AVN – Capítulo 19 – O doloroso molde para o corpo [fragmento 6]!



E ali, naquele ambiente, Zero se alongava, se contorcia, colocava seus membros em posições impossíveis, ao mesmo tempo em que corria, fazia flexões, exercitava-se.

As horas, os dias, as semanas, se passavam nessa forma, de suas refeições ficando maiores, a suprir a energia gasta e as proteínas necessárias para que o corpo se tornasse cada vez mais forte. Zero, em pouco tempo, se tornou um trapo de mão inchada e corpo destruído, sem compreender sequer o próprio erro; sem saber onde estava a falha de seus treinos. A decepção vinha como remédio, anestesiando sua ansiedade destruída, que se tornava, a cada desmaio rotineiro, num sonho, tão distante, que nem mais parecia ser capaz de se tornar realidade.

O que eu faço aqui? — Ele passava a se perguntar tão frequentemente. — Só perco, toda hora. Queria ganhar, mais não entendo como se faz uma vitória. Sendo assim, como posso?

Zero olhava para a madeira, toda hora, cada minuto. A visão, já carmesim, daquela tora manchada com o seu sangue, fazia o seu ser gritar, com um ódio irracional, cujo parecia fazê-lo desmanchar.

O que eu faço? Será que… será que, o que faço!

Era um dia, como todos os outros – já que naquele ambiente a tela que fazia surgir o céu azul sobre a sua cabeça nunca se transmutava numa noite bela, para o descanso –, quando nosso protagonista, com todo o seu corpo, começou a golpear a tora, dando cotoveladas, pontapés, e até cabeçadas. Mesmo que não viesse nada disso, ele sentia ser necessário, já que o seu corpo se coçava, da pior forma possível, para destruir o tão odiável nêmesis que se mostrava sem pudor na sua frente.

Todos os meus membros… não só punhos. Uma luta não é apenas punhos, uma luta é tudo… porém, para tudo, não há apenas um, sendo, em verdade, vários!

Naquele dia, se pudesse dizer assim, Zero socou, chutou, arranhou, mordeu! E, por mais que não encontrasse uma resposta, ainda assim sentia uma grande felicidade, pois, de alguma forma, via um caminho e ele era tão claro como o dia.

Se bem que… acho que alguém já me avisou sobre isso…

Ainda no mesmo sol, Zero desmaiara com um sorriso no rosto, sob aquela grama ensanguentada pelo misto de seu sangue novo com o velho, corrompido pelo tempo.


Zero?

No meio do ambiente, próximo a um corpo desmaiado, Anne aparecia, vestida com um vestidinho verde-piscina e sandálias de plástico azul, junto de um chapéu de praia, com uma fita azul, que mostrava uma beleza bem particular a visão embaçada de quem abria seus olhos.

Quem é? — E ele sentia uma dor, qual o fazia incapaz de reconhecer qualquer um a dois palmos de distância, tornando-o cego das coisas ao seu redor, da realidade que o possuía.

Sou eu, Anne… veja! — A menina tentava colocar um sorriso em seu rosto, por mais que estivesse um pouco constrangida. Desde aquele santo dia, na sua santa luta, onde sua pessoa perdia a linha, permitindo-se uma raiva sem tamanho, Anne se sentia constrangida, mais do que deveria, pois quase matara um numerado, que, aliás, nem treinamento tinha. Como ela poderia dar as caras em qualquer lugar? Ou melhor, como ela poderia se mostrar em frente aquele que quase matara? Vergonhoso, de fato. Todavia, ela estava ali, por algum motivo, e carregava, junto, um sorriso do qual costumamos duvidar, por mais que tivesse algum traço de sinceridade pecaminosa.

O que faz aqui? — Perguntava após ponderar; depois de um tempo admirando aquele rosto. Por algum motivo ela parecia bem mais bela naquele momento tenso, repleto de dúvidas.

Venho acompanhando seu treinamento e… Bem… É curioso. Você é bem focado em destruir isso com o seu corpo, não entendo o motivo. Os dias vão se passando e você não se abala. O que há com isso?

Desprevenido, ele apenas abria sua boca, um pouco exausto, a fechando em seguida, sem dizer nada de fato. Ele pensava em algo, mas era algo que já o afligia: e se ele cavasse e derrubasse a tora? O objetivo não era destruir a tora de madeira fincada ao chão? E se ele, em vez de destruir, não transformasse? Na verdade havia outra questão por trás disso: qual a real diferença de destruir e transformar? Se destruir é reduzir algo, então se ele retirasse apenas uma lasca, já teria destruído ela a tempo. Porém não era bem isso… pelo menos não parecia certo ao nosso protagonista. Então ele pensou: ‘E se destruir não for tornar o útil em inútil?’ Ele então iniciou o seu treinamento, a partir desse simples questionamento, onde ele aprenderia tudo o que se pode com a madeira, até não poder mais. Porém, todos esses atos não pareciam ser bem explicados na sua literalidade, preferindo dizer:

As coisas passam, mas a sede nunca é saciada e a fome nunca acaba. Acho que isso que é treinar, aprender sem nunca terminar, até morrer triste por não ter todas as respostas para tudo que se vive…

E ela se impressionava, inerte, sem saber o que responder. A resposta estava errada, ela sabia, mas a criatividade merecia ser louvada, mesmo que do seu sorriso otimista fosse óbvio suas intenções, enquanto dizia:

Entendo… Acho que entendo… Se é dessa forma, tudo bem. Desde que você esteja feliz…

Aquelas palavras também eram um tanto sarcásticas, como pra se alertar o jovem filósofo, qual via no mundo material algo de tangível. Ela pensava:

Essa é a vida Zero’, Finalizando… ‘Ou melhor, velho Dois Meia!’

Porém da voz que saía de Zero, algumas surpresas ainda vinham dilacerantes, fazendo a mente daquela, tão cética, queimar, como poderia, escutando:

Sei que posso estar errado, mas tenho certeza que, se eu não destruir essa tora com as minhas próprias mãos, perderei uma das coisas mais importantes dessa jornada. Por isso, peça para sua dama se acalmar. Além de que, seus olhos gentis também não me enganam.

Então, ao fim da frase, apenas o enrubescer de uma raiva irreprimível caía, tomando Anne, subitamente, a sufocar nosso protagonista com suas mãos caleadas, enquanto o mesmo não se debatia, apenas rindo, numa lição valiosa; onde seus olhos vazios a encaravam. Anne respondia, tomada por cólera:

Glorifique os esforços dos outros, caso senão, morrerá com duas balas na cabeça!

Derrubando-o, em seguida. Saindo, sua fúria ressoava pelos corredores, enquanto Zero apenas ria, em seu desconforto.



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