AVN – Capítulo 29 – Simples Pensamentos!


Me tornei uma sombra …” banhada em águas cálidas, Anne pensava. “Com sua existência a centenas de quilômetros de distância, me torno sua sombra …” quanto tempo havia se passado desde que ela vira aquele braço se destroçar? Palmas percorrendo o ambiente e a voz descontrolada ecoando. Se lembrava dos detalhes, e certo receio te vinha. Seu lugar havia sido roubado e ela entendia que não era nada. Ainda treinava arduamente – tentando se encontrar –, todavia, ela sabia que um dia ou outro ainda seria levada para as assassinas, onde talvez nunca mais a reencontraria, estando sozinha num mundo novo, sendo ninguém …

Eu te odeio …” Amantana acompanhava o banho, como uma anônima no meio do caos, preparando seus equipamentos; simplesmente a fazer seu trabalho. Os pensamentos transbordavam “do fundo do meu coração, te odeio!” Onde continuaria e continuaria repetindo as mesmas palavras, como algum tipo de mantra. Sua alma banhada aquecia até as bochechas, do seu corpo dissolvendo em mil fragmentos, que rogavam para alguém reconstruir. A verdade era que ela não desejava sair dali e que também não sentia vontade de competir. Derrota difícil de aceitar, ela sabia. Seu orgulho estava como seu corpo, da sua dignidade parecendo sua alma, onde apenas uma vingança – grande vingança –, poderia fazer se esquecer, por um momento, o estado interrogativo de sua própria consciência.

traição …” Estava encostada na escada da banheira. “o que dói é a traição. Não queria admitir, mas é o que dói. Mesmo não sabendo se é de fato, sinto no meu peito. Porém, olha que engraçado, também sinto ter criado expectativas demais no vazio … é isso que me deixa com medo

Sem entender a dor, Anne se via obrigada investigar o pútrido pântano de uma vida passada, de uma pessoa cujo nome já se esquecia há tempos. Não como ela quisesse, as memórias daquela eram merda, mas também, sendo o início, aquelas memórias seriam o único lugar pra tentar justificar ou encontrar algo.

Da banheira borbulhante, ela via, como num filtro de sépia, as memórias de rolo velho, começando de onde tudo acabava pra quem era menos do que nada.havia sido resgatada como órfão …” As bolhas lhe acomodavam como podiam e o sabão te fazia sentir viva. “… me lembro claramente nos dias de hoje, principalmente vendo os destroços e as chamas tão vívidas: você foi resgatada como órfão. Seus pais, nem me lembro os nomes, viviam na sociedade de Scar – pelo menos acho –, morrendo numa invasão de mercenário, onde destruíam tudo; nas suas fraquezas aparentes.”

A imagem límpida da dor e desesperança registradas naqueles destroços tinham seu impacto, sentia nas suas mãos enrugadas. Aágua bailando enquanto sua alma se mantinha flutuando no espaço isolado de sua mente elembranças: Tentei fugir com sua família, isso é claro. Passeando pelas florestas por dias, com a face seca, carregando trouxas e cestas parecendo mendigos. Tentei fugir com você e sua família, mas foi impossível. Você era a fraqueza e me mataria se não nos separássemos. Pelo menos, do sacrifício, achei meu rumo, continuando por aquela floresta até a exaustão, onde seus corpos eram deixados aos carniceiros, perfurados de balas como os ninguém que eram. É disso, me lembro com clareza, assim como também me lembro da floresta viva, ansiando por me devorar cada dia, me ordenando sobreviver como podia, no seu jogo sádico, com os poucos suprimentos que me restavam. Ah, era dor! Ao menos, perto do fim – próxima da morte –, tudo que restava era dor. Quando fui encontrada por Um, que engraçado, parecia que me encontrava com um anjo armado, quase parecendo premeditado, tanto que se torna difícil admitir o quanto sou descartável agora. Lembro da caravana de veículos, sua face branca por trás de um óculos, os homens de preto me apontando armas … lembro até das drogas na caçamba dos veículos, engraçado – mas nada do nome de seus pais ou do seu próprio

Vida que segue, porém, é curioso a forma como ela me perguntava, com todo aquele cheiro de cigarro e chiclete pairando no ar: — ei, que porra tu tá fazendo na minha área … — dizia sem se preocupar, retirando aqueles óculos enquanto se aproximava.

Ha! Tão engraçado, sequer tinha forças para abrir a boca. Realidade se misturando com sonho, foi assim. Nem mesmo parece ser possível que eu me lembre de tudo tão claramente: a forma como ela me atirava para o carro, que não me encarava, como se me sequestrasse!

É ainda mais engraçado – quanto estou rindo? –: sou um grande nada fazendo tempestade num copo d’água! Como assim resgatada? Mesmo que gostasse, fui sequestrada. E não só isso, fui sequestrada pela pena. Uma menina no meio do nada aparecendo mereceria socorro. Então, não há traição. Queria que houvesse, mas não há …

Porém, o tempo todo, ainda sou refém daqueles olhos … malditos olhos … malditas telas. Sou refém daquela expectativa; daquela exasperação … Maldito! Só queria sua cabeça empalada na minha sala … maldito … fez minha mestra refém e ainda fez o favor de me acorrentar junta … o que eu faço?

