AVN – Capítulo 2 – O sonho!



Iria pro seu orfanato, a roupa um pouco suja de sangue, não que importasse. Já estava de noite, nem todos estavam dormindo, mas ia no silêncio, se deitava e relembrava de cada coisa sobre si mesmo. Seu nome era uma combinação de números, sendo 267.432.157, um órfão apelidado de Dois Meia, que vivia no orfanato para menores da quinta rua do obscuro bairro de Blacklight, cidade de Redneon, subdistrito F.

Era estranho, normalmente tentava se esquecer das noites – tão particulares , onde meninos e meninas fugiriam de suas camas, das gangues se encontrando nas ruas escuras desertas, além dos eternos fugitivos.

Dois Meia, protagonista, era um solitário. Percebendo e escutando os sussurros daqueles que fugiam, normalmente invejaria, ou pior, se lamentaria. Na escuridão das noites, era assim, na solidão, percebendo não haver quaisquer lugares pra ti naquele pequeno e frágil mundo.

Ficava apenas na inveja e no lamentar então, na maior parte da sua existência, menos, claro, naquela curiosa noite, após aquele curioso encontro, indo dormir direto, como um adulto crescido e puto com a vida.

Seu dia havia sido desgastante, do seu corpo rogando por uma cama quente e macia para dormir e sonhar, por mais que lá pelo orfanato elas fossem duras e frias, como rochas, porém daria para mentir um pouco. Se não mentisse, talvez fizesse como tantos estudantes que viviam nas cabines de aluguéis da sexta rua, e atirasse na própria cabeça com um daqueles revólveres de pistões magnéticos. Não era bem isso que queria.

Dois Meia se deitaria, e antes de poder reclamar da qualidade das camas ou de entrar em algum outro pensamento bizarro, adormecia, da sua visão escurecendo, seu corpo relaxando e sua alma suspendida. Mas antes do amanhecer, quando acordaria reclamando da dor nas costas, causada pela cama de péssima qualidade, ele sentiria o cheiro das lavandas surreais que te apareciam num mundo de sonhos.

Olá! Nela um velho novo, de túnica branca, barba limpa e nenhum buraco no peito te aparecia, sentado numa cadeira de palha, carregando consigo um enorme sorriso, onde dizia: você deve estar confuso, mas fica tranquilo: tudo é respondido com o tempo, principalmente se souber fazer as perguntas certas.

Dois Meia olhava para ele, um pouco atordoado. Os sentimentos de perda que ainda imperavam na sua mente minutos antes eram lavados para longe. Por um momento, ele até esboçava um sorriso, mesmo que suspirasse em seguida. Uma ilusão, meio que entendia, não valendo a pena cultuar de nenhum modo.

Mas o que vai me responder? — Estava cansado, muito cansado mesmo … Sei que não vale de nada.

O velho ficaria surpreso, olhando para ele, para as coisas ao seu redor, tentando segurar algo de si.

Diria: — Fale coisas com sentido, seu fodido! E Dois Meia ficaria lá, sem saber o que dizer. — Deixa de ser um arrombado que só sabe ficar falando merda. Seus lábios apenas tremiam. Veja o lugar onde você vive, é a porra duma latrina a céu aberto! Um esgoto transbordando merda e você aí se preocupando com um ninguém! Acorda, porra. Sinceramente nem acredito que tenho que te ficar falando essas coisas!

Se fizesse parte de sua cabeça, pensaria, então o velho estaria na pior parte, no lado mais obscuro dela, pra ser exato, onde estavam suas revoltas e o ódio.

— Não te entendo … tá me dizendo que eu deveria ter deixado você morrer? — Perguntasse …

— Bem … possivelmente! Assim eu não teria que me preocupar com outra pessoa morta …

Relembrava do ocorrido no beco – um pouco mais obsessivo, com a memória bem viva ainda em sua cabeça –, recordando de um importante detalhe, que só naquele minuto resgatava.

E por que estou morto agora? Olhava para o velho com sinceridade, como se realmente acreditasse nele naquele pequeno fragmento.

Essa pergunta é muito simples … E o sorriso era contagiante. porém você não vai conseguir compreender ela até perguntar a primeira coisa que dois diferentes fazem em seu primeiro encontro!

Perguntava: E o que seria?

só pergunta a porra do meu nome, maldito. O silêncio que proferia uma mente desnorteada. Ficava totalmente sem chão, observando. Parecia uma piada. É uma questão de educação garoto, você deve entender, né?

E qual seria?

Franker Médzsci! — Respondia. — Criador do estilo materialista. Você já deve ter ouvido falar de mim!

— Não tenho certeza disso …

— Sério? Que idiota! Mas bem, não me importo. Sou uma pessoa famosa e é isso que deve saber …

Olhava pro velho, tentava esboçar alguma coisa.

— Se você é alguém tão importante assim, por que morreu?

— Aí é foda, mas que seja, vou te responder: Não morri, me mataram!

Olhos tentariam acompanhar, sem sucesso. Sua mente produzia uma história fantástica, sendo quase um devaneio hilariante cujo significado se igualava a zero, Dois Meia entendia. Mas ali também, o velho reparava, desmanchando seu sorriso, querendo dizer algumas palavras.

Diria: — Você realmente acha isso impossível? Se ajeitando na cadeira de palha. A porra dum cara morto aparecer por aí na sua cabeça? Sério, de todas as coisas, logo isso? Você vive numa sociedade que te dá números como nome, que te diz que você é inferior por nascer num subdistrito periférico e que te trata como um escravo, cuja única ambição é para com os objetivos de pessoas que cospem em você lá de cima! Você não deveria é acreditar nesse seu estado de vida, isso sim!

Era verdade, talvez, sabia, mas foda-se, não queria ninguém te cagando regra. Se fosse, que fosse, não faria diferença. Outra verdade era que se irritava

— Cala a porra da boca! — Então gritava, mesmo que parecesse idiota. Você é apenas um traço de uma pessoa que passou rapidamente pela minha vida! Você não existe!

A revolta se aflorava … talvez fosse isso que queria.

Realmente não existo! — Uma voz cálida de quem não hesitava. — O que eu sou agora? Sou a essência do meu corpo original! Um rastro de minha existência! A única coisa que eu era antes de estar aqui! E você, garoto, é a porra do meu herdeiro, a pessoa que manterá alguma parte de mim viva! — E alguma coisa de raiva. — Então, querendo ou não, é obrigação sua, e foda-se o resto, só me escute … Boom! O mundo idílico despedaçava, das lavandas morrendo e alguém desaparecendo como poeira dourada de uma escuridão que se alastrava. Merda, vamos ter que deixar para outro dia! Apenas tente não dormir tão cedo.

O fio de luz final perfurando a poeira negra do quarto. Sentiria as famigeradas dores nas costas que o aportunava toda manhã, o gosto amargo de sangue na boca, e os olhos pesados. Diversas crianças o acompanhava, bocejando, e freiras como pinguins invadiam o quarto, onde acordavam todos aqueles indispostos de acordarem só.

Esfregando seus olhos, ele finalmente despertava, como se não houvesse uma coisa a mais. Crianças de lado te viam, parecendo estarem com raiva, doutras nem mesmo te dizendo bom dia. Realmente, ainda estava cansado.



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