AVN – Capítulo 28 – Ferrugem!


Era retalhação. Sofia sabia o que aconteceria no futuro, ela previra. Por isso se preparava, com tudo do que melhor tinha. Retalhação era o único negócio possível para se proteger e proteger aquela cujo odiava.

Então Sofia acumulava tudo que podia, desde pistolas mais simples às metralhadoras pesadas. De fora, se fosse investigado, parecia que ela estava formando uma máfia, ou talvez um grupo de mercenários – fora dos distritos, era um negócio lucrativo. Mas não, tudo o que ela fazia era pra se proteger, o que era engraçado, visto que não era ela quem estava sendo caçada.

Nesse seu grupinho, nove pessoas foram contratadas. Soldados de elite, claro, mas ainda pessoas. Muitos deles com vários sentimentos, sejam de desprezo ou de amor às suas almas e suas dádivas na terra.

Entre esses De-K, guerreiro de dois membros biônicos, por exemplo, era um antigo mercenário cuja função era dizimar certas sociedades fora dos distritos. Numa dessas batalhas, De-K dizimaria a sociedade de Nilo, onde também conheceria Stephan, órfão por culpa de De-K. Ódio brotaria naquele pequeno garoto estrangeiro, claro, porém, mesmo assim, os dois viveriam juntos, havendo uma relação – muitos diriam – que se pareceria como o de um pai e filho.

Sofia conheceria De-K na tentativa de assaltar certa carga, quando fazia um bico pra uma empresa privada do subdistrito D. Sabendo que seria mais lucrativo roubar seu próprio fornecedor, ela não hesitava a se juntar com o assaltante, vendo habilidades contundentes tanto em Stephan quanto em De-K nesses tipos de operações. Contratá-los, ela pensaria quando necessário, seria como contratar as duas das pessoas mais habilidosas disponíveis no mercado!

De-K e Stephan, que na época onde seriam contatados, surpreenderia até Sofia, vendo que os dois viviam como caminhoneiros comuns, na principal cidade do subdistrito F, chamada fronteiriça.

Naquela época também, o que é outro bom exemplo, é o fato dela ter se reencontrado com o solitário Bohn e seu cidadão sem alma, Jó, numa pequena choupana na estrada de íons fora dos distritos.

Sobre como eles se conheceram? Sofia o conhecia quando o mesmo era um engravatado de relativo sucesso, vivendo no subdistrito B com sua esposa e filhos. Quando Sofia tentava proteger Hammilton de sua mestra, ela o conheceu, reconhecendo naquele engravatado um homem justo e benévolo, cujo desejava apenas a prosperidade e bem-estar da humanidade. Porém, após a tentativa de defender Hammilton na megatorre 5, toda sua família seria assassinada como aviso, do qual ele nunca poderia entender, sendo: “apenas tampe seus ouvidos!” – dito, aliás, por Jó. Única coisa que haviam lhe restado, no fim, era uma casa em chamas e aquele seu cidadão sem alma. Bohn, desse modo, regrediria ao silêncio e a loucura, indo se encontrar com os assassinos de sua família, conhecido de outro modo apenas como Um. Porém Um não morreria, não só o convencendo de que não tinha nada a ver com a morte de sua família, como também revelando os verdadeiros assassinos, descobrindo que o autor ninguém mais era que seu irmão Isahn, cujo se aproveitava da confusão que se tornava o subdistrito A para tentar alavancar sua carreira política. Mas para matar a família de seu irmão, o motivo era curioso: era a morte dos ideais, descoberto, veja só, por sua filha, Emília, estudante superior naquela época, entendendo-o como um traidor. Porém, sabe-se, traidores podem ser impedidos, onde, tentando contê-lo, sua filha quase lhe contaria, naquele fatídico dia em que Hammilton seria executado ao vivo em todas as telas de cada subdistrito. Pena que, ocupado tentando acusar os juízes de complô com os corruptos que ascendiam, Bohn teria sua família assassinada, antes que vozes chegassem aos seus ouvidos – nas chamas de sua casa –, havendo, no final de tudo aquilo, apenas cinzas.

