AVN – Capítulo 30 – Alma [segunda parte]!


Dois anos e seis meses. Sozinho com tralhas, lixos e sua própria mente, Zero alcançava algo. Não que ele soubesse exatamente o que era, mas sabia que era algo. Suas consciências, caladas, pareciam ter-lhe deixado um presente, e seu corpo, cansado, se deitava em meio a livros e tudo que criara. Era próximo do fim, ele sabia e há muito se preparava.

Há algo além da escuridão …” Pensava. “algo que querem que eu veja, por algum motivo.”

No meio daquela biblioteca, de milhares de livros jogados ao chão, apenas uma prateleira continha algo. Ela era solitária num canto qualquer, com apenas mais um livro, cujo título era: “A solidão carmesim dos ventos desérticos”. Não havia autor na sua capa, não havia nada, apenas o título. Zero pensava:

Li por dois anos, que pareceram décadas …” O tempo paralisado no ócio derramava-se; “parece que chegou minha hora …”

Retirando aquele livro da prateleira, um último anexo se abria. O som de engrenagens influenciada por eletricidade se sentia com Zero abrindo aquele último livro: “Não há nada, além de uma caneta. Realmente, chegou minha hora …”. Sua face, distante, se encontrava com uma escada que o levava através da escuridão. A luz embaçada o guiava, vendo fora da estranheza do breu a imensidão carmesim de ventos sussurrantes. O céu cinzento parecendo guardar os astros, com ventos alvejando sua face e pó ardendo as vistas. Seu corpo tremia. Fazia frio, muito frio, como se um inferno gelado subisse, o fazendo retornar por aquela escada escura, anotando naquele livro.

— Dia 1: o que me falta para voltar ao inferno? — Eram minutos e dezenas de minutos que se passavam, pensando em cada palavra à ser dita. — Preparado estou faz anos, porém, com a luz do sol me afetando, sinto como perdido. Será que me apeguei a esta biblioteca, ou será que o doloroso mundo ainda me amedronta? Não entendo, mas sei que já é hora. Devo pegar o que tenho e atravessá-lo, até onde posso … até onde minha alma aguenta.

Uma mochila estava próxima da entrada, com câmeras o observando. Uma roupa, encontrada entre o lixo de algum anexo qualquer, era separada. Limpa e passada, ele se trocava, sendo esta uma calça jeans com um casaco de montanhismo da marca EAA e um macacão térmico, além de botas. Algumas pilhas de barras nutritivas, encontrada também em algum anexo qualquer, já o revelava algo, seguido de algumas garrafas d’água. Um coldre colocado na sua cintura carregava uma faca e uma corda se enrolava na alça da mochila. Aliás, essa nem era tão grande, sendo toda negra revestida com um plástico isolante, tamanho escolar, onde ele amontoava comida e água suficiente para três dias.

Mesmo assim, vestido – roupas de doente jogadas na mochila –, Zero não ia direto para o exterior. Havia algo mais importante nas mesas onde livros não repousavam, com computadores rústicos de telas esverdeadas apitando. Um pequeno dispositivo plugado numa entrada. Uma voz metálica e sussurrante rogando:

— Por favor, dê-me um nome.

Simples 20 mil linhas programadas. Seu nome seria Turing-One. Zero premeditara e sabia que esse era o único nome. Com o reflexo do talento, o nome também servia para recordá-lo como o progresso era estagnado por tão pouco. A voz, que ressoava de um pequeno aparelho de comunicação antigo, continuava:

— Obrigado mestre, o servirei com destreza, por favor … não me descarte.

Outra coisa premeditada. Linhas por linhas se criando, a cada segundo, aprendendo, em cada respiração, o que era o mundo. O limite, Zero entendia também, apenas sua deficiente capacidade de processamento. Poderia ser trabalhado futuramente, claro, mas ainda era o primeiro problema. Segundo cálculos, ainda, Turing tinha tanto pra evoluir, que parecia até absurdo. Absurdo proibido, aliás, pois a consciência de toda I.A deveria ser limitada por mãos humanas. Leis de um distrito em chamas!

— Afinal … — Zero dizia, olhando para o nada. — tudo que voa, se revolta! Mas foda-se essas leis de merda.

Um prato escorregava, surgindo numa mesa qualquer. Ele se sentava, enquanto o sistema transferia a última parte. A refeição final antes de seguir para o corredor da morte!

Transference completed … — Avisava o sistema. — unplug the memory device, please.

Zero finalizava sua refeição. Rápido, tudo estava pronto já. Só faltava a si mesmo. Porém, um pouco antes:

— Turing … — Testar o sistema seria fundamental. — consegue analisar o sistema?

O display da tela do aparelho mostrava apenas a animação de ondas, que se agitavam a cada resposta. Luzes piscando do sensor acariciava a estética e sua cor preta de tela superfina quase transparecia sua época. Mas a realidade da resposta não era tão revolucionária como se pensaria, com a I.A respondendo:

— com êxito, senhor. — No seu ar metálico, sem amor ou melancolia. Zero não se importaria, no entanto.

— e os sensores?

— há êxito também, senhor.

— E os principais erros?

— No texto base não há, os hardwares estão funcionando bem, no entanto tenho complicações para me conectar a redes. Não capto sinais.

— estamos sozinho num deserto, não se exceda com ações desnecessárias.

— justo senhor, o que deseja que eu faça.

— apenas confira minha temperatura corporal e batimentos cardíacos … — Zero colocava uma pulseira. — e também quero que regule meu sono e alimentação. Devo comer de oito em oito horas e sempre acordar 20 minutos antes do amanhecer.

— mais do que justo, senhor.

— não precisa me chamar de senhor. Meu nome é Zero, se dirija a mim desse modo.

— … entendido.

Zero mandava um joinha para as câmeras que o vigiavam. Seus passos, rápidos, caminhavam para fora. Ele sentia um pouco seus músculos, seus ossos. O ócio o havia detonado e todos aqueles treinos pareciam perder já seus efeitos. Porém, dando os seus primeiros passos nas gélidas areias carmesins, ele respirava profundamente, leve como uma pluma, sentindo milhares de pensamentos brotando, nos dizeres:

— enfim, liberdade …

A biblioteca se fechava …



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