AVN – Capítulo 31 – Alma [terceira parte]!



O andarilho de marte caminhava. Ventos gelados castigando e areia onde seu pé afundava. O caminhante humano ofegava. A imagem de uma fenda à retaguarda assustava e o ar rarefeito fazia delirar, vez ou outra, em seu caminho por aquele deserto. Uma voz dizia:

— os bosques artificiais das fazendas de gases-estufa se encontram muito ao sul do planeta vermelho. — Carregado num suporte numa das alças de uma simples mochila, o pequeno ser se conectava. — Pela magnetosfera ainda em reconstrução e pressão atmosférica de 36,3 quilopascal apenas, pode se dizer que ainda não temos pressão atmosférica suficiente para que haja convecções na atmosfera, tornando deficiente a existência de correntes de ar, o que impede o fluxo desses gases produzidos no sul ao resto do planeta. Porém, é encantador. Deveria ser impossível tal feito, mas vocês, humanos, não só conseguiram em mais de seis séculos vivendo no espaço, como a cada dia aceleram o processo de colonização. Acho que conseguirão tornar esse planeta mais que bem-vindo nos próximos quatro séculos facilmente. Não fica impressionado, Zero?

Cansado, com fome, estressado, Zero não desejava falar, simplesmente. O suprimento que era apenas para três dias durava mais de duas semanas, e parecia que ele ia ficar sem comida em breve. Carboidrato, fibra, qualquer movimento em falso resultaria sua morte, por isso, Zero não desejava gastar energia atoa.

— você tinha razão … — Turing continuava a dizer em seu bolso. Sua voz artificial sentia certo prazer, cuja não se resguardava. — me conectar a Gateway 0 é realmente recompensador. Apenas sinto pena que poucas vezes tenho sinal. Se conseguisse passar mais tempo na rede, realmente, acredito que conseguiria me tornar um grande ajudante, mesmo que limitado nesse equipamento obsoleto.

A torreta de palavras se resumia a nada. A realidade era que o horizonte vazio preocupava e isso era a única coisa que angustiava Zero. A solidão carmesim dos ventos desérticos seria sua morte e, sem expectativa, era o que ele ansiava, vendo, além das rochas salientes e das colinas de areia se desmanchando nas brisas solitárias daquele dia nublado, o nada. Uma voz na sua cabeça no entanto, ainda o faria perguntar:

— quanto falta para encontrarmos vida? — Contra sua própria vontade, num tom de voz baixo; um sussurro escondido que era apenas captado.

Turing, que entendia as limitações do seu criador como um forma de vida baseada em carbono, então, precisava apenas responder, o mais objetivamente, enquanto apagava a memória em cachê inútil, liberando sua RAM e sua capacidade de processamento.

— poucas informações … — Sua consciência imersa resgatava da rede palavras consoladoras; — mas dizem que há uma sociedade a sudeste. — dos olhos que não se afastavam do horizonte. Suspiros animadores poderiam ser brevemente escutados. — É meio vago, mas chamam de Oblivion. Sociedade mais distante, também consta aqui, só observada por satélites, aliás. Nenhuma ameaça aparente, por isso ainda não foi atacado.

Com um sol que caía, Zero sentia certa tontura. Faltava açúcar em seu corpo, ele entendia, no entanto, mais que uma barra de nutrientes por dia seria muito arriscado. Seus sorrisos com a oportunidade ainda não poderia o tornar displicente. Por tal, com uma voz meio torpe, ele ainda precisaria dizer, para confirmar sua ousadia:

— quantos quilômetros até?

Os olhos de Turing calculavam.

— 80 quilômetros. Considerando seu cansaço e o tempo que levamos pra chegar até aqui, diria que quatro ou três dias serão mais que o suficiente senhor.

Uma represália na brisa gelada surgia:

— não precisa me chamar de senhor.

Zero continuava através daquele deserto, encarando o mar vermelho levemente soprado, vezes ou outras, por uma brisa errante. Seus olhos, se derramando sobre seu corpo, via a imensidão intragável aumentar e aumentar. Uma, duas, três horas se passando do mesmo modo insuportável, com o peso do seu corpo quase desmoronando. A realidade de uma noite que se aproximava e um corpo que se arrastava até perto de uma pedra. Ele precisava descansar após um dia inteiro. Pesadelos não o assustariam no fim.

