AVN – Capítulo 11 – O início!



Outra vez Dois Meia acordava, se encontrando numa confortável cama, com lençóis de seda e um colchão macio como pão de queijo. Era estranho: às almofadas quentes poderiam esconder uma navalha e seu corpo não estava preparado, inerte no conforto daquelas almofadas. A consciência do fato era terrível e sua mente se desalinhava, com seus olhos girando por aquele quarto de papéis de parede avermelhados, se encontrando, ao fim, com os olhos doutra criatura, que dizia:

Olá…

Ela estava na porta, segurando uma bandeja fumegante, onde se aproximava. Um sorriso estranho, indescritível, acompanhava naquele rosto, revelando certo misto de sentimentos, que o pobre Dois Meia não identificava – fugindo, desesperado. Perguntas vinham como se ensandecesse:

Quem é você? Irá me matar? — E seu corpo tremia, deslizando por aquelas cobertas. A garota, todavia – com o seu cabelo castanho claro caindo sob seus olhos como franja –, continuava andando com o mesmo sorriso, estando de modo curiosa. Isso o confundia, não compreendendo enquanto se arrastava. Seu coração, apertado, se defendia, relembrando o quanto sofrera de tantos ataques repentinos das belas damas que apareciam em sua vida. Não se adaptara a gentileza, havendo apenas mágoa. Todavia, uma voz dilacerante ainda se assentava ao seu lado, pondo a bandeja de lado, enquanto pegava, ternamente, naquelas mãos trêmulas, onde falava:

Oh… entendo. É normal sentir medo quando tudo parece abandonado! — Seu sorriso desmanchava, brevemente. — Porém, antes de tudo, deixe-me explicar algo, para você não entender errado minha mestra: nós salvamos sua vida. Veja, seu corpo estava cheio de radicais livres e um tumor já nascia em seu pulmão, você sentiria os sintomas em menos de uma semana … — Seus olhos verdes brilhavam! Era intenso, onde o rosto de nosso protagonista corava, de uma vista o encantando de modo a se esquecer, por um momento, o que escutava. Porém, resgatando em sua consciência às palavras, ele apenas arregalava seus olhos, em descrença.

Espera… — Sua voz reverberava! Porém, mesmo com o grito, ela se mantinha calma, onde continuava:

Eu sei, parece demais, porém digo com convicção: aquele golpe de minha senhora, que o desmaiara, estava repleto de uma estranha magia… Essa magia salvou sua vida… e é tudo isso que posso te explicar agora …

Ele se perdia no delírio da garota, flutuando no absurdo, encantado. Não entendia, ao certo, suas palavras, vendo apenas aquela mesma imagem surreal suspensa no ar.

Morreria?” Sua mente processava. “Então como alguém me salvou de tal destino?”

Na conclusão, a frase daquela garota se tornava uma balela. Uma superstição criada na fantasia de uma mente doente – fora de realidade – não coincidindo com a verdade do seu ceticismo. Sua mente paralisava também, junto com a imagem estática da menina. Uma voz, fora daquela órbita, porém, vinha, rompendo com o silêncio repentino que se instaurava entre eles.

Dizia: — Pare com isso! — Sendo a voz calma, dita lentamente, palavra por palavra, saindo da boca daquela mesma que o havia acertado. Ela adentrava o quarto, vestindo um quimono. Sua expressão era suave, carregando, na sabedoria, certa gentileza, onde continuava: — Ele não entenderá a verdade a menos que a verdade seja dele também.

Vendo-a, o rosto da menina enrubescia. Ele não entendia, como se atrás do tigre houvesse uma fera maior ainda!

Faça um chá para mim e deixe-me a sós com o nosso mais novo membro! — Se assentava também naquela cama.

