dia se finalizava …



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