Nos seus olhos, lágrimas, caindo futilmente nas águas calmas daquela banheira, que a chamava.

odeio odiar, parece até que não passa. Me sinto apática, desolada! Sentimentos ruins para minha construção – fato! –; sentimentos ruins pra minha alma. Se pudesse controlar o que sinto, seria uma pessoa melhor, mas não posso. Devo conviver com isso … ou superar de algum modo. Mas como? Como?!”

Não havia respostas, por isso saía daquelas águas, indo em direção a mesa de massagens, procurando alguma coisa distante. Sua mente, que não conseguia sair do eu delirante, precisava relaxar de algum modo; em algum nível. As massagens de Amantana a permitiriam, se imaginava. Quantas vezes, em situações tão semelhantes, não precisaria? Era uma dependência até, todos aqueles toque suaves e precisos nos seus músculos, arrepiando seus pelos pela espinha e a fazendo delirar em sonhos de corrupção sazonada, vezes erótico – onde ela dominava Um e Um era dominada pela sua imponente figura.

Seus pensamentos, idealizados num mundinho sádico, porém, eram cortados. A voz de Amantana parecia navalhas caindo sob seu crânio capado:

— nossa mestra deseja vê-la após o banho. Diz que é imediato … — E era no silêncio de sua perversão que completava; — diz também que te agradará de algum modo, falando que será o mais saudável.

Seus olhos, se abrindo na luz da realidade, embaçavam. Seu olhar atravessando a sala e a sala atravessando seus olhos. A respiração cessava, e o que sobrava era um coração acelerado. Suas palavras, no entanto, eram calmas.

— então vamos finalizar aqui. — Com um ser que quase mesmo era enganado. — Não gostaria de deixar minha mestra esperando, não concorda?

Anne saía daquele banheiro após rapidamente se vestir com um vestido qualquer. Sem chinelos, ela ia pelos corredores de ausenta vontade, já premeditando o que seria lhe dito. Na verdade, se pudesse enfiar um lápis no seu pescoço e cair sangrando, ela ficaria mais feliz. A ideia de simplesmente morrer te parecia até agradável, pelo menos comparado a seguir um caminho que não parecia ser seu.

Seu coração pulsante, era quem mais sofria. A verdade era que seu nervosismo te enrubescia e ansiedade fazia não ter vontade. A novidade da situação fazia-a até sussurrar, depreciativamente, em sua mente: “é aqui onde vou …”

Estava de frente a seu destino, duma porta que se abria, vendo em seu interior um enorme computador com 16 telas rodando a mesma imagem carmesim e sufocante. Desde muito tempo sua mestra não saía daquele quarto escuro, sempre segurando um cigarro na mão e esperando. Mas o que esperava? Ninguém sabia.

Porém, detalhe importante: o cigarro na boca não apontava pras telas azuladas, olhando para Anne com um sorriso encantador. Que vontade de quebrar aqueles dentes, ela pensaria. Como não poderia? Certo mistério era errado. Não que não pudesse, apenas era que emoções tão confusas te injetavam algo naquele momento, do qual fazia qualquer suspense lhe parecer loucura. Mas a realidade, veja, seria tão pior, que Anne já se preparava. Olhos encarando lábios e dedos que tentavam agarrar algo no espaço. Ela observava Um:

— Anne … — Sua voz, tão doce como sempre parecera, atravessava seus ouvidos, caindo como uma luva no seu âmago; — entendo o estresse que é está na sombra de um gênio. Porém entenda, você é bem mais que isso …

Silêncio! Na escuridão azul, cortada por luzes de telas e LEDs, Anne paralisava. Um sonho? Talvez …aquelas eram exatamente todas as palavras cujas ela queria escutar a muito. Não só, essas mesmas palavras eram ditas numa realidade tão dolorosa que parecia absurdo acreditar. Sua mente, processando, apenas tentavaachar razão, com seu corpo contendo o transbordar de emoções mistas, se entrelaçando numa certa paranoia!

Ficava paralisada então, vendo Um continuar.

— Anne, a função de pessoas comuns, como eu ou você são aceitar nosso papel na sombra da genialidade. Na minha época, como aluna, fui sombra de alguém – admito. Na sua você também é e me identifico. Porém, diferente de mim, que sempre estive destinada a este garoto, seu papel não será assim tão próximo do protagonista. E o que você será, pergunta? Bem, só te resta ser auxiliar … não desmerecendo seu talento, porém é bom admitir: você deverá ser a auxiliar. Mas não uma leniente, condescendente, o que for. Deverá ser uma má, que rasga sua pele com chicote de pregos. Veja aqui na tela, ela já tem tudo o que precisa, mas não sai, continua enxugando até o fim, esperando. Quando concluir, terá bem mais do que eu, ou você, e essa é a maravilha. Gênios são assim e nós nunca o alcançaremos. Porém, sozinho, pensa, ele morreria. Precisa de nós. Por isso te chamo aqui, pois você irá ajudá-lo e também, indiretamente, me ajudará. E sabe o que você fará, junto de Amantana? Você o conduzirá até aqui. Quantos quilômetros são? Mil, mil e quinhentos. O ajudando o mínimo possível, você o trará de volta. Por isso a chamei e te falo tantas coisas … você trará de volta o jovem destinado a mim e é tudo o que eu precisava falar …

