AVN – Capítulo 3 – O Fraco



No orfanato em que vivia, Dois Meia não era o mais forte, não era o mais bonito e nem o que tinha mais amigos. Na verdade, todos os amigos que ele um dia considerou na sua vida jaziam bem longe, tendo nada mais do que apenas memórias nostálgicas dessas poucas pessoas especiais da sua vida.

Dois Meia era um simples jovem de 14 anos. Ele ia para a escola e trabalhava meio expediente numa fábrica de pilhas de plutônio. Mas dentro do orfanato em que vivia, Dois Meia não era nada. Ou melhor, ele era uma barata, cujo vivia apenas para se esconder, ou ser pisado. Por isso, naquela manhã, um grupo de jovens – uma gangue para ser mais exato – encurralava Dois Meia no beco onde ele guardava sua bicicleta, provocando-o da maneira mais madura possível:

Ei, seu merdinha … Dizia o líder do grupo, de numeração 164.835.729, apelidado de Heichi; Fiquei sabendo que você comprou uma bicicleta nova, será que é essa merdinha aí? Nem motor tem, custou quanto, um saco de batatas?

— … — A violência opressiva trazia o silêncio. Todo dia acontecia e ele sabia o motivo.

Vai responder não? O que há? Está com medo! — Era sua fraqueza, pulsante e degradante,  que o fazia passar por aquilo todo santo dia. E não parecia haver como fugir, ele diria intimamente, pois, mesmo querendo ser forte, ele não encontrava tempo para tal, sendo essa a sua desculpa mais íntima.

Uh … é … — No entanto, mesmo que negasse até para si, ele também reconhecia seu maior segundo problema: a covardia. E isso era o que trazia mais repúdio, visto que, para se revoltar contra o mundo, no mínimo, deveria haver algum traço de coragem.

O que foi? Fala seu merda? Ou será que apenas está gemendo como uma menininha? Te dou tesão, é isso? Você gosta de mim? Hahahahahaha! Ei vocês, olhem essa menininha aqui gemendo! — No seu conjunto, como covarde e fraco, todos lhe dariam as costas, mesmo perante as mais óbvias injustiças. Então os subordinados riam, fosse por medo, fosse por desgosto, eles riam, enquanto Dois Meia apenas se encolhia no seu canto, tremendo.

Heichi percebia a fuga de nosso protagonista, sentindo um asco infinito – sabe-se lá o motivo. E esse asco o irritava profundamente, a ponto de, sem mais e nem menos, parar de rir e, ameaçadoramente, encurralar Dois Meia – face por face – contra a parede do beco. Seus lábios, bem próximos do ouvido dele, sussurrava, num som baixo, mas perfurante, três palavras com um sentido forte o suficiente para fazer com que toda sua estrutura se rendesse.

Você me enoja!

Não era novidade, ele também sentia o mesmo por si – um nojo por ser um ninguém; um lixo impotente que não consegue lutar por nada em sua vida.

Sua alma estava quebrada por dentro, ele também sabia.

Acabem com ele … E no fim, Heichi apenas dizia – o mundo não sentiria pena –, virando suas costas para o jovem Dois Meia e indo em direção às luzes oblíquas do fim do beco.

Ainda lá: Dois Meia era atacado, surrado e destruído.

Porém, seu corpo, templo de sua alma, estava intocado da dor, existindo em seu peito, uma única ferida, que talvez fosse no lugar mais sensível de sua alma.

A única ferida estava no seu orgulho, o que sustentava sua completa admiração pelo mundo.



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