Sim senhora! — E a menina, sequer hesitando, respondia. Saía do quarto, com o passo apressado. Dois Meia a via de modo desesperada, frenética, o assustando. Sua guarda levantava. A dama que o observava, no entanto, pensava sobre aquela perspicácia como algum tipo de qualidade, mesmo com tantas motivações covardes. Um sorriso esboçado! A voz, ainda suave, o pegava desprevenido. A face leniente o encarava, onde dizia-se:

Bela bandeja, essa menina é muito atenta. — Seus dedos furtivos tocando os lençóis, havendo uma sagacidade discreta, onde buscava-se algo incerto. Ele escutava: — O nome dela era, originalmente, Iris… agora se chama Anne. Eu escolhi esse nome pois combina com ela… mas acho que você não vai entender. Não tendo referências para tal, é impossível entender mesmo, de modo que vou explicar: Anne Frank foi…

De volta ao quarto, Anne reaparecia, tímida, atrapalhando inconscientemente o discurso que a dama preparava. Com boas intenções, ela dizia: — Senhora, desculpe, porém não me disse qual chá?

A dama não a fitando, roubava seu ar, dizendo sem mostrar sentimentos:

Fica ao seu critério!

Ela estremecia, abaixando sua cabeça e sumindo por aquela porta – sequestrada pelo corredor. Atônito, Dois Meia acabava por encarar a bela dama em sua frente com todo temor. Seus olhos pareciam ver a estrutura de um demônio. Demônio este que se escondia por trás de um sorriso formado e dos profundos olhos que o penetrava.

A dama continuava: — … Anne Frank foi uma menininha judia que morava na Holanda, uma antiga nação antes da grande queda, durante a segunda guerra mundial. Ela passou três anos de sua vida dentro de um anexo secreto, escondida e com medo, dividindo sentimentos com outros moradores daquela triste moradia. — Dois Meia não entendia, onde sua cabeça era apenas levada por aquela torreta de palavras sem significado. — Ela morreu, jovem Dois Meia, morreu de tifo num campo de concentração, junto com o seu medo e todos os outros sentimentos. Por mais que ela tenha sido uma heroína ou algo do tipo, não se pode vê-la em algo além de uma vítima. Ela foi esquecida, óbvio, no nosso novo mundo a história morreu, porém ela é um bom exemplo de fraqueza, uma fraqueza que embuti no nome de minha discípula apenas para ela nunca se esquecer das malezas desse pecado!

Isso… eu me lembro disso… Inerte, no fim daquela história, Dois Meia olhava para a dama, com ela olhando-o de volta. Em seu peito, cada palavra era sentida como uma facada, entendendo que a mesma havia invadido às entranhas de sua mente. Seu sorriso não o enganava, no entanto, ele preferia assim. Era estranho.

Bem… — A voz retornava. — Com esse rosto de desentendido, vejo que palavras confusas não são mais necessárias. Coma, mais tarde alguém virá aqui para te instruir. — Finalizando com a mesma acariciando a bochecha de nosso protagonista numa despedida, indo em direção a porta, em seguida. No entanto, por uma última vez, sua face se virava em direção daquele.

Aliás — Sua voz tinha um tom doce, era memorável. — Meu nome é Um, por favor, não se esqueça.

Dois Meia confirmava com a cabeça, dizendo um inaudível okay”, tendo Um saindo, finalmente, em direção aos feixes oblíquos de luz que invadiam o quarto.

Eu não entendo.’ Olhos caíam, confuso. Sua mente processava; ‘Será que é certo?’, Pensava. ‘será que é mesmo certo eu estar aqui? Minha vida dá um largo salto e eu tenho que aceitar, porém, uma parte ainda sensata de mim sente que estou escalando um castelo de areia… se ele desmoronar, morrerei?

Perguntas no silêncio! Em meio aos seus ponderamentos, o estômago roncava, percebendo a fome, qual já estava bem habituado, mas que, ainda assim, o motivava a roubar um prato daquela bandeja, vendo uma sopa misteriosa, com coisas das quais ele nunca havia visto boiando pela superfície. Dois Meia pegava uma colher de pau – também da bandeja –, tomando um gole: sua alma paralisava e o seu ser contemplava. Suas papilas gustativas derretiam. Tudo o que havia naqueles pratos, despareciam. Mas não como se isso importasse …



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