AVN – Capítulo 16 – O doloroso molde para o corpo [Parte 3]



Zero, repentinamente, acordava em sua cama, atordoado, como se devesse está noutro lugar. Era estranho, ele ponderava num curto momento, porém não importava, jogando-se aos travesseiros macios novamente, enquanto deslumbrava, cena por cena, daquele corpo entropico que ainda pairava, o levando a volúpia inevitável de sua jovialidade. Sua face até corava, no entanto, um pensamento furtivo o interceptava e esse era o mesmo que o invadira naquele momento tão decisivo, em que os toques gentis o fazia desmaiar num prazer assertivo.

Uma casca, como um dia fui … — Na fala do silêncio, seus olhos saíam dos lençóis de cetim, indo em direção ao horizonte cinzento daquele teto, parecendo perder seu ar na pequena ravina que se instaurava.

E nessa ravina, ele passava a contemplar suas memórias, especificamente de seus dias naquela fábrica, revendo todas as imagens pertinentes à sua condição de miséria. Detestável, ele se lembrava: os gritos de sussurros ecoando pela estrutura maravilhada por corredores iluminados no mesmo tom verde de uma neutralidade sufocante; das salas frias e distantes, e das pessoas como neurônios, onde suas sinapses bloqueadas causavam uma morte prematura e esquecível no infinitesimal mar que era RedNeon.

Lá, também se lembrava das drogas ilegais tão danosas – a causa de cada bloqueio –, qual todos próximo de ti guardavam e cultuavam como se fosse o último feixe de luz numa escuridão desértica.

E seu nome era SNC-Down, ou só D-SNC, de fama qual sua viagem era como morrer e flutuar pelo espaço, como um astronauta em órbita. Não tinha certeza ao certo se era ou não, porém se lembrava. Havia recusado tantas vezes que naquele momento era impossível não relembrar, tendo nesse fragmento uma particularidade curiosa, que normalmente só temos por certos objetos específicos quais nos causam a estranha antípoda do medo e a curiosidade; onde o temor da consequência colide na imagem do desejado, o fazendo ancorar num lago onde o passado era reaberto em milhares de possibilidades não sucedidas, já impossíveis, onde em pouco seriam esquecidas nas suas entranhas programadas.

Vejo que está acordado… — Na solidão de seus pensamentos, Um falava. — Ótimo! Você dormiu tanto que até pensei que fugiria da aulinha que preparei hoje nessa noite tão especial reservada a ti.

A visão pousava em quem adentrava, percebendo sua face de um semblante saturadamente vívido dum sorriso curioso. Todos os sentimentos, pensamentos, deslizavam fora, observando, onde se respondia: — Isso é bom …

Concordo! — A outra verdade, ainda dentro de sua percepção, era que ele reconhecia aquele sorriso – havia visto tantas vezes, que seria estranho não reconhecer; sorriso daqueles que crianças muitas vezes têm ao pôr seus brinquedos no centro imaterial de suas ideias mais insanas. Ela continuava: — o que te ensinarei agora é a base para tudo o que você fará daqui em diante.

Seus olhos brilhavam na escuridão pálida que fazia surgir entre a luz figurante, os tons infinitos de um cinza abstrato. As mãos estáticas se tocavam, suando – empolgadas.

Bem … — Sua voz perfurava. — o punho da realidade é uma ideia, antes de qualquer coisa. Entende o que é uma ideia?

Hipnotizado com a introdução extravagante, tentava responder: — Ideia é o que se planeja fazer?

O olhar hipnotizante, dum certo dever inerente ao seu resgate, aplaudia! Via na iniciativa algo bom, sendo quase válida no que respondia, contendo alguma criatividade de condução sensata, por mais que no fim estivesse errada.

Quase… — Seus lábios vermelhos continham os traços de um sorriso distorcido, observando na totalidade, a forma como lhe viam. — Ideia é a imagem, seja de algo superior, inferior, ou o mesmo. Ideia é algo que se projeta na nossa mente, e se ela vai se realizar ou não, bem, é irrelevante. Muitas vezes uma ideia se paralisa como imagem, sem que o homem necessariamente a reproduza. De vez em quando vivemos numa ideia já imaginada a tantos anos no passado, que chega até ser irônico.

Então o punho também é isso… uma imagem?

Sim, ela não existe, porém existe, o que é engraçado… — Um tom de melancolia era notado. — A imagem do que deve ser muitas vezes flutua na minha cabeça, para ser sincera, porém tudo o que tenho é uma cópia de algo perfeito.

Ainda notando, ele também via nos seus olhos a impotência, o tempo perdido, a incapacidade, como se em autopiedade uma toxina lentamente a torturasse.

A ideia básica desse punho, explico para você: é agir sem trabalho, espalhar pelos átomos a capacidade de destruir uma montanha. Um punho que altera tudo que toca, ao mesmo tempo que não toca nada. — Por um lapso de minuto, via, tudo o que era necessário vê. — Então, agora que você consegue visualizar a ideia, penso que podemos iniciar a segunda parte do seu treino…



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