AVN – Capítulo 24 – O leitor!



Após a falha em moldar seu corpo, Zero acordava numa biblioteca. Ela era fria, com madeira lustrada compondo o seu visual, tendo dois andares e milhares de livros a se consumir. Nesse local, num primeiro momento, ele se encontrava atordoado, acordando lentamente – se vendo babando num enorme livro –, onde percebia seu braço engessado, enquanto seus arredores se levantavam como um mundo novo. A respiração que suspendia ao cheiro de lustra móveis e livros antigos, ilustrava sua admiração e medo, deliciando-se com a rusticidade de um mundo banhado por fatos e fantasia na inexatidão tortuosa que lhe trazia tantas perguntas.

— isso me lembra … — falava, percebendo sua solidão naquele espaço. — quando eu era pequeno.

A mãe de Dois Meia, inicialmente, era uma dona de casa, e seu pai era um caminhoneiro terceirizado, trabalhando para uma empresa chamada GREEN AMB, que sempre dava para seus funcionários pequenos livretos de poesia. As poesias eram de uma publicidade pura, óbvio, mas sendo uma criança, que vivia numa curiosa pobreza, Dois Meia amava aqueles clichês sem sentido e rítmicos, cantarolados por sua boca curiosa e hiperativa, contagiando sua mãe – que vivia num estágio agudo de depressões cíclicas – com sua alegria infanta. Dessa empresa, seu pai também recebia outros livretos além de poesia, sendo de contos, histórias encantadas, de curiosidades ou piadas. Dois Meia amava cada um deles, mas eram as poesias que se tornavam especiais. Elas eram simples e pareciam brincar nas suas composições, o fazendo voar através da métrica boba, pouco ousada, caindo como uma luva na beleza lírica.

— eu acho que tenho que me esquecer … — Zero continuava no vale de suas memórias. — Zero não tem passado, então não merece citar aquele qual não é seu, principalmente porque é falta de respeito citar vidas já perdidas.

No calar de seus pensamentos, ele andava pelos corredores de estantes, tentando se habituar ao local, procurando por algo escondido do qual ditaria tudo. Sua vista, no entanto, não conseguia chegar ao fim destinado, se desviando pelas capas pouco chamativas, lisas, de couro, com os títulos em letras douradas, parecendo te dizer algo de suma importância.

— tudo tem uma realidade objetiva, e é meu dever reconhecê-la, sem deixar-me iludir pelos pareceres. — E Zero, voltando para o local onde acordara, começava a reimaginar toda a cena, azeitando as engrenagens da sua mente para trabalhar num esboço sobre sua função ali. De fato, apenas como Um ele poderia chegar em algum lugar, tentando penetrar aquela personagem através de sua breve experiência com ela.

— Um é uma incógnita … — Dizia. — mas sempre faz o óbvio. Quero dizer, tudo regado por simbolismos estranhos, mas é o óbvio. Ou melhor, o óbvio agora, pois entendo os motivos … ou será que o óbvio apenas se tornou óbvio por que ela me forçou a entender o que eu queria, sobre … tudo?

Num breve segundo, Zero tentou reimaginar a si mesmo, confuso, em meio às paredes brancas, num início conturbado – onde ainda era chamado por um código, cujo qual tentava se esquecer –, tentando lembrar qual pontapé o levava até aquele exato momento.

— eu poderia ter saído, morrido; vivido os últimos minutos na mesma pobreza que havia nascido … — Folheando o livro do qual acordara, Zero finalmente concluía. — mas preferi ficar e lutar, até meus punhos sangrarem. Agora eles se quebram e tudo que me sobra é minha alma.

Na capa daquele livro, estava escrito: “enciclopédia universal” e sua introdução era enorme, pegando cinquenta páginas daquela de quase duas mil, o que poderia ter feito qualquer pré-adolescente normal desistir sem hesitar apenas de vê. Porém, concentrado, ele não conseguia parar de lê. Era estranho aquela introdução, pois, sem muito dizer, te mostrava um novo mundo, que lhe retirava o ar, enquanto suas pernas tremiam de ansiedade. Zero voltava para a capa, mas não via nada, se redirecionando ao final, onde estava escrito: “publicado em 26 de maio de 2008”, o que te fez tremer outra vez. Seus olhos, nervosos, se dirigiram aos arredores, encontrando, na parede no fim de um corredor, um relógio.

Zero se aproximou, vendo o que saía do tique.

— 04/01/03/783 — ele disse, no silêncio; — quarto dia do primeiro mês da terceira estação do ano de setecentos e oitenta e três após a grande queda. Quando eu cheguei aqui, era 782. Acho que posso dizer que esse já é meu primeiro aniversário, heh.

E ele ria depreciativamente, enquanto começava a perceber, com mais medo, até onde ia a extensão dos poderes de Um, já que a mesma conseguia desconsiderar até o próprio tempo, ou, talvez, sua mente. De todas as formas, o fato ainda o assustava muito, mesmo que de certa forma ainda o reconfortasse de algum modo. Era confuso.

— não importa, vamos apenas continuar

Zero outra vez se entregou a leitura daquela enciclopédia, e de muitos outros livros, durante o tempo que não passava, na solidão impenetrável. Nessa solidão, ele reconhecia seu papel, compreendo superficialmente a realidade de sua estada, por isso, se mantinha naquela redoma de conhecimento, sem questionar, ali dentro, a razão de certos fatos. Como por exemplo, ele se lembrava, a razão das palmas no último ato da criação insustentável do molde ao seu corpo frágil. Se ele soubesse o que representava, poderia dizer melhor qual era a relação de tudo aquilo, porém, estando sob o silêncio, Zero apenas poderia se reduzir ao seu tolo achismo.

— não posso decepcioná-la … — Dizia-se entre as leituras. — tenho a crença de que estou conseguindo algo aqui, então, não posso decepcioná-la!

Passando por diversos dias e semanas, as crenças de Zero se tornavam mais fortes, tendo suas refeições te aparecendo como mágica e novas roupas contemplando nos cantos dos corredores abandonados. Na segunda semana, também, Zero acabava descobrindo uma passagem escondida ao retirar um livro, perto de uma sessão que dizia-se ser de literatura portuguesa. Essa passagem o levava a um cubículo com chuveiro, onde ele passava a se banhar nas folgas das suas leituras. Curioso, mas Zero não tinha interesse em trapacear o possível jogo de Um, se mantendo a lê, livro por livro, dia por dia, com as semanas passando como água, o aproximando, talvez, de mundos do qual ele nunca pensou que poderia vê em sua vida.



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