Já foi dito que ele se convenceria da história de Um, tendo Bohn assassinando seu irmão em seguida – poucos meses após com um plano surgido do interior de suas trevas –, o torturando por sete dias embaixo de uma ponte destruída e abandonada no subdistrito C, vivendo, ao final disso tudo, como um andarilho, junto do seu cidadão sem alma, Jó.

Na história, muito bem conhecida por Sofia, ela o reconhecia como um caçador. Um tipo de pessoa que saberia caçar na espreita e levar suas presas onde desejaria, pois, para conseguir sequestrar um engravatado, natural do subdistrito A, no subdistrito C e o torturar até a morte por sete dias, a pessoa precisaria tanto de paciência, quanto uma grande leva de conhecimentos, que ela sabia ser necessários pra sua empreitada. Por isso o contratara, mesmo com alto preço indigente, sem sequer negociar ou pensar duas vezes.

Ainda sobre outras histórias e outras figuras, caracteristicamente como as de K, estudante expulsa do subdistrito A por baderna, não eram tão requisitadas assim, mesmo que suas habilidades como Hacker fizessem inveja em qualquer cidadão sem alma.

Uma que era boa, e até agradável, no entanto, mesmo que por outras vezes fosse um pouco chato vê-la se gabar, era a de Alissia, antiga contrabandista que tinha um marido e dois filhos vivendo uma boa vida no subdistrito C, com o estilo de vida sendo pago com seu suor nos negócios ilegais de contrabando de alimentos. Ela tinha negócios por toda parte, trampando, vez ou outra, como espiã.

Sofia, por exemplo, a conheceria quando protegia os segredos de produção da empresa de equipamentos eletrônicos chamada Níquel Power, onde, trabalhando como espiã, Alissia quase conseguiria a enganar, com Sofia deixando-a livre apenas por reconhecimento de suas habilidades de se infiltrar e ludibriar, mesmo com grande desejo de matá-la.

As outras três pessoas do grupo, importantes de seu modo, mas que não se destacavam tanto, se chamavam Alex, I.O e Douglas, sendo Alex apenas um soldado comum nascido na cidade de Redneon, e Douglas um antigo detetive – parte da polícia automatizada responsável por investigações complexas – que havia sido hackeado a muito tempo atrás por Um. I.O era uma garota, e ela não parecia querer dizer sua história, mesmo que suas habilidades como assassina surpreendessem muitos do grupo.

Aliás, esse grupo era batizado por Sofia de No-heroes, visto que seu objetivo com ele era apenas por desejos egoístas, onde todos pareciam querer e gostar ficar, tendo feito apenas duas operações de pequena escala, sendo o assassinato e tortura de pequenos comerciantes ilegais que davam as costas ao negócio de Um. Normalmente o grupo trabalharia nas noites embebedadas de névoa e Neon, surgindo entre os prédios de Falls e as ruas de classe média da Giant Tree – as duas maiores do distrito D e C –, indo aos diversos becos e boates, além de passar pelas favelas e os cortiços não distantes, perguntando a prostitutas e traficantes, além de pequenos trombadinhas e drogados.

Na sede, que ficava num anexo nos esgotos da cidade de Redneon, Jó, Douglas e K trabalhavam em recolher informações na GW-0, principal servidor de informações ilegais no planeta marciano. Era chamado também de Gateway 0, visto que todas as informações passariam ali, após serem retransmitidas pelas torres de células e os canais de recepção e emissão, que registrava tudo que era feito na rede, sendo o equipamento mais antigo e necessário para o progresso humano.

No-heroes não seria muito conhecido. Apenas alguns comerciantes saberiam do fato de sua existência, trabalhando na sombra da ilegalidade, em busca de algo nublado no meio daquela escuridão …

Sofia investigava as noites, buscando algo …



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