Com telas azuis como testemunha, Anne primeiramente sentia um choque na espinha. Seus sentimentos traídos tentavam se encontrar, certa confusão acometia. Um minuto desesperado, perfurando Um com seus olhos, fingindo não ser verdade. Mas como era, apenas lágrimas lhe restariam como conforto;inerte como estava, lágrimas eram o consolo. Respiração se desregulando e uma fútil tentativa de tentar não alertá-la. Porém era impossível, já queparecia até que acertavam seu peito com um tapa. Palavras caindo como pesos e uma verdade que se mostrava. Soluços encantados:ela sabia que não era nada, mas reduzida apenas a uma auxiliar? Rir depreciativamente de si mesmo era a única resposta. Mas veja, ao menos ela não sairia tão cedo ao lado de Um, mesmo entendendo que a mesma já estava prometida a outro. A declaração final, melhor forma de dizer, era isso que Anne via: a declaração final, que concluía tudo … e te magoava.

— não fique assim, você ainda é jovem … — Um, se virando, ainda a consolava nos seus braços, acariciando seus cabelos e sussurrando aos seus ouvidos. — não ser protagonista tem seus méritos. Se fosse para não está aqui, não te resgataria e hoje você não seria sequer estatística. Então, sua função, de fato, será bem melhor de todos aqueles relés que morrerão sem sequer ver a sombra da grandiosidade. As ideias se tornarão vívidas, Anne, e, olha que maravilha, você terá grande parte nela. Como poderia querer outra coisa? Não chore então, apenas trabalhe. Essa é a melhor parte, você sabe!

Foda-se isso!”, Anne ainda chorava. Ela não se importava com o futuro, ela queria apenas saber do presente. Então, raiva! Primeira coisa que sentia, após aquelas lágrimas, era raiva, seguindo uma vontade intensa de revidar a impotência. Seus olhos verdes se fixando. A realidade era que morrer já se tornava a melhor expectativa na sua triste existência. Ideias loucas que brotavam. Então, porque não morrer em alto estilo; na forma mais surpreendente possível. Ela também pensava. Lágrimas de olhos avermelhados e uma franja dançado! Uma ideia perigosa a precipitando do abismo, com seu corpo reagindo. Velocidade! sua face atravessando o ar, atordoava Um, descrente, vendo como se desenrolava um momento de insanidade, de uma aprendiz tão sincera com seus desejos mais repudiáveis! Sim, Anne a beijava. Era tímido, apenas um encostar de lábios, mas era algo; havia significado e Um entendia!

— Anne! — Ela também reagia, afastando seu rosto enquanto a observava. Olhos Âmbar e o verde se encaravam. A vermelhidão na face parecia se contorcer, desviando. Um entendia que era preciso dizer algo, mas não tinha palavras. Como mestra, ela nunca seria capaz de imaginar …

— desculpa … — Porém, Anne ainda falava. Suas lágrimas retornavam e sua frase mal podia ser ouvida, dita na pior melancolia, no tom inexistente que se embolava na sua própria língua.

— te entendo … te entendo … — Um ainda diria. — Amei meu mestre por muitos anos também. Admiração que se mistura com expectativas. Mas, assim como ele não podia me amar, não posso fazer isso. Seria mentira. Veja, meu egoísmo é destrutivo e o seu também será. Não há limites no que podemos fazer. Te criei dessa forma. Porém, olhe só, preciso informar que tudo já está alinhado. O que você sente, infelizmente, será descartado. Mas também não sou nenhum tipo de monstro. Olhe só, não sou nenhum tipo de monstro. Você será minha. É isso que deseja, não é? Será minha e fará exatamente tudo o que puder para continuar sendo minha, não é? Então lhe darei um outro serviço, bem mais perigoso e fundamental. Um trabalho bem maior do que simplesmente ficar numa sala, vendo cada passo daquele que, possivelmente, você mais odeia. Sou sensata, não farei isso – por favor pare de chorar e me olhe –, você será minha, exclusivamente minha mais bela assassina. Sim, farei isso, você será. Vejo que é isso que deseja, não é?

Anne concordava com a cabeça, mesmo não querendo. Na verdade, ela só queria devorar o corpo de Um com sua boca e ter, como a melhor e a maior, uma escrava dentre várias de seu reino mágico e fantasioso. Porém, ela se contentava. Entre lágrimas, seus sonhos nunca se realizariam, ela sabia, havendo apenas o resto. E o resto, ao menos, não era tão intragável quanto tudo que imaginava.

ao menos” Ela ainda pensaria. “ao menos fui consolada em seus braços …

Anne, ainda assim, odiaria. O final, o recurso, o tudo. Não parecia haver sequer uma coisa que lhe auxiliasse no doloroso percurso que era a vida. Certo tipo de maldade ainda a consumia …



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