AVN – Capítulo 23 – O doloroso molde para o corpo [fragmento 10]!



Abrindo seus olhos em cima duma pedra, Zero sentia suas mãos. Vendo-as rígidas, um pouco machucadas, mas extremamente moldadas, ele tomava uma estranha emoção, da qual bem entendia.

Quanto tempo estou aqui? — Dizia, na luz de seus olhos; — Acho que já tentei pensar sobre isso, sem resposta. Mas o que há? Não entendo ao certo … todas as luzes em cima de minha cabeça são constantes, o que me faz sentir como se não houvessem pausas entre as revelações que me sequestram, o que desgasta.

A muito, Zero se encontrou com Franker Médsci num sonho e lá ele viu o que queria: um soco que destruiria o que quisesse, externamente e internamente. Porém para um todo sempre haveria complexidades; estas que nos impedem de ter as coisas de imediato. Logo, por tal, ele precisou passar algum tempo desvendando algumas coisas práticas, certas coisas teóricas, além de rasgar o próprio corpo numa escuridão inexata. Quantas vezes ele não torceu o pulso? Não esfolou os dedos? Não deitou sangrando na grama sintética? Todavia, quando tudo passava, quando sua mão parava de doer, quando dos milhares de socos todo o seu ser já desvendava; o que poderia ser sentido além da felicidade? De certo, Zero batalhara até aquele ponto, embora que caminhando o percurso não parecesse levar a qualquer lugar. No entanto, tudo aparentava já está no ponto de eclosão após toda aquela passagem, fazendo-o pensar: ‘O que me restaria?’

Zero abria seus olhos em cima duma pedra, onde via seus punhos, seu corpo e, ainda por cima, a alma; a alma desolada e espatifada, da qual tanto meditara, chegando no exato momento onde todas as coisas mudariam.

Quanto tempo estou aqui? — outra vez se perguntava, na luz da realidade. — Acho que não faz sentido indagar essa questão, já que o tempo não importa após tudo já ter passado.

E chegava a hora, onde se levantava daquela pedra, caminhando pelas águas, se encontrando outra vez com a madeira fincada ao solo. Olhando para o céu, reproduzido num enorme telão, ele sentia as coisas plásticas e cancerígenas ao seu redor, mastigando em voz alta o próprio orgulho enquanto aproximava o seu punho para perto da tora. Estava apenas a alguns centímetros e o corpo se via absolutamente relaxado naquela posição ereta e informal. Mas como poderia alguma coisa surgir de lá? Pensavam as câmeras que observavam-no, pensavam os peixes que cochilavam ali.

No entanto, observe, torcendo seus pés ao solo, assim como impulsionando-os com os joelhos dobrados sincronizados com o ombro no qual se movimentava e seu braço esquerdo qual levantava num giro, junto do punho direito se afastando qual impulsionava o outro a se chocar, o pequeno relevo, que existe por cima do dedo indicador, repleto de tantas energias em contato com a tora, misturava tudo numa pequena bolha, na qual penetrava e penetrava, até se dispersar completamente em divergências, tornando a tora a se esmagar, criando uma cicatriz em espiral junto da serragem e farpas que voavam e se espalhavam pelo ar! Um estrondo ensurdecedor ressoava com o ar turbulento que fazia a harmonia degradar ao caos inevitável. Sua voz ecoava:

Isso… — Mas o seu ser calado estava. A visão da tora que não se partia gritava, com todo o seu braço se torcendo e seu punho quebrando em pedaços; com os tendões se embaralhando entre os músculos e os ossos, abrindo-se dolorosamente, de forma igual ao seu braço que se desencaixava de seu ombro; onde seu espírito partia, caindo de joelhos, sem energia, sem amor, sem vontade … onde apenas a dor, a eterna dor do doloroso molde para o corpo, existia …

Isso…

E todos os seus fragmentos, do que adiantaram? Ele pensava; Se caído sob o solo, com o braço destruído, o nosso protagonista apenas via a feiura da vida.

Outra vez … — E gritaria naquele estado! — Outra vez falhei. Todo o trabalho nesse tempo passado não adiantaram de nada, tornando a última parte apenas em ódio e desprezo, enquanto minha vida se repete na mesma trama clichê… em que eu morria.

Naquele cenário, móveis automatizados entravam junto de pessoas trajadas de sorrisos, dizendo, inaudível, enquanto a visão turva iluminava as frases que se transmutavam em:

Você conseguiu, parabéns!

Não era compreensível, mas como a última coisa escutada, as palavras ecoavam terrivelmente, tornando a escuridão que jaz por trás das pálpebras num pesadelo que se conectava a um apelo irritante, que amordaçava a alma.

Você conseguiu, parabéns!

Mas o que conseguia, no fim, além da dor que destruiu o próprio corpo; além da decepção rotineira e o vazio total? Certas perguntas não podiam ser respondidas dentro do sono, retomando apenas uma vaga lembrança, como um vaga-lume nas noites de lua nova, ou as estrelas pendidas em postes, que tendem a iluminar as ruas das cidades cinzentas e enevoadas.

Pelo menos’ Uma última palavra a quem desaparecia no vale das mágoas; ‘eu te feri, nêmesis. Orgulhoso?’ Enquanto a mesma frase se repetia naquele instante:

Você conseguiu, parabéns!

As luzes se apagavam e o palco se desmontava …



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