AVN – Capítulo 22 – O doloroso molde para o corpo [fragmento 9]!



Entrando num enorme quarto, com luzes que a iluminavam de modo a estontear, Anne observava o ambiente, admirando desde as fontes minimalistas colocadas de canto até o gabinete feito em plástico e vidro, onde Um se escondia, com os olhos vidrados para as telas reveladoras voando num espaço tão cinza. Suas mãos dançavam como numa sinfonia.

Anne, venha cá ver isso! — E ela mostrava-se frenética, dizendo; — Veja como a humanidade luta e se surpreenda!

Anne olhava às telas onde um espaço verde se via, com Zero se banhando nas águas gélidas da lagoinha artificial, com peixes clonados devorando a pele morta de seu corpo, assim como o enegrecido sangue de suas mãos destruídas.

Você não acreditaria no que eu vi, porém vai ter que acreditar no que verá!

Anne estava atordoada com a imagem, mas não pelo fato dela ser impressionante. Todo o entusiasmo de sua dama não parecia ser explicado pelo que se via, por isso ela tentava observar com cuidado.

Anne, veja bem, se acontecer o que eu acho que vai acontecer, o mundo mudará, em breve! Você verá.

As palavras de Um, por mais confusas que fossem, ainda causavam algum ciúme. Ela nunca vira sua senhora de tal forma, toda eufórica, olhando para os quadros que se movimentavam. Na verdade, muitos poucos sentimentos já foram vistos naquele belo rosto, fazendo Anne repensar sobre toda a vida que ela havia passado, num breve minuto de desconcentração.

Minha querida, não fique em pé aí. Peça uma cadeira e se sente ao meu lado. Vou te ensinar algumas coisas bem pertinentes sobre o mundo.

Anne apertava o botão na parte lateral do aparelho de hologramas, tendo em seguida uma cadeira automatizada ao seu lado, servindo-a como assento, enquanto tinha as mãos agarradas por Um, da qual tremia de uma forma bem inapropriada. Sua voz dizia, enquanto começava acariciar os cabelos de Anne de forma matriarcal. E aquela voz era íntima, não fugindo de seus ouvidos:

Anne, vou te contar um pouco sobre Franker Médsci, venha cá, nos meus braços… você está fria, bem fria, querida … veja, Franker Médsci, minha jovem, foi, antes de tudo, o maior cientista de toda a história humana. Embora o motivo para tal tenha sido sua vitalidade elevada, Franker foi muito importante para a história humana, principalmente por ter participado das três maiores revoluções científicas entre os séculos marcianos VI e VIII, criando os fatores que nos levam a estar aqui hoje. Eles são o espaço vazio, as pilhas de plutônio e, principalmente, o pulso de ação.

Anne, que estava entre o calor dos braços da exaltada Um, escutava cada palavra com bastante atenção. Sua mestra era uma pessoa ausente, de certo, que negligenciava bastante seus discípulos com os fatos necessários, pondo-os ao mundo sem nada além deles mesmo para avançar. Sendo assim, a voz quase que dançava em seus ouvidos, brincando e brincando.

Um continuava: — Anne, o espaço vazio é um pequeno chip que é posto em algumas pessoas, sendo na verdade exclusivo a casualidade. Esse chip permite que os seres humanos controlem seus corpos livremente, da forma que deus nos impede, alterando e não alterando as diversas células de nossos corpos. Você tem isso, aquele menino na tela também o tem, o problema desse espaço é que, bem, não é fácil de controlá-lo, já que no fim a liberdade é algo que se conquista, o que bem sabe.

Anne observava a tela que projetava a cena com uma respiração bem pesada. Ela não sabia o que era o espaço vazio, mas tinha alguma consciência de uma existência do tipo, tornando-a a tocar em sua própria cabeça enquanto imaginava o mundo de cores do microchip.

O espaço vazio, quando bem controlado, é capaz de fazer coisas irreais, como aumentar a vitalidade e a força física, atenuar a dor, e, em casos bem específicos, consegue nos libertar do plano físico, com algo chamado condição esper.

Anne segurava a respiração, enquanto a imagem tão monótona mudava, repentinamente, de um homem meditando em lugar nenhum, para um homem abrindo seus olhos em meio a falsidade prática. Ela não entendia o porquê, mas aquela imagem tinha um impacto maçante, como se o clima calmo fosse invadido por uma tempestade.

Eu sei como você se sente, querendo respostas para tantas perguntas que apenas caem em nossa frente. Pena que tenho poucas palavras para dizer, sendo apenas esta: um ser sempre muda quando descobre como mudar… ou melhor, um ser sempre muda quando descobre que pode mudar. Essa é uma regra da vida, no entanto, esse menino não parece querer segui-la. Por isso, ele continua aí, lutando contra sua própria realidade. Não é bonito?

Anne não entendia, porém a cena mostrava algumas revelações fantásticas, que a fazia arregalar os seus olhos, junto com a pulsação que aumentava em suas veias e os batimentos que se desregulavam. Vendo a imagem em sua frente, agarrada a Um que tinha um enorme sorriso no rosto, Anne sentiu ciúmes, se viu impressionada, e ainda por cima teve um colapso de felicidades. Três sentimentos distintos numa mesma tigela, que reduziam a moça a um estado de ansiedade e nervoso enquanto o nosso protagonista atingia um novo ápice! Ápice este que não cabe descrever aqui…



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