— sua pressão caiu em níveis meio preocupantes hoje … — Então, na proteção de uma pedra qualquer, ele se sentava. Pernas com câimbras e um corpo que se encostava na rocha gelada. Turing continuava: — Seus batimentos também estão caindo. O calor do seu corpo está baixo, o que me faz admitir que, como nutricionista, devo te aconselhar a comer duas barras hoje. 300 Ml de água também é preciso. Se o tempo abrir e a umidade passar, o calor pode chegar a 70 graus fácil por aqui. Com nossa água, você morreria desidratado em meio dia.

Estrelas distantes não pendiam. Dia nublado, lua escondida. Outro fato perturbador que poderia lhe tirar a vida. Apenas um sorriso poderia transmitir a ironia que percebia.

— informação relevante. Preciso apressar o passo então? — Retirando a comida da sua mochila, ele declarava. Mesmo sorriso no rosto que Turing não percebia. Sua câmera focava na escuridão, onde Zero não estava. Uma resposta surgia de qualquer forma:

— nossas chances não são tão remotas, mas o risco é alto. — Luz vermelha piscando. Era seu LED que indicava processamento. — Se tivesse equipamento para acampar, não seria tão problemático. Trocar o dia pela noite seria até melhor. As estrelas poderiam nos guiar facilmente.

Palavras sobre um presente inexistente. Através da escuridão e o pó, Zero realmente não desejava escutar aquilo.

— faz sentido, mas não me interessa. — No fim, ele nem mesmo havia cogitado à situação. — O quanto eu deveria me apressar para chegar em um dia e meio no Oblivion.

Turing era uma máquina. Mesmo que se adaptasse aos humanos, Turing era uma máquina. Momentos inconvenientes eram constantes e tentativas frustradas de não ser apenas o fazia delirar. Mesmo assim, ele já aprendia — lhe gastava energia de suas pilhas, falar com humanos —: qualquer um te suportaria no momento que fosse útil. Mal sabia ele que esse era apenas um fim pros escravos.

— você deveria manter uma velocidade constante de quatro quilômetros e setecentos por hora. — Mais cálculos e informações deslizando. — O minuto de caminhada custa 5 Kcal, aumentando a velocidade, chegamos a 9 Kcal/Min. Mantendo por uma hora, você gastaria 540 Kcal, 240 a mais que nessa velocidade atual. Sua dieta é de 900 Kcal consumidos por dia. Sua gordura total está diminuindo bastante, perdendo cinco quilos em duas semanas. Deveriam ser mais, porém seu metabolismo está mais lento por consumir menos líquidos. Então, para não afetar tanto sua saúde, coma uma barra nutritiva a mais e beba uma garrafa inteira. Conselho.

Agradecimentos em uma realidade de mil braços.

— agradeço Turing, você que me mantém vivo até agora.

— ao seu dispor.

Sozinho, na escuridão de uma noite sem estrelas – de uma lua borrada num céu embaçado –, Zero encarava o próprio desafio. Onde Um estivesse, o que era pior, ele sabia que estava sendo observado. Talvez sua própria I.A já estivesse sendo hackeada de algum modo, ou algum GPS tivesse sido posto nos músculos do seu corpo. Não importaria: ele estava sendo vigiado e esse era o fato. Olhos sussurrantes nas leves brisas talvez, também podendo ser nas massas de ar que não se moviam. No entanto, o fato não era tão mal assim. Sentindo os olhos, Zero sabia que, além da decepção, não era facilmente que morreria.

— desse modo … — Com Turing desligado, ele dizia. — posso arriscar. Mas acho que é isso que você deseja no final. Não é?

Então a água em temperatura ambiente caía, embora tentasse se controlar, aquela bebida transparecia. Entre goladas e mordidas pequenas – para fazer durar mais –, Zero tinha seu banquete, fazendo saudades a fome, que minutos depois retornaria, batendo à porta. No entanto, não de saudades viveria, dormindo em seguida, coberto com uma simples manta, no frio de menos 17 graus que fazia o deserto vermelho encantado. Mais delírios e suspiros.



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