AVN – Capítulo 3 – O Fraco



Iria para a ducha, estava sozinho por lá. Apenas o som da água fria caindo no seu corpo. Depois, se vestiria, iria para o refeitório e comeria sozinho também no meio de tantas mesas e cadeiras vazias. Tinha um prato, nele, uma sopa rala e sem gosto de batatas. Olhava por entre as luzes e a poeira que adentrava, não estava realmente sozinho, tinha uma garota por ali, mas não importava. Estava atrasado, precisava sair, então levava seu prato, ia pelo corredor lateral e saía num beco. Algo te incomodava por toda manhã, mas não sobre o ambiente; era sobre si mesmo.

Se lembrava: no orfanato em que vivia, ele não era ninguém; não era o mais forte, o mais alto, o mais bonito, ou o que tinha mais amigos. Na verdade, todos os amigos que ele um dia considerou na vida estavam bem longe, tendo nada mais do que apenas memórias nostálgicas dessas poucas pessoas especiais.

Ele era um simples garoto de 14 anos, as vezes pensava; que ia para escola, que trabalhava meio expediente numa fábrica de pilhas de plutônio. No entanto, dentro do orfanato em que vivia, sabia, ele não era nada. Ou melhor, era uma barata, que vivia apenas por se esconder, ou ser pisado. Por isso entre outras coisas, naquela manhã, um grupo de jovens te encurralava. Tinha aquela visão, 3 deles em fila, com olhares ameaçadores, vestidos de jaquetas jeans e sapatos caros que possivelmente roubaram. O líder deles, que tinha uma das sobrancelhas raspadas, te gritaria:

Ei, seu merdinha … E ele, sem ter onde se esconder, ficaria ali parado, olhando. Fiquei sabendo que você comprou uma bicicleta nova, será que é essa merdinha aí? Nem motor tem, custou quanto, um saco de batatas?

Queria responder algo, a bicicleta não era nada demais, mesmo assim foi bem cara. O aro era de uma espécie de metal, não como se importasse. Na verdade, o que importava ali? Simplesmente tremia, sem saber o que dizer. E o líder lá, com a mesma pose, com todo controle. Queria tomar aquilo, reagir de algum modo, mas havia algo que o impedia …

Que é, vai responder não? Bicha do caralho! — Era aquela fraqueza delirante, talvez. Fosse decepcionante? Que fosse, era uma das partes mais horríveis do seu ser, ele também não gostava nem um pouco.

Uh … é …

É? É o que porra?! Responde!

Também havia uma outra coisa, mesmo que dessa parte negasse até para si: era covardia. E isso era o que te trazia mais repúdio, pois até o verme mais desprezível tentaria revidar, se debater, fingir que ainda existe nesse mundo. Ter medo de ainda tentar ser alguém, mesmo não tendo nada, era intragável para qualquer um naquela condição merda de vida.

O que foi? Fala seu merda? Parece a porra de um viadinho! Se quer me dizer algo coisa, então me diz!

No seu conjunto, como covarde e fraco, todos lhe dariam as costas, sabia, mesmo que perante as mais óbvias injustiças. Então, claro, os subordinados ririam, mesmo que não tivesse nada ali para se rir.

Teria que fugir, pois além de todo nervosismo, era preenchido também de tristeza, e Heichi, com o estranho costume de perceber tudo sobre medo, manteria apenas aquele olhar de quem sentia um asco infinito.

Te irritava, era como ver algum inseto passando pelo seu piso, encurralando Dois Meia – face por face – contra a parede do beco. Seus lábios, bem próximos do ouvido dele, sussurrava, num som baixo, mas perfurante, três palavras com um sentido forte o suficiente para fazer com que toda estrutura se rendesse.

Você me enoja!

Não era novidade, ele também sentia o mesmo por si, então o que havia? Era de um humor ácido saber que não te restava nada.

Acabem com ele …

No fim, Heichi não precisaria de muito pra destruí-lo, já estava acabado, e o mundo não sentiria pena da sua ruína, quando vira-se suas costas para direção às luzes oblíquas do fim do beco.

Ao fim, deixariam ele só por lá, com seu corpo maltrapilho, destruído pra dizer a verdade, mesmo que o surrassem apenas por pena, o que causava ainda mais desprezo por si mesmo.

Outra coisa, não havia nem mais um pingo de orgulho nos seus olhos, era só uma casca pútrida, descartável, enquanto olhava os passos que se afastavam do seu cadáver. Se surpreendia por não chorar mais, por não sentir nada mais, apenas o mesmo desprezo de sempre.

Talvez quisesse morrer, não que importe tanto …



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