AVN – Capítulo 2 – O sonho!



O jovem, de número 267.432.157, era um órfão apelidado de Dois Meia que vivia num orfanato para menores da quinta rua do obscuro bairro de Blacklight, da cidade de Redneon, subdistrito F. Ele dormia num quarto junto com outras 27 crianças de várias idades e tamanhos.

Lá, as noites eram particulares, de meninos fugindo de suas camas com meninas, de gangues se encontrando em ruas escuras e desérticas ou apenas de eternos fugitivos mesmos – desses revoltados da vida em sociedade ou dos curiosos pra ver o mundo lá fora. Mas, infelizmente, não é sobre disso que tratamos aqui …

Dois Meia, protagonista, era um solitário. Percebendo e escutando os sussurros daqueles que fugiam, ele invejaria, ou pior, se lamentaria. Na escuridão das noites de sua pobre vida, era assim que se resumia, onde apenas a solidão restaria no seu âmago, percebendo não haver quaisquer lugares pra ti naquele pequeno e frágil mundo onde existia. E era assim também que se tomava a vida de nosso protagonista – na inveja, na solidão e no lamentar. No entanto, naquela curiosa noite, após um curioso dia, ele não se importaria ou invejaria no fim – pelo menos não naquela noite. Diferente das outras crianças, Dois Meia dormia direto, como um jovem mais crescido e cansado. Seu dia havia sido desgastante e seu corpo rogava por uma cama quente e macia para dormir e sonhar. Claro, as camas do orfanato eram duras e frias, como uma rocha, porém, ele poderia mentir um pouco para si mesmo. Se não mentisse, talvez fizesse como tantos estudantes que viviam nas cabines de aluguéis da sexta rua, e atirasse em sua têmpora com um revólver de pistões magnéticos, mas também não é sobre isso que tratamos aqui …

Dois Meia se deitava, e antes de poder reclamar da qualidade das camas ou de entrar em algum pensamento bizarro, adormecia. Sua visão escurecia, seu corpo relaxava e sua alma suspendia. Mas antes do amanhecer, quando acordaria reclamando da dor nas costas, causada pela cama de péssima qualidade, Dois Meia sentia o cheiro das lavandas surreais que te apareciam num mundo de sonhos criado por uma mente entorpecida, de angustia e pesares.

Olá! — Nela um velho novo, de túnica branca, barba limpa e nenhum buraco no peito te aparecia, sentado numa cadeira de palha, carregando consigo um enorme sorriso, onde dizia: você deve está confuso, meu jovem, mas não se preocupe, tudo é respondido com o tempo, principalmente se souber fazer as perguntas certas.

Dois Meia olhava para o velho, aturdido e admirado. Os sentimentos de perda que imperavam na sua mente minutos antes eram lavados para longe com aquela presença. Por um momento, ele até esboçava um sorriso, mesmo que suspirasse em seguida. Uma ilusão, ele entendia, não valendo a pena cultuar de nenhum modo; contendo os falsos sentimentos construídos por sua mente, cuja desejava abrigo, logo em seguida.

Mas o que você poderá responder? — Após breve pausa, Dois Meia respondia, desanimado. A verdade era que ele estava cansado … Você é apenas a sombra de uma tristeza incompreensível … apenas mais um morto em minha vida.

O velho, um pouco surpreso com as palavras, olhava para as paredes do sonho, também para as lavandas surreais, voltando seus olhos pro garoto.

Fale coisas com sentido, seu fodido! — Seu sorriso dançava pela sala …

Como? — Dois Meia, outra vez atordoado, via-o continuar:

Você é um verme chorão que fala coisas sem pé e nem cabeça; chorando para um velho aleatório que morreu num beco escuro! Ha, veja o lugar onde você vive moleque, é a porra duma latrina a céu aberto. Um esgoto transbordando merda e você aí se preocupando com um ninguém! Acorda, porra!

Queixos caíam. Se fizesse parte de sua cabeça, Dois Meia pensaria, então o velho estaria na pior parte – No lado mais obscuro dela, pra ser exato, onde estavam suas revoltas.

Então eu deveria ter deixado você morrer? — Reconhecendo, dizia …

Bem … possivelmente! Assim haveria apenas uma pessoa morta!

Com a resposta o relembrando do ocorrido no beco – com a memória bem viva ainda em sua cabeça –, ele se recordava de um importante detalhe, que só naquele minuto resgatava.

E por que estou morto agora? — A frase dita no beco, isso era algo que lhe vinha, causando uma dúvida maçante em sua têmpora. O velho, no entanto, pouco parecendo se importar de responder, apenas respondia:

Essa pergunta é muito simples, porém você não vai conseguir compreender ela até perguntar a primeira coisa que dois diferentes fazem em seu primeiro encontro! — Seu sorriso era contagiante, deixando Dois Meia curioso com a questão. Ele perguntaria:

E o que seria?

E o velho responderia:

só pergunta a porra do meu nome, maldito.

— … — O silêncio que proferia uma mente desnorteada …

É uma questão de educação garoto, você deve entender, né? — Todas as respostas que se seguiam!

E qual é? — Enfim a pergunta que deveria …

Franker Médzsci! — Respondia. — Criador do estilo materialista, você já deve ter ouvido falar de mim!

É… — A ignorância de um órfão abandonado.

Sério? Que ignorante! Mas bem, não me importo. Sou um famoso lutador marcial e é isso que deve saber …

Se você é alguém tão importante assim, por que morreu? — A audácia dos humilhados.

Língua afiada menino, mas que seja, vou te responder: Não morri, me assassinaram! — E a resposta final de quem se explicava.

Olhos que tentavam acompanhar todo aquele absurdo, riam. Sua mente produzia uma história fantástica e estranha, sendo quase um devaneio hilariante cujo significado se igualava a zero. Dois Meia entendia. Mas ali também, o velho reparava, sorrindo e respondendo, no seu discurso final e mais contundente:

Você ainda acha isso impossível? Um morto aparecer em sua mente? Sério, de todas as coisas, logo isso? — Tremendo com a declaração, Dois Meia desviava seus olhos … — Você vive numa sociedade que te dá números como nome, que te diz que você é inferior por nascer num subdistrito periférico e que te trata como um escravo, cuja única ambição é para com os objetivos de pessoas que cospem em você lá de cima! Você não deveria é acreditar nesse seu estado de vida, isso sim!

Cala a porra da boca! — … E também se irritava. Você é apenas um traço de uma pessoa que passou rapidamente pela minha vida! Você não existe!

A revolta da discussão que aflorava …

Realmente não existo! — … E a voz cálida de quem não hesitava. — O que eu sou agora? Sou a essência do meu corpo original! Um rastro de minha existência! A única coisa que eu era antes de está aqui! E você, garoto, é o meu herdeiro, a pessoa que manterá a minha essência viva! Então, querendo ou não, é obrigação sua, e foda-se o resto, só me escute …

Boom! O mundo idílico despedaçava – lavandas morrendo e alguém desaparecendo na poeira dourada de uma escuridão que se alastrava.

Merda, parece que você terá que me engolir outro dia! Moleque, tente apenas não dormir tão cedo, por favor! Adeus!

O fio de luz final, perfurando a poeira negra do quarto. Sentindo as famigeradas dores nas costas que o aportunava toda manhã, Dois Meia se levantava. Diversas crianças o acompanhava, bocejando, e freiras como pinguins invadiam o quarto, onde acordariam todos aqueles indispostos para despertarem sozinhos.

Bocejando e esfregando seus olhos, ele finalmente despertava, correndo em seguida na direção da sua ordinária vida diária – triste e tão sem